No início do mês, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ordenou que a Petrobras mante-se a usina termoelétrica de Três Lagoas ligada, mesmo com risco de "falha catastrófica" na estrutura.
Segundo a petroleira, a unidade não podia continuar ativa, pois deveria passar por manutenção em sua estrutura que apresentava alguns danos.
No entanto, o ONS ignorou a necessidade da revisão justificando que a usina não poderia parar devido à crise hídrica que o país vive.
Com o nível dos reservatórios das hidrelétricas muito baixo devido à pior estiagem dos últimos 91 anos, o ONS tem exigido que usinas de geração térmica – a gás, diesel, biomassa e carvão – funcionem na capacidade máxima.
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No primeiro fim de semana de setembro, entre os dias 3 e 5, a Petrobras havia comunicado ao Operador que precisaria paralisar as operações de sua usina térmica de Três Lagoas, uma planta de 386 megawatts de potência instalada em Mato Grosso do Sul, porque tinha de fazer uma manutenção importante na estrutura.
A empresa teve o cuidado de agendar o serviço para o fim de semana, quando o consumo elétrico no País diminui, e apresentou a programação com duas semanas de antecedência.
Como é praxe no setor, se tratava de uma parada programada, ou seja, uma operação de rotina. Ocorre que o ONS decidiu rejeitar o pedido.
Três dias antes da paralisação agendada, no dia 31 de agosto, o Operador rejeitou o pedido da Petrobras e, sem dar espaço para justificativas, declarou que “em função do cenário energético, com cargas elevadas e alto despacho térmico”, tinha que manter a “máxima disponibilidade de unidades geradoras” e que a paralisação deveria ocorrer apenas no feriado, entre 5 e 7 de setembro.
No dia seguinte, a Petrobras ainda insistiu com o órgão regulador e pediu para que fosse mantida a programação original da intervenção, porque “já não havia tempo hábil para reprogramar a atividade e que essa postergação de data ia contra as recomendações dos especialistas e do fabricante”.
O ONS, porém, voltou a rejeitar as alegações da companhia e, por meio de um e-mail, manteve a ordem de adiar a parada, indicando mais uma vez o cenário de crise energética para adiar a intervenção na usina. Restou à Petrobras ignorar o pedido.
“Diante das recomendações do fabricante (dos equipamentos da usina) e da equipe de engenharia e, ainda, frente ao risco de falha catastrófica desta turbina, a Petrobras necessitou prosseguir com a parada emergencial”, informou a Petrobras, em comunicado ao qual a reportagem teve acesso.
A parada ocorreu e a empresa fez a manutenção. Em laudo enviado para a Aneel e ONS sobre o assunto, a estatal fez questão de destacar que, ainda em fevereiro, em manutenção de rotina, já havia encontrado danos em partes da estrutura da usina. Os reparos foram feitos em manutenções programadas.
“A Petrobras tenta, sempre que possível, coordenar as intervenções de maneira programada, inclusive enviando notas técnicas explicando a criticidade dos serviços a serem executados, quando necessário, mas existem situações emergenciais com risco para o equipamento ou instalações”, declarou a empresa ao ONS e à Aneel. Nesses casos, afirmou a companhia, é necessário parar de maneira emergencial, inclusive, para evitar situações de desligamento forçado, o que pode causar problemas mais graves a toda programação de geração do setor.
Estresse da estrutura. No início deste mês, a Petrobras se reuniu com representantes do setor elétrico, que cobraram detalhes sobre cada uma das plantas térmicas da companhia e o adiamento de suas manutenções.
Há casos de usinas que tinham paradas programadas de até 27 dias, por exemplo, e que a companhia se comprometeu em realizar o trabalho em apenas três dias, de forma a manter a geração plena no maior tempo possível.
O coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro, alerta sobre os riscos desse estresse na estrutura, uma vez que muitas térmicas não foram concebidas para operarem o tempo todo.
“É uma situação delicada e de risco. O governo está forçando as estruturas, adiando datas ou encurtando paradas, justamente por causa da crise hídrica. Essa situação com a Petrobras é um reflexo dessa crise. A ordem é empurrar com a barriga até onde for possível para preservar água nos reservatórios”, diz Castro.
O risco de apagão fez com a Aneel criasse a bandeira de crise hídrica na conta de luz, que acumula aumentos desde o começo do ano. A energia produzida pela termoelétrica é mais cara do que a gerada pelas usinas hidrelétricas.
Por meio de nota, o ONS informou que, “como uma das ações para o enfrentamento da escassez hídrica, solicitou, em julho deste ano, a todas as usinas geradoras que adiassem suas manutenções a fim de aumentar a disponibilidade de geração”. Segundo o órgão, “cabe ao agente avaliar a viabilidade técnica e operacional de acatar a solicitação ou não”.