O sexo feminino representa a maior porcentagem dos moradores de comunidades de Mato Grosso do Sul: correspondendo a 70%, cabe às mulheres mais uma função – a de liderar.
Visando o bem comum, elas se organizam para que os direitos à segurança, moradia e dignidade sejam garantidos.
A liderança de uma favela é vista como ponto-chave para o funcionamento do local, e são essas pessoas que se encarregam das questões burocráticas, como registros, documentações, cadastro e controle de doações.
As líderes são responsáveis, ainda, pela fiscalização e pelos contatos externos com instituições, setor público e até mesmo voluntários parceiros.
A coordenadora da Central Única das Favelas de Mato Grosso do Sul (Cufa), Lívia Lopes, relatou que lideranças femininas dentro das comunidades proporcionam representatividade.
“Quando não tem liderança, conversamos com alguém para que essa pessoa se torne líder. Na maioria das vezes, são mulheres e mães solo, que estão buscando uma condição de vida melhor."
"Então, acaba que elas se colocam nesse lugar de representação dessas comunidades para que consigam ter o mínimo. São mulheres fortes, guerreiras, sempre buscando o melhor para suas vidas e comunidade”, enfatizou Lopes.
Na comunidade do Mandela, em Campo Grande, a liderança é dividida entre sete mulheres, com direito a registro no cartório.
Greiciele Naiara Argilan Ferreira, de 27 anos, é a presidente da comunidade, sua vice é Lauana Taina Nunes da Silva, de 25 anos, Ireni Barbosa Fonseca, de 42 anos, é a tesoureira da comunidade.
Francieli Gabriela, de 26 anos, é a secretária e Sandra Micaela dos Reis Araujo, de 33 anos, Adrieli Silva, de 29 anos, e Juvanete Santos Ferreira, de 45 anos, compõem a fiscalização.
Para manter a organização da comunidade, atualmente com 175 famílias, o equivalente a 350 pessoas, elas precisam se manter firmes.
Com reuniões duas vezes ao mês, tudo o que é decidido é repassado aos moradores em assembleia no Centro Comunitário, para que todos saibam o que está sendo realizado por elas.
“Deixamos tudo claro e evidente aqui na comunidade, fazemos nossa reunião duas vezes ao mês e, sempre que algo é decidido ou devemos tomar alguma ação, convocamos todos os moradores para anunciar que chegamos a uma decisão juntos, e assim tem dado certo”, explicou a líder Greiciele.
Formada há três anos, a liderança se tornou um norte para os moradores.
“Estamos há três anos liderando verbalmente e há dois anos com o registro. Desde que começamos, notamos que viramos um norte para as pessoas, às vezes é até complicado porque são muitas questões, as pessoas nos procuram para informar desde problemas nas moradias até mesmo questões pessoais.
"É um espaço em que tiramos as dúvidas de como fazer registros e também onde escutamos os desabafos. Dá trabalho, mas isso mudou para melhor muita coisa aqui”, relatou Greiciele.
Questionada sobre qual é o principal objetivo da liderança no Mandela, a resposta foi simples e enfática.
“Enfrentamos desafios todos os dias, só queremos, enquanto não conseguimos uma casa, tornar as coisas mais leves”, afirmou a presidente da comunidade.
PANORAMA
Atualmente, Campo Grande possui 38 ocupações, que correspondem a mais de 4.516 moradias irregulares, o dobro do que havia há 10 anos. Do total de moradores em favelas na Capital, 70% são mulheres.
Em um recorte mais preciso, 70% são mulheres negras, 58,9% são solteiras, viúvas ou divorciadas, 46,6% têm até dois filhos e 34,6% têm até quatro filhos.
Na última atualização realizada pela Cufa foi constatado que cinco mil crianças estão vivendo em favelas em Campo Grande. Dessas, 200 estão na comunidade do Mandela.
AJUDA
De janeiro a novembro, a Cufa conseguiu ajudar as comunidades do Estado com doação de 46 toneladas de alimentos. A central atua em cinco cidades de Mato Grosso do Sul: Campo Grande, Três Lagoas, Ivinhema, Corumbá e Amambai.
Ainda em 2021, foram distribuídos 1.320 cartões de alimentação para as famílias e 400 cestas básicas.
Por volta de cinco mil kits de higiene foram distribuídos para as mulheres. Só em Campo Grande, 33 favelas foram atendidas.