Cidades

ENTREVISTA

"Trabalhamos redobrado para convencer o cidadão de que a vacina é segura"

O coronel do CBMMS destacou que a logística de enfrentamento à crise sanitária no Estado foi o grande diferencial para diminuir os indicadores da doença

Em entrevista ao Correio do Estado, o coronel do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul (cbmms), diretor de Saúde e assessor técnico na Secretaria de Estado de Saúde (SES), Marcello Fraiha, salientou os desafios enfrentados em Mato Grosso do Sul para a gestão e o controle da pandemia de Covid-19.  

Responsável pela estratégia de drive-thru de testagens e pelo Disk Covid, o coronel relembrou como as logísticas de combate à doença, a testagem e a distribuição de doses contra o coronavírus foram montadas em tempo recorde no Estado.  

Fraiha reiterou ainda que o governo federal foi infeliz quando questionou e se colocou contra as decisões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).  

“O próprio Ministério da Saúde colocando em dúvida a eficácia da vacina foi um péssimo momento de polarização. Isso nos trouxe um atraso gigante, foi um desserviço para o Sistema Único de Saúde [SUS] e para todos os estados. Nós tivemos de trabalhar redobrado para tentar convencer o cidadão de que a vacina era, sim, baseada em evidências científicas, que tinha comprovação da sua eficácia”, pontuou o coronel.  

Marcello Fraiha  - Perfil

Militar do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul há mais de 29 anos, o coronel Marcello Fraiha já foi comandante metropolitano da Capital, chefe de Relações Públicas do CBMMS e chefe de Operações da corporação. 

Atuou ainda no centro de formação do Corpo de Bombeiros e atualmente atua como diretor de Saúde e assessor técnico da SES. 

Quais foram as maiores dificuldades gerenciadas pelo senhor durante o período crítico da pandemia de Covid-19 em Mato Grosso do Sul?

Eu considero que o maior desafio foi justamente organizar o combate à doença em tempo recorde. Levamos apenas três dias para montar os drive-thrus de testagem, que funcionaram nos quartéis do Corpo de Bombeiros de Três Lagoas, Dourados e Campo Grande, algo que foi inédito.  

Em três dias, conseguimos gerenciar toda a logística necessária, foi um recorde dentro de uma situação nova. A segunda questão foi o Disk Covid. Em dois dias, treinamos um grupo de militares e 12 médicos do Corpo de Bombeiros para atender às ligações, tirar dúvidas e organizar justamente os horários de agendamento das testagens.  

Essas duas ferramentas foram fundamentais no momento mais crítico que nós tivemos, que foi o início da pandemia, quando todos queriam ser testados, em um cenário de muita preocupação. E, pelo fato de a comoção pública ser muito latente, este foi o que eu considero como um dos momentos mais difíceis.  

Como foi a montagem da logística das vacinas contra a Covid-19 no começo das remessas, que vinham em quantidade menor para atender a população?

Em relação à montagem da logística das vacinas, no começo, a dificuldade era justamente por serem pequenas quantidades para todos os municípios.  

Nós fizemos a logística de distribuição da forma que consideramos a mais coerente e também a mais justa possível, por meio do cálculo da população, que no início o Ministério da Saúde definiu como os grupos prioritários, que eram os idosos, indígenas e trabalhadores da Saúde.  

Nós tínhamos de atender esses grupos com uma pequena quantidade de doses que era enviada. Então, nós fazíamos proporcionalmente essa distribuição de doses de acordo com a população.  

Nós discutimos com todos os 79 secretários municipais de Saúde e sempre foi muito consensual entre todos que este era o melhor caminho. Que era a forma mais coerente à época.

 

Para o senhor, o Estado ter agido de forma mais célere do que o governo federal em alguns momentos críticos da pandemia foi determinante para a diminuição de casos, internações e mortes pela doença?  

Sim, isso é indiscutível, cada estado tem a sua especificidade regional. Então, não pode tratar todos de forma igual. Porque cada estado tem a sua peculiaridade.  

Nós, graças a Deus, fizemos várias ações e estratégias além daquelas que eram solicitadas e orientadas pelo Programa Nacional de Imunização [PNI]. 

Nós fomos além do que era previsto e, graças a essas ações, em que o ex-secretário Geraldo Resende era o nosso líder na Secretaria de Estado de Saúde [SES] no combate à pandemia, ele foi muito feliz [em suas decisões].  

O líder era uma pessoa muito sensata, muito proativa, e a equipe técnica que trabalhava com ele conseguia subsidiar todas as informações necessárias, todas as estratégias possíveis para que conseguíssemos, de forma célere, diminuir o número de internações, de casos e de óbitos em Mato Grosso do Sul.  

Fomos muito felizes em relação a outros estados na tomada de decisões e, inclusive, nossas estratégias foram copiadas por outras unidades da Federação, o que foi muito gratificante, vermos que estávamos no caminho certo, com Mato Grosso do Sul perdurando por vários meses como primeiro colocado na celeridade da distribuição das vacinas, bem como na aplicação das doses, em relação a todo o território nacional.  

 

Com o avanço da vacinação e, consequentemente, uma sobra maior de doses, quais medidas foram tomadas para se evitar que os lotes vencessem? Quantas vacinas perdemos por causa da validade neste quase um ano e meio de vacinação?

Nós temos a nossa Coordenadoria Estadual de Vigilância Epidemiológica, que é comandada pela Ana Paula Goldfinger, nossa coordenadora de Imunização da SES. 

