O acesso a refeições de qualidade por um preço baixo está cada vez mais escasso nas cidades brasileiras, e em Campo Grande o cenário não é diferente.
Sem um programa de alimentação popular, os famosos bandejões, e com a alta dos preços no setor alimentício, os restaurantes solidários e com preços mais acessíveis ainda são uma alternativa para driblar o valor excessivo dos alimentos, além de uma possibilidade real para a nutrição de pessoas em vulnerabilidade.
Campo Grande teve, em junho, 0,64% de inflação, 0,27% a mais do que no mês anterior (leia mais na matéria publicada na página 7 desta edição). No acumulado, a Capital teve alta de 12,06% nos últimos 12 meses. Os dados são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
No grupo Alimentação e Bebidas, o setor teve alta de 0,35% nos locais pesquisados da cidade.
De acordo com a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), entre os produtos que apresentaram maior alta em junho estão o leite (12,95%), a manteiga (5,69%), o feijão-carioca (8,19%) e a banana (3,44%).
ASSISTÊNCIA
Em Campo Grande, de janeiro a junho deste ano, a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) já concedeu cestas básicas de caráter emergencial a 6.764 famílias.
Para tentar minimizar os impactos na alimentação, o restaurante solidário, criado pela ONG Instituto de Desenvolvimento Social e Evangelista Tiradentes (IDSET), vende diariamente, na Capital, 140 marmitas a R$ 5 cada.
O valor simbólico ajuda a alimentar especialmente trabalhadores da construção civil, aposentados e pessoas carentes.
A procura não se restringe apenas à população do Bairro Tiradentes, onde o projeto está localizado, mas atende todas as regiões da cidade, conforme explicou um dos representantes, o pastor Márcio Gimenes, da igreja Verbo da Vida.
O projeto começou em 2021, com o intuito de ajudar a população local, especialmente dependentes químicos e desempregados, a ter acesso a uma alimentação acessível e completa. “Hoje a alimentação é responsável por grande parte dos gastos das famílias, e muitas não têm quase nada. Então, ajudando elas nessa parte deixamos que gastem o dinheiro em outras áreas da vida” explicou Gimenes.
O pastor evidenciou que, apesar dos esforços, a demanda está acima do comportado pela equipe, composta por três voluntários.
“Nós começamos a liberar os marmitex às 11h, 10h30min já tem pessoas procurando e em 30 minutos não temos mais marmitas. A expectativa é de que, com a ajuda necessária dos apoiadores, possamos aumentar a produção para 200 marmitas servidas diariamente”, acrescentou.
Gimenes salientou que o projeto precisa do apoio de empresas e de financiamento para que a expansão do atendimento seja possível. “Precisamos de empresas que apoiem a causa. Muitas vezes as pessoas ligam pedindo marmitex para ajudar, mas o que o projeto precisa urgentemente é de empresas e comércios que contribuam para que ele não pare, porque a conta não fecha no final. Fazemos por amor e fé”, acrescentou.
Sobre a procura de pessoas que buscam economizar com opções mais “em conta”, o pastor ressaltou que houve um aumento significativo.
“A gente não tem tanta procura de moradores de rua, aparece, mas não é tanto. Agora, de famílias que querem economizar, aumentou muito sim, por causa dos preços dos alimentos”, finalizou.
Apesar da capital sul-mato-grossense oferecer auxílio alimentar à população em situação de vulnerabilidade social, a ajuda é feita de maneira pontual e é de caráter emergencial.
A SAS explicou, em nota, que o benefício caracteriza-se por sua oferta de natureza temporária, para prevenir e enfrentar situações provisórias decorrentes ou agravadas por nascimentos, mortes, vulnerabilidades e calamidades. Em Campo Grande, o benefício eventual ocorre de forma descentralizada, nos 21 Centros de Referência de Assistência Social (Cras).
“A concessão do benefício é realizada de acordo com regulamentação estabelecida no município de Campo Grande e mediante parecer técnico do assistente social ou psicólogo de cada Cras, que obedece aos princípios de territorialidade e de competência preconizados pela Política Nacional de Assistência Social, bem como respeita os critérios estabelecidos pela legislação em vigