Cidades

Pantanal

Nível do rio Paraguai deve fechar o ano com mais água que em 2020

Forte estiagem foi brecada com volume alto de chuva que está caindo na região sudoeste de Mato Grosso

Nélida Navarro

01/12/2021 - 08h00

Em época de estiagem no rio Paraguai, as atenções são voltadas principalmente para a situação registrada em Cáceres (MT).

É nessa região que o impacto da chuva vai acumulando-se e tem um impacto direto sobre o nível do rio ao longo de seu curso, com desdobramento em Corumbá, Ladário, até Porto Murtinho. 

E após chegar perto do menor nível histórico de seca (-0,61 cm), a partir de novembro houve uma mudança de padrão.

Estimativa feita pelo Serviço Geológico do Brasil do Brasil aponta que o nível do rio Paraguai em 2021 deve atingir índice maior do que o registrado ano passado. 

Em dezembro do ano passado, a régua da Marinha em Ladário apontou para 0,20 cm de nível. Conforme o Serviço Geológico, a previsão que em 2021 o nível ficará em 0,88 cm.

Toda essa condição foi identificada após monitoramento em cinco diferentes estações fluviométricas, incluindo Cáceres, Bela Vista do Norte, Ladário, Forte Coimbra e Porto Murtinho. 

Houve ainda acompanhamento das chuvas a partir de dados obtidos por satélite para períodos que abrangem até 28 dias futuros.  

Os pesquisadores voltam a atenção para a situação em Cáceres porque o nível de chuva nessa região tem capacidade de alterar toda a calha do rio Paraguai em sua extensão de 2.685 km, com nascente em Mato Grosso e foz no Rio Paraná. 

A bacia tem como principais afluentes, ainda, em sua margem direita, os rios Cabaçal, Jauru e Sepotuba. Na margem esquerda, os fluxos são dos rios Cuiabá, São Lourenço, Piquiri, Taquari, Negro, Miranda e Apa.

“Importante destacar nesta última semana (dados divulgados em 26 de novembro) o impacto da elevação do nível d’ água do rio Paraguai na estação fluviométrica Cáceres, subindo mais de um metro e atingindo valores próximos à mediana. 

Este fato se deve principalmente à incidência de volumes de precipitação significativos ocorridos em sua bacia de contribuição. 

Nas demais estações fluviométricas situadas ao longo do rio Paraguai o nível d’água continua ainda se situando na zona de atenção para mínimas (abaixo da cota de permanência de 90%)”, aponta o boletim de monitoramento hidrológico da estiagem na bacia do rio Paraguai, produzido pelo Sistema de Alerta Hidrológico.

O professor do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Vinícius Capistrano, que acompanha a situação de chuvas e do nível do Paraguai, explica que o volume de água registrado em Cáceres pode demorar entre duas a quatro semanas, dependendo das condições próprias da bacia hidrográfica. 

São 550 km a serem percorridos entre Cáceres e Corumbá, por exemplo.

O pesquisador, em agosto deste ano, fez estudo indicando que para o rio Paraguai voltar a ter nível de água fora do período da crise hídrica, iniciada no final de 2019, seria necessário que houvesse chuva de 860 mm, precipitação 50% além da média dos primeiros sete meses deste ano.  

“Este é o terceiro ano com a região pantaneira mais seca que o normal. Assim, para voltarmos à normalidade, vai depender de uma recuperação lenta com aumento de chuva moderado ou de uma recuperação mais rápida mediante uma estação chuvosa com volumes de precipitação substancialmente acima da média climatológica”, explica o professor do Instituto de Física da UFMS.

CHUVA DE NOVEMBRO

Apesar do nível pluviométrico ainda não atingir máximas, a partir de novembro a água começou a cair com mais intensidade nas áreas que alimentam a bacia. 

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) identificou que para dezembro deste ano há previsão de 210 mm de acúmulo de chuva na nascente.

Nesta primeira semana do último mês do ano, as chuvas vão se intensificar principalmente na sexta-feira, sendo que o acumulado pode chegar a 50 mm para essa região, conforme estudo do Inmet. 

Com esse cenário, em até 4 semanas esse volume de água que cair na nascente vai ter repercussão em Corumbá, Ladário, até chegar em Porto Murtinho.

A meteorologista do Inmet Andrea Ramos explica que a primavera é um período tradicional de chuva para Cáceres. Neste ano, os indicadores apontam que o índice pluviométrico voltará a ser alto, atendendo as médias.  

“Os meses tradicionais que mais chovem em Cáceres são de novembro a março. Para janeiro de 2022 temos a projeção de acumulado de 252 mm”, exemplifica a meteorologista.

Para que a chuva seja registrada na região sudoeste de Mato Grosso, onde está a nascente do rio Paraguai, uma conjunção de fatores precisa ocorrer.  

“O que favorece as chuvas nessa região são áreas de instabilidade proporcionadas por áreas de convergência que vêm da Amazônia. 

Seria como uma faixa que vai desde o sudoeste da Amazônia, passa por Rondônia, oeste de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e até o Rio de Janeiro”, detalha a meteorologista do Inmet.

Em Corumbá, os efeitos de redução da estiagem já estão sendo percebidos. 

Diferentes bancos de areia que foram formados no curso do rio, sentido sul, estão desaparecendo aos poucos. Profissionais da área de navegação relataram à reportagem do Correio do Estado que algumas embarcações já estão em condições de navegabilidade, apesar de comercialmente ainda não ser viável esse meio de transporte para cargas.  

Atualmente existe a previsão que em dezembro o rio possa ser utilizado por embarcações para fins comerciais. Ano passado, todo o último mês do ano foi de paralisação de atividades e só houve navegação a partir de janeiro de 2021.

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