A menos de um quilômetro da zona urbana de Corumbá, quatro onças-pintadas têm aparecido com frequência nos últimos meses. Felinos icônicos para o Pantanal, esses animais acabam gerando muito assunto entre moradores da cidade conhecida como Capital do Pantanal, que fica às margens do Rio Paraguai.
Essas aparições têm sido registradas por diferentes pessoas, como pescadores amadores e profissionais, mecânicos de embarcações e funcionários de empresa de navegação.
A área onde essas onças apareceram fica na margem oposta do Rio Paraguai. Do lado onde elas aparecem há algumas barcaças ancoradas, e elas costumam aproveitar a sombra para descansar durante o dia. À noite também já foram vistas passeando nas redondezas.
Do outro lado do rio fica um hotel e uma empresa de navegação, logo depois, há a Avenida Rio Branco, que liga Corumbá a Ladário. Nas redondezas, já no município da Pérola do Pantanal, existem algumas casas, mas nem todas estão atualmente habitadas.
Estar tão próximo da natureza exige dos moradores consciência, porque o principal segredo, nesse caso, é manter a coexistência. Além disso, a proximidade com a natureza selvagem gera potencial turístico para toda a região.
“O comentário ‘uma onça estava por aqui’ acontece sempre. Eu vi uma, filmei. E ela ficou por lá, não vou mexer com esse bicho”, comentou o pecuarista João Frades Amaral, que trabalha no Pantanal há 20 anos e viu uma onça-pintada de perto pela primeira vez em outubro do ano passado, quando começou a correr a informação que o animal estava nessa região da cidade.
Ele fez imagens na época que repercutiram muito nas redes sociais dos moradores de Corumbá, ao mostrar uma onça-pintada tão perto da cidade.
Os registros das quatro onças-pintadas perto de Corumbá começaram a ser feitos em outubro de 2021 e houve a confirmação de que elas, recorrentemente, apareciam nessa área do município. Não houve registro de que elas cruzaram o rio para acessar a outra margem, onde ficam o hotel e a empresa de navegação.
O mecânico náutico Daniel Silva trabalha nas proximidades e contou que no período de seca foi mais comum vê-las passeando na margem do rio ou mesmo deitadas perto das barcaças, dormindo.
“Parece que com essa cheia que começou por agora [em fevereiro] elas não estão aparecendo tanto. Pelo menos não tivemos mais filmagens delas”, detalhou.
CUIDADO
O programa Felinos Pantaneiros, conduzido pelo Instituto do Homem Pantaneiro (IHP), procura fazer o monitoramento das onças-pintadas que são avistadas e registradas no Pantanal. Esses animais relatados nas proximidades de Corumbá devem ser monitorados neste ano pelos técnicos.
O intuito desse trabalho é auxiliar na convivência entre os animais selvagens e os moradores da cidade. A ação ainda é ampliada e atua também em propriedades rurais.
Criado em 2016, o programa Felinos Pantaneiros implementa ações para promover harmonia entre os meios de produção e conservação e monitora aspectos ecológicos das onças-pintadas e onças-pardas na região da Serra do Amolar.
A partir deste ano, esse monitoramento também deve ser ampliado para as proximidades de Corumbá.
Só neste ano, quase 1,1 mil km já foram rodados para a realização de visitas em fazendas na região de Miranda, bem como atividades em parceria com Refúgio da Ilha, Delta do Salobra e Onçafari, com o intuito de estudar e monitorar os animais.
O Felinos Pantaneiros também atua para atender animais atropelados e houve busca ativa a uma jaguatirica, atingida por veículo na BR-262.
“É muito importante a gente falar em coexistência, porque o Pantanal é um exemplo de coexistência entre fauna e vida humana para todo mundo.
Historicamente, com os indígenas, depois com a colonização e o início da produção rural, isso há mais de 200 anos, existe essa coexistência. A região tem uma grande população de onças-pintadas. Com a Amazônia, são as maiores populações dessa espécie no mundo”, explicou o médico-veterinário responsável pelo Felinos Pantaneiros, Diego Viana.
Com o desenvolvimento da ciência para identificar formas de mitigar conflitos entre esses felinos e o setor produtivo, principalmente da pecuária, medidas são implantadas para garantir que as onças sigam convivendo nos espaços ocupados pelos seres humanos.
“São estratégias dinâmicas, ferramentas que temos usado e têm se mostrado eficazes. Assim, conseguimos reduzir o conflito do animal com o produtor rural e os moradores ribeirinhos. Conservamos a onça-pintada, o produtor rural diminui suas perdas e os ribeirinhos se sentem mais seguros e acolhidos”, contou Viana, que pontuou recursos como um repelente luminoso capaz de afastar onças-pintadas das proximidades de onde há criação de gado e outros animais. Outra medida é a utilização de cerca elétrica.
OUTROS VIZINHOS
A onça-pintada é só um dos animais selvagens que vivem nas redondezas de Corumbá. No campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), uma anta adulta apareceu em abril e foi filmada e fotografada por alunos.
Ela convive no local e tem sido vista de forma recorrente. Há três anos, no mesmo lugar, uma anta permaneceu na universidade por cerca de três meses. O campus fica às margens do Rio Paraguai.
O Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS) não fica perto do rio, porém, o prédio está localizado em uma região onde há vegetação.
Por lá, o principal aparecimento é de aves. Algumas entram em salas, como é o caso de uma coruja-buraqueira que sempre é vista por professores e estudantes dentro do prédio.
No município de Ladário, uma jiboia de mais de três metros costumava ser vista na Avenida 14 de Julho, perto de onde as quatro onças-pintadas já foram encontradas. A cobra aparecia perto de casas que ficam a menos de 15 metros do Rio Paraguai.
Neste mês, antes das 7h, pessoas que faziam caminhada pela avenida encontraram a cobra comendo uma galinha, e os Bombeiros foram acionados. As autoridades capturaram o réptil e o levaram para uma outra área para ser solto.
“De três anos para cá, após esses incêndios, os animais têm se deslocado para próximo da cidade. A onça-pintada e os outros animais devem ser entendidos pelos pantaneiros, sul-mato-grossenses e também todos os brasileiros como motivo de orgulho. Esse bioma é um dos mais protegidos do planeta. A gente precisa dar esse devido valor”, conclui Diego Viana.