Apesar de parte do território de fronteira entre Brasil e Bolívia, em Mato Grosso do Sul, estar cercado por grades e arames, o chamado tráfico “formiguinha” tem conseguido atuar bem ao lado de autoridades como Receita Federal e Polícia Federal (PF) e dentro de área que pertence ao Exército Brasileiro.
Para burlar qualquer tipo de vigilância, os criminosos abriram diferentes trilhas na região e cortaram cercas, possibilitando que, com caminhadas de menos de 500 metros, seja possível atravessar a fronteira com pasta-base de cocaína, por exemplo.
Esquema desse tipo, que está sendo investigado atualmente pela PF, envolve jovens de 21, 20 e 17 anos e era praticado em área militar.
Um grupo com integrantes com essas idades vinha utilizando uma trilha, que ficou conhecida em Corumbá como Trilha do Gaúcho, para o transporte de cocaína com destino a Campo Grande.
Ela foi aberta em território que é de jurisdição do Exército. Sua entrada fica a menos de 200 metros do Posto Esdras, da Receita Federal, e de uma unidade da Polícia Federal.
Cortando uma mata, em diferentes caminhos, é possível chegar à Bolívia após atravessar um riacho, que atualmente não cobre os pés de quem se aventura a atravessar. Existe cerca para conter a travessia, mas ela é regularmente cortada.
Além do tráfico de drogas, esse caminho serve para contrabandistas atravessarem combustível de forma ilegal e também vinha sendo utilizado por coiotes para realizar o ingresso ilegal de haitianos em território boliviano até, pelo menos, outubro do ano passado.
Toda essa movimentação geralmente acontece depois das 18h, quando a pouca vigilância que existe no Posto Esdras diminuiu mais ainda, porque só há maior monitoramento em horário comercial, tanto com auditores da Receita como com policiais federais.
A fiscalização precária nessa região fronteiriça foi abordada em reportagem do Correio do Estado de 10 de janeiro.
Nessa matéria, houve detalhes revelados sobre a defasagem em investimento, ao longo dos anos, por parte do governo federal, que hoje em dia praticamente não garante proteção do lado brasileiro para enfrentar a prática de crimes e de contravenções.
Nessa região, a Receita Federal tem a incumbência de fazer a fiscalização em uma extensão de 200 km, porém, ao longo dos últimos quatro anos, o número de 14 auditores foi reduzido para quatro, inviabilizando qualquer tipo de operação.
O Exército é outra instituição federal responsável por ocupar a faixa fronteiriça. Essa presença até existe, mas parece pouco incomodar quem decide usar as trilhas de acesso ao país vizinho.
A chamada Trilha do Gaúcho é o local com mais “vigilância”, pois existe cerca ao longo de toda a Rodovia Ramão Gomes até a fronteira com a Bolívia. Porém, em um ou dois locais é tradicional que essa cerca acabe sendo cortada, e o caminho pela mata fica aberto. Essa área fica à direita do Posto Esdras, no sentido Brasil-Bolívia.
No lado esquerdo da fronteira, há uma estrada vicinal que fica entre a Bolívia e o posto de fiscalização da Receita Federal.
Algumas dezenas de invasões ocorreram nesse território de segurança nacional e nos pequenos ranchos que acabaram formando-se, e outras trilhas surgiram. Nesses casos, não existe cerca de arame ou qualquer outra medida de fiscalização.
INVESTIGAÇÃO
O esquema de tráfico de cocaína por essas trilhas clandestinas montadas em área militar já vem sendo investigado pela Polícia Federal há cerca de um ano.
Houve a identificação de que a Trilha do Gaúcho vinha sendo usada para o transporte formiguinha de droga quando, no começo de 2021, um corumbaense de 20 anos e um adolescente de 17 anos foram flagrados com 900 gramas de pasta-base de cocaína. Eles estavam entrando no Brasil pela trilha e acabaram surpreendidos por policiais federais que costumavam estacionar uma viatura próxima do acesso à Trilha do Gaúcho.
Depois desse flagrante, os dois jovens identificados prestaram depoimento e a PF conseguiu apurar que eles estavam envolvidos com um outro homem, de 21 anos, que, a partir de Campo Grande, coordenava o tráfico transnacional de cocaína. O destino era a venda ilegal em pontos da Capital.
Esse rapaz de 21 anos, inclusive, também ia para Corumbá para acompanhar o tráfico, bem como para fazer o transporte da droga. Em uma dessas viagens, ele acabou pego com 3 kg de pasta-base de cocaína em Aquidauana.
O entorpecente havia saído da Bolívia, atravessado as trilhas clandestinas e seria entregue em Campo Grande. Apesar do flagrante em 2021, ele conseguiu sair da prisão e voltou a atuar no tráfico, usando o mesmo método de transporte que acabou sendo identificado pela Polícia Federal.
Depois que todo o esquema foi descoberto, policiais federais desencadearam a Operação Rastro, nesta quinta-feira, para voltar a prender o jovem de 21 anos e também para apreender mais provas que possam indentificar tanto o comércio ilegal como o transporte.
“O preso de hoje [quinta-feira], cujo mandado foi cumprido em Campo Grande, tem 21 anos de idade e foi indiciado por tráfico transnacional de drogas, tendo em vista o envolvimento em um flagrante ocorrido no início do ano passado [2021] na região da Trilha do Gaúcho, em Corumbá, quando dois de seus comparsas, um brasileiro de 20 anos e um menor infrator, também brasileiro, de 17 anos de idade, foram flagrados na posse de 900 gramas de pasta-base de cocaína, proveniente da Bolívia”, explicou a Polícia Federal, em nota.
Com essa operação desencadeada, a PF agora tenta identificar o volume de droga que o trio conseguiu atravessar nas trilhas, bem como há quanto tempo esse tipo de transporte vinha ocorrendo.
Mandado de busca e apreensão cumprido em Campo Grande, em casa onde estava o corumbaense de 21 anos, vai auxiliar as autoridades a coletarem documentos, celulares e mais informações que vão ajudar a dar a real dimensão desse tipo de tráfico e também descobrir se ele abastecia outros traficantes, tanto da Capital como de outros locais.
TRILHAS CLANDESTINAS
Apesar da operação de ontem, as trilhas clandestinas ainda não foram fechadas na região de fronteira do Brasil com a Bolívia.
A reportagem tentou contato com o Exército, que mantém o 17º Batalhão de Fronteira, em Corumbá, para realizar a vigilância nessa região, porém não recebeu retorno até a publicação desta matéria.
Foi apurado com auditores da Receita Federal que atuam no Posto Esdras que não há efetivo suficiente para a realização de operações, como já ocorreram no passado, principalmente antes de 2016.
Além disso, desde o fim de dezembro, os auditores realizam operação padrão para cobrar do governo federal revisão no corte orçamentário do órgão. A medida, que retirou cerca de
R$ 900 milhões, inviabilizou a realização de concursos para aumentar o efetivo nas fronteiras e garantir pagamento de bônus à categoria.
Nem o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, nem o da Economia, Paulo Guedes, sinalizaram, durante audiências que tiveram com a Receita, que o corte orçamentário vai ser revisto.
Além do problema da fiscalização, a operação padrão na fronteira Brasil-Bolívia da Receita Federal já gerou fila de 350 caminhões aguardando o desembaraço para importação/exportação neste mês.
FISCALIZAÇÃO
Há um posto da Polícia Rodoviária Federal na Rodovia Ramão Gomes, cerca de 1,5 km antes da fronteira, que poderia contribuir na fiscalização, porém ele não tem efetivo para monitoramento.