Com tendência de elevação cadenciada nos próximos meses, por conta do volume de chuvas que ocorre nas cabeceiras, em Mato Grosso, e as precipitações acumuladas na planície, em Mato Grosso do Sul, o Rio Paraguai – principal curso d’água do Pantanal – começa a se recuperar depois de registrar níveis mínimos e negativos durante a seca, nos últimos três anos.
Em Cáceres (MT), onde atingiu 28 cm em outubro de 2021, na pior estiagem em 50 anos, o rio entrou em processo de regeneração e chegou a 3,26 m, no dia 15 de janeiro.
Reduziu para 3,06 m, ontem, mas é o maior nível desde 2020, quando o máximo foi 2,86 m. Em Ladário (MS), atingiu período crítico (-60 cm), também em outubro, e oscila acima de 1,07 cm.
Nesta régua – referência para análise do movimento das águas na planície pantaneira –, o Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai, do Serviço Geológico do Brasil, estima que o rio chegará a 1,32 m na última semana do mês, com base no cálculo matemático das previsões de chuvas para a região.
Este nível, caso se confirme, foi o registrado na mesma data em 2021.
O cenário indica que a seca se prolongará na região, porém menos intensa. Influenciado pelas águas das cabeceiras, o Paraguai pode atingir um nível que se aproximará de 3,0 m, entre junho e julho, em Ladário, onde as máximas registradas em 2020 e 2021 foram, respectivamente, 2,10 m (junho) e 1,88 m (abril). Mas, a partir de abril, será um longo período de estiagem.
ASSOREAMENTO
Para os pantaneiros, que convivem secularmente com os ciclos de seca e cheia no bioma, o rio se recuperará parcialmente.
A navegação tende a ser retomada com restrições e devem ocorrer pequenas “enchentes” ao jogar água para fora de sua calha por conta do assoreamento que atingiu níveis críticos. As causas são as queimadas e tráfego intenso de botes de pesca.
“Os rios do Pantanal estão extremamente assoreados. Mesmo no caso de chuvas abaixo da média, ocorrerão ‘inundações’ a cada evento de chuva um pouco mais concentrada em curto período”, explica Armando Lacerda, pantaneiro da região do Amolar, norte de Corumbá. “As tabelas anteriormente usadas para previsões não consideram o assoreamento relevante”.
Segundo Lacerda, os incêndios ocorridos principalmente nas regiões antes permanentemente inundadas calcinaram as margens e matas ciliares, agravando sobremaneira o basculamento e cisalhamento dos barrancos.
“Ao assoreamento oriundo dos planaltos circundantes, acrescentou-se a erosão das margens fragilizadas, tanto pluvial como mecânica”, observa.
Os impactos ambientais ao longo do Rio Paraguai – junto às barrancas que se desfazem, foram-se os camalotais e as áreas de alimentação e refúgio – tendem a alterar e contrariar todas as previsões, tanto as empíricas como as científicas, alerta o pantaneiro.
A elevação do rio, no entanto, favorece a reprodução do estoque pesqueiro durante a piracema.
ANO DE SECA
“Tem ocorrido chuvas torrenciais em algumas regiões, como no Paiaguás [sub-região do Pantanal, em Corumbá], com índices pluviométricos acima de 150 milímetros”, informa Luciano Leite, diretor do Sindicato Rural do município. “Na média geral, as chuvas podem ser abaixo da média histórica, mas pontualmente ajudam a recuperar a pastagem”.
Enquanto a Embrapa Pantanal não apresenta seus prognósticos, não retornando informações solicitadas pela reportagem, os pantaneiros estimam que 2022 será um ano ainda de seca com o fim das chuvas em março.
O volume de água acumulada na parte alta (Cáceres) deve ser parcialmente absorvido pelo solo seco até chegar a Ladário (670 km), dentro de três meses.
O movimento das águas também depende da retenção nas represas hidroelétricas existentes nos rios Cuiabá e Jauru (afluentes do Paraguai), em Mato Grosso.
Pela crença do pantaneiro, que se baseia no clima (ventos, queda de temperatura e chuvas), nos primeiros dias de janeiro, haverá boa precipitação na região até março, contudo o frio chega mais cedo, a partir de abril.
O volume de chuvas tem ocorrido mais acentuadamente na região norte e nordeste do Estado, grande parte na bacia do Rio Paraná. Em Coxim, um dos principais afluentes do Rio Paraguai, o Taquari, oscila abaixo do nível de alerta (4,0 m), mas já causou inundações na planície.
Ainda na região, o Piquiri, na divisa do estado com Mato Grosso, atingiu 53% do nível de alerta (5,18 m).
Na Serra de Maracaju, os afluentes Aquidauana e Miranda estão em declínio e abaixo dos níveis históricos para o período, registrando 2,11 m e 1,43 m, respectivamente, nesta terça-feira. Ambos atingiram patamares de emergência (6,0 m) em janeiro de 2021, desabrigando dezenas de ribeirinhos. As chuvas persistem na região, com temporais.
Nível
O Rio Paraguai pode atingir um nível que se aproximará de 3,0 m, entre junho e julho, em Ladário, onde as máximas registradas em 2020 e 2021 foram, respectivamente, 2,10 m (junho) e 1,88 m (abril).