O trabalho dela com sua equipe foi fantástico neste período, justamente por conta da comoção pública para ter acesso às vacinas, nos deixaram muito cautelosos com esse tipo de imunizante, assim como nós temos também cautela com os demais.  

Mas neste em especial nós tínhamos um rigor muito grande em verificar, recepcionar o lote e fazer o teste da temperatura para checarmos se ele foi acondicionado de forma adequada durante o transporte.

Nós aplicamos também um princípio básico dos setores de imunização que é justamente as primeiras doses que chegam são as primeiras que saem. Nós tínhamos essa estratégia muito bem estruturada e controlada.  

Inclusive, nós até elaboramos um programinha específico, em planilha de Excel mesmo, que nos ajudou muito. Nós sabíamos com precisão qual era o dia exato em que o lote havia sido entregue, quantos dias faltavam para determinado lote de vacinas vencer.  

E para que isso não ocorresse, para que não tivéssemos perda de vacinas aqui em Mato Grosso do Sul, nós fazíamos estratégias de vacinação de dia D, para estimular a população a vir se vacinar.  

Sempre atingimos grandes sucessos nessas campanhas, que eram trabalhosas, mas muito efetivas. Então, quando nós fazíamos a busca ativa, indo atrás dos pacientes, conseguíamos aplicar essas vacinas, o que fez com que nós não tivéssemos perdas de doses contra o coronavírus em Mato Grosso do Sul.

 

Como o senhor avalia os baixos índices da dose de reforço? Para o senhor, o que justifica a falta de interesse da população em colocar o calendário para a proteção contra a Covid-19 em dia?  

Por uma questão de princípio individual de cada cidadão. O governo federal foi muito infeliz em alguns momentos nos quais ele mesmo se colocou contra as decisões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa], em que as novas vacinas disponíveis eram liberadas e o próprio Ministério da Saúde questionava essa decisão e a vacina em si.  

Isso foi muito ruim para todos nós e deixou as pessoas em dúvida. O próprio Ministério da Saúde colocando em dúvida a eficácia da vacina foi um péssimo momento de polarização.

Essa situação nos trouxe um atraso gigante, foi um desserviço para o Sistema Único de Saúde [SUS], para o Programa Nacional de Imunização e para todos os estados. 

Nós tivemos de trabalhar redobrado para tentar convencer o cidadão de que a vacina era, sim, baseada em evidências científicas, que tinha comprovação da sua eficácia.  

Foi algo muito negativo, e nós acreditamos que isso tenha sido fundamental nessa tomada de decisão do cidadão, se ele tomaria uma dose que havia sido recém-colocada à disposição do PNI ou não. Isso é o que eu considero que afetou muito a decisão do cidadão em tomar ou não a vacina.

 

Na visão do senhor, o que a pandemia de Covid-19 deixa de legado em investimentos para Mato Grosso do Sul?

A pandemia de coronavírus, sem dúvida nenhuma, deixa um legado em várias áreas para Mato Grosso do Sul. Especialmente em leitos de Unidade de Terapia Intensiva [UTI], dos quais tivemos uma ampliação bem expressiva, um fator muito importante para o combate à doença e que perdurou em benefício de toda a sociedade.

Ficou muito evidente também como a pandemia conseguiu unir todas as Secretarias de Estado de Saúde do Brasil, bem como os secretários municipais das 79 cidades do Estado. A nossa interlocução ficou muito ágil, dinâmica e de uma forma muito segura.

 

Com o controle da pandemia, o senhor foi designado para cuidar do avanço da dengue. Qual o atual cenário da doença no Estado?

Justamente com o controle da pandemia do coronavírus, eu fui designado para uma nova crise que a Saúde de MS está enfrentando. Agora, coordeno as ações de combate às arboviroses, como dengue, zika e chikungunya.  

De acordo com o nosso último boletim epidemiológico, emitido no dia 15 deste mês, nós temos mais de 19 mil casos prováveis de dengue em Mato Grosso do Sul.  

Nós já estamos com 49 municípios com alta incidência de casos de dengue e já foram 14 óbitos até então. Em seis meses, nós já alcançamos o número de mortes de todo o ano passado, quando foram registrados 14 óbitos, o que é muito preocupante. Em virtude desta situação crítica, eu fui designado para coordenar essas ações.  

 

Quais medidas estão sendo tomadas para controlar o aumento de casos da doença em Mato Grosso do Sul?

Nós estamos fazendo outras ações adicionais, além das regulares que nós temos todos os anos. Tivemos agora vários treinamentos com equipes de saúde de vigilância sanitária também, bem como os agentes de combate às endemias do manuseio clínico e do uso de equipamentos para combate ao mosquito Aedes aegypti.  

Nós estamos com o projeto Wolbachia aqui no Município de Campo Grande a todo vapor e estamos em uma fase de soltura de mosquitos, justamente para combater o mosquito que transmite a dengue, a zika e a chikungunya.  

Estamos ainda fortalecendo as ações nos municípios que estão tendo as campanhas para chamar atenção de toda a população, porque nós observamos que, durante a pandemia de Covid-19, todos ficaram muito sensibilizados com o coronavírus e acabaram se esquecendo daquelas atitudes de evitar água parada e acúmulo de resíduos no quintal. 

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use a fachada da Sesau na capa e mantenha a foto de Papy com Dr. Victor Rocha no meio da reportagem, próximo ao trecho sobre o ofício enviado à Prefeitura. Foto: Arquivo Correio do Estado.

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