Cidades

ENTREVISTA

Mariana Croda: "não há mais espaço para o machismo"

Médica infectologista foi uma das principais na área de epidemiologia do País durante a crise sanitária causada pela pandemia do coronavírus

Em alusão ao mês da mulher, o Correio do Estado apresenta nas entrevistas deste mês personalidades femininas locais que atuam em diferentes segmentos de impacto na vida das sul-mato-grossenses.

Nesta edição, a reportagem entrevistou a médica infectologista, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro do Comitê Operativo de Emergência (COE-MS) Mariana Croda.

Quando os primeiros dois casos de Covid-19 surgiram em Mato Grosso do Sul, no dia 14 de março de 2020, o COE-MS, criado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES), com a colaboração de diversas autoridades e profissionais de saúde, já estava preparado com um plano de contingência para o coronavírus, composto por três níveis de resposta: Alerta, Perigo Iminente e Emergência em Saúde Pública.  

Para frear a disseminação da doença e orientar a população sobre os cuidados necessários na nova rotina imposta pela pandemia, Mariana Croda esteve por vezes à frente das câmeras, divulgando a situação epidemiológica no Estado nos boletins diários.  

Com uma linguagem clara e acessível aos sul-mato-grossenses, a médica se dividiu entre o combate direto à Covid-19 e a parte técnica, responsável por trazer à tona os riscos que a doença, até então desconhecida pelo mundo, representava aos moradores do Estado.

Para Croda, entre os maiores desafios enfrentados nos últimos dois anos de pandemia, lidar com a imprevisibilidade foi algo extremamente difícil. 

“Não saber quando poderíamos retornar à rotina habitual e a impossibilidade de descansar, de baixar a guarda e ainda ter que enfrentar a grande desinformação que tomou conta foram um grande desafio”, salientou.  

Desde o início da pandemia, em março de 2020, a ciência desempenhou um papel fundamental, com o desenvolvimento de estudos sobre testes, remédios e vacinas contra a Covid-19. 

Mariana destacou, ainda, que a valorização dos profissionais da saúde, responsáveis por salvar diversas vidas durante a atual crise sanitária, já perdeu força.  

“No começo da pandemia, os profissionais de saúde eram aplaudidos. Com o tempo, isso foi esquecido”, reiterou a médica. Sobre a inserção feminina na área médica, a infectologista e pesquisadora reiterou que as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço em locais de atuação que eram predominante masculinos.  

“Já somos mais numerosas nas escolas médicas. Ser mulher médica atualmente é mais leve, sem precisar provar a todo momento que podemos. Não há mais espaço para machismo, e a nova geração vem tolhendo esse comportamento”, afirmou.

PERFIL - Mariana Trinidad Ribeiro da Costa Garcia Croda

Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), fez residência médica em infectologia no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, e desde 2018 é doutoranda em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde pesquisa controle da tuberculose em população indígena no estado de Mato Grosso do Sul.  

Entre os anos de 2015 e 2018, atuou como superintendente do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).  

Até 2019, foi superintendente de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Participou da Comitê de Operações de Emergência de Mato Grosso do Sul (COE-MS), grupo que tomou as decisões relativas ao enfrentamento à Covid-19 no Estado.

Atualmente, além de pesquisadora, é professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Peço para a senhora comentar sobre a sua carreira. Como é a rotina de uma médica infectologista? Quais são as patologias que a senhora mais atende?

Minha carreira se iniciou há 25 anos, ao entrar na Faculdade de Medicina em Mato Grosso [MT]. 

De lá para cá, muitas vivências me prepararam para viver essa pandemia. Em São Paulo, na residência médica no Instituto Emílio Ribas; com a epidemia de síndrome respiratória aguda grave – ou epidemia de Sars –, que aconteceu entre 2002 e 2004; em Salvador, onde morei um ano, com casos de meningite e leptospirose; e nas epidemias de dengue em Mato Grosso do Sul, onde estou há 13 anos, e H1N1, em 2010, além dos agravos que são rotineiros da nossa prática.

Para a senhora, é preciso que mais médicos se especializem na área? Você acredita que a pandemia foi um alerta para que novos profissionais se capacitassem em infectologia?

A especialidade não é atrativa pela sobrecarga e baixa remuneração. Mas ganhou visibilidade na pandemia. Espero que essa nova geração se apaixone pelo perfil dos pacientes, pela relação médico-paciente que se constrói e pela satisfação em fazer a diferença onde atua.

 

Para a senhora, como foi atuar na linha de frente da pandemia de Covid-19? Em alguns momentos a senhora precisou se afastar da família por conta dos riscos no trabalho? Quais foram os maiores desafios neste período?

O maior desafio é conciliar atuar na pandemia e a imprevisibilidade. Não saber quando poderá retornar à rotina habitual e a impossibilidade de descansar, de baixar a guarda e ainda ter que enfrentar a grande desinformação que tomou conta. 

Nunca havia vivido essa rotina de ter que provar que o que você faz não é errado ou que você segue as recomendações científicas.

 

Como são os bastidores de quem atua sob a pressão de salvar vidas durante uma pandemia? Como foi aprender a lidar com o coronavírus quando ninguém ainda tinha conhecimento sobre sua complexidade e gravidade?

Eu acredito que a infectologia dá esse ímpeto de enfrentar as novas doenças. Estudamos para isso. 

Mas o bastidor é não poder demonstrar medo e sinais de recuo. O enfrentamento à doença é sacrificante e chega a ser invisível. No começo, os profissionais de saúde eram aplaudidos, com o tempo isso foi esquecido.

 

Além dos desafios impostos pela rotina exaustiva de combate às doenças, como a senhora lida com a saúde mental?

A saúde mental foi a área mais atingida em termos de saúde do trabalhador da saúde. Eu tive que procurar ajuda durante a pandemia. 

E consegui enxergar mecanismos para proteger minha saúde mental e da minha família. Muitos padecem até hoje. Essas sequelas da pandemia ainda não são valorizadas, com poucas políticas públicas e institucionais voltadas para os profissionais da saúde.

 

Como a senhora avalia a inserção feminina nas áreas médicas? Como observa a receptividade e a credibilidade das mulheres em setores da medicina que, historicamente, pautam-se pelo paradigma da masculinidade e da força? Quais os impactos desta inserção junto à população?

As mulheres conseguiram se inserir na medicina e adentrar em áreas antes majoritariamente masculinas. Já somos mais numerosas nas escolas médicas. 

Ser mulher médica atualmente é mais leve, sem precisar provar que pode. Não há mais espaço para machismo. A nova geração vem tolhendo esse comportamento.

 

O que a senhora acredita que precisa evoluir para que a presença das mulheres na medicina cresça cada vez mais? Para a senhora, existe muito preconceito atrelado a gênero nos hospitais? Se sim, como a senhora lida com essas questões?

As profissionais de saúde mulheres são maioria. Todavia, a sociedade não está preparada para essa mulher que trabalha horas em um ambiente tão pesado e ainda tem que dar conta de todo o resto. 

O problema não está dentro das instituições apenas. Mas em todas as responsabilidades ocultas que recaem sobre a mulher na divisão de tarefas, sejam profissionais, sejam em sua rotina fora dos serviços de saúde.

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