Em Mato Grosso do Sul, os atendimentos no Hospital de Câncer Alfredo Abrão (HCAA) quase dobraram de um ano para o outro.
Na única instituição do Estado especializada em oncologia, os atendimentos passaram de 48.320 em 2020 para 80.196 em 2021, crescimento de 65%.
O levantamento mais recente do Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta que, a cada ano, pelo menos 93,9 mil novos diagnósticos da doença serão feitos no Estado.
Em Campo Grande, o Inca estima que a cada ano 9 mil pessoas sejam diagnosticadas com câncer. Conforme a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), entre 2019 e 2021, 4.696 residentes da Capital tiveram a doença detectada.
De acordo com a pasta, pelo menos 2.092 pacientes estavam em tratamento para a quimioterapia no Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado.
Longe de ser uma data comemorativa, 4 de fevereiro é o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS), este dia objetiva incentivar a prevenção e o diagnóstico precoce da doença.
Conforme o oncologista e diretor-técnico do HCAA, Gustavo Ianaze, foi possível notar no decorrer de 2021 um aumento expressivo no número de pacientes.
“O câncer tem uma tendência de aumento de diagnóstico e de incidência. Isso se deve a vários fatores, como um maior acesso da população aos exames, aos atendimentos e logicamente ao estilo de vida, que aumenta o índice de câncer na população”, disse Ianaze.
Segundo o Inca, a obesidade está entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de 11 dos 19 tipos mais frequentes de câncer. Uma rotina com consumo de bebidas alcoólicas, cigarro, sedentarismo e dieta pouco nutritiva aumenta o risco de 10 tipos de câncer.
Em MS, a cada 100 mil habitantes, 3,4 mil novos diagnósticos para câncer de pele não melanoma poderão ser feitos por ano. Em seguida, os mais incidentes neste recorte populacional são os de mama (850 novos casos) e de próstata (1,2 mil novos casos).
DIAGNÓSTICO PRECOCE
Para o oncologista Gustavo Ianaze, é essencial que a população saiba identificar os primeiros sinais de um possível câncer.
“Eu não acredito que possamos desmistificar o câncer, essa é uma doença realmente terrível e que precisa ser discutida e melhor compreendida. Precisamos falar sobre a detecção precoce, sobre os sintomas e quando procurar atendimento”, reiterou.
Conforme Ianaze, o câncer é classificado em estadiamento (grau de disseminação) de 1 a 4, sendo o estágio 1 referente a uma doença pequena, ainda em estágio inicial. No estadiamento 4, a doença já é metastática, ou seja, ela nasceu em um local e já se espalhou para outros órgãos.
“O estadiamento 4 é o mais grave, dificilmente a gente consegue atingir a cura. Então, o que é importante a população saber, os estágios 1 e 2 têm altos índices de cura. O diagnóstico precoce é extremamente importante, se as mulheres tiveram alguma alteração na mama, alguma fisgada, homens no caso da próstata, se tiveram algumas alterações urinárias, dor para urinar, não pode deixar isso para depois”, alertou o médico.
De acordo com o oncologista, quanto mais cedo for a busca por atendimento, maiores serão os índices de cura, que podem chegar a mais de 90% quando o câncer é diagnosticado precocemente.
“Por isso que nos meses de Outubro Rosa e Novembro Azul estimulamos os pacientes a fazerem os exames de rotina, porque muitas vezes nesses exames já é possível detectar o câncer de maneira precoce”, afirmou Gustavo.
Este foi o caso de Ana Raquel Müller Stella, 49 anos, que em um exame de rotina recebeu o diagnóstico precoce para o câncer.
“Minha avó paterna teve câncer de mama muito nova e uma tia materna faleceu de câncer de pâncreas. Então, sempre fui atenta aos meus exames. Tive o diagnóstico bem no início, graças ao exame de mamografia, já que não conseguiria descobrir pelo autoexame do toque, porque [o tumor] era bem ‘dentro do seio’”, relatou.
Diagnosticada em 2019, Ana Raquel completa em abril três anos de cura da doença. Para Müller, a fé foi essencial durante toda a jornada de luta contra a doença. “Quando recebi o diagnóstico, tive uma conversa bem direta com Jesus. Sabia que Ele tinha algo para me ensinar”, pontuou.
REDE DE APOIO
O apoio psicológico ao paciente é extremamente importante durante o diagnóstico e o tratamento contra o câncer.
Conforme o oncologista Gustavo Ianaze, o acolhimento é essencial para que o tratamento seja eficaz. “Não é só o médico que vai fazer o papel de ajudar o paciente, é toda uma equipe multidisciplinar”, disse.
Bruna Tamires foi diagnosticada com câncer de mama aos 28 anos, em 2019. “Fiz o autoexame durante o banho e depois de procurar minha ginecologista fui encaminhada para um mastologista”.
Durante o tratamento, Bruna passou pela cirurgia de mastectomia radical, quando os seios são completamente retirados.
“Claro que o tratamento é muito invasivo, mas sempre busquei ser resiliente e pude contar com o apoio da minha família. Acredito que uma dor dividida dói menos”, relatou.
Quando Ana Raquel não aguentava mais usar peruca, passou por um encontro que foi determinante em sua trajetória contra o câncer de mama.
“Estava saindo do shopping e vi que uma senhora me olhava desconfiada. Quando ela se aproximou falou ‘eu sou amiga do peito, você vai ficar bem, do jeito que eu tive a minha cura e a minha vitória, você também terá a sua’”, afirmou.
Segundo Müller, esse ato de carinho foi multiplicador em sua vida. “Quando eu vejo uma pessoa carequinha ou de lenço, faço questão de repetir o que essa senhora fez. Eu não sei o nome dela, se eu vê-la na rua, não lembrarei de seu rosto, mas eu vou e falo que eu sou amiga do peito, e do mesmo jeito que eu tive a minha cura a mulher ali também terá”, salientou.