O retorno das aulas presenciais em Campo Grande serviu como escapatória para muitas crianças e adolescentes.
Isso porque, estudantes da Rede Municipal de Ensino chegaram a fazer cerca de 7 relatos de abusos por mês.
Desde julho até dezembro, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) registrou 38 casos de abusos relatados -todos confirmados-, por estudantes entre 8 e 14 anos.
“Todos foram confirmados serem abusos. De todos os casos que nos chegaram, nenhum foi fato inverídico, todos foram constatados."
"Alguns com violência confirmada do ato sexual e outros que configuram violência sexual”, explicou a Superintendente de Gestão e Normas, Alelis Izabel.
Ainda de acordo com Alelis, na maiorida das vezes, os casos são com pessoas próximas, sendo na própria casa, com familiares ou vizinhos.
“Quem pratica a violência é sempre alguém que está muito perto. Na maioria das vezes é alguém que tinha que estar protegendo mas está violentando."
"É um trauma que nunca mais vai sair, a gente tem que ter muito cuidado e a escola é o território que a criança vai buscar ajuda, ela sabe que ali ela vai estar protegida”, ressaltou Izabel.
A superintendente destaca ainda que o número deve ser muito maior, já que muitos dos alunos não relatam.
Segundo o Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Nudeca), entre agosto e outubro, a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul atendeu 30 casos somente em Campo Grande.
PROCESSO
A partir do momento em que o aluno comenta na unidade escolar sobre os abusos, a escola entra em contato com a Superintendência de Gestão e Normas (Sugenor), que imediatamente vai até o local e aciona o Conselho Tutelar ou a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).
“Quando nos chega a denúncia de que o aluno manifestou o abuso na unidade escolar, nós imediatamente fazemos o encaminhamento do aluno para o Conselho Tutelar ou à delegacia responsável”, explicou Alelis.
Durante a ocasião, os professores são orientados a não perguntarem nada ao aluno, e apenas encaminhar o caso para a direção do colégio.
Para ajudar nessa difícil tarefa de denúncia, por meio do programa “Valorização da Vida”, a Superintendência realiza um trabalho social nas escolas para fortalecer a autoestima e o desenvolvimento psicossocial desses estudantes.
Além de contribuir para resolução de conflitos cotidianos vivenciados pelas crianças e adolescentes das unidades da Rede Municipal.
Segundo Alelis, o comportamento da criança também é sempre observado.
“A gente tem esse cuidado de acolhimento nas escolas. Obsevar a criança que não quer ir embora no final da tarde, que está triste, que cai o rendimento escolar. Quando ela tem essa manifestação, a gente já acende um alerta”, pontuou.
PEDIDO DE SOCORRO
Estudantes que passaram por essa situação, vivem consequências dolorosas. Um exemplo é de uma estudante, de 13 anos.
Atualmente, ela necessita de remédios para dormir, realiza tratamento com psiquiatra, tentou suicídio e têm pesadelos sobre os fatos acontecidos com o parente.
Segundo a superintendente, no início das aulas presenciais, em julho, um menino, de 8 anos, rasgou uma folha do caderno e escreveu, obviamente com erros de português:
“Pelo amor de Deus, me ajuda, que eu estou sendo abusado pelo meu pai”.
Além disso, os relatos vão desde meninas que estavam tomando banho e eram ‘cobiçadas’ por parentes próximos à meninas que sofriam violência doméstica também, por não deixar o almoço pronto no horário, por exemplo.
VALORIZAÇÃO DA VIDA
Em janeiro, o Programa ‘Valorização da Vida’, da Rede Municipal de Ensino (Reme) de Campo Grande, foi instituído como lei municipal.
Desde 2018, até dezembro deste ano, foram 20 mil atendimentos presenciais e mais de 8 mil ligações e chamadas de vídeo para atender crianças e adolescentes.
“A gente tem que divulgar, a gente tem que pedir, a gente tem que implorar para a sociedade para que denuncie”, finalizou a superintendente de Gestão e Normas, Alelis Izabel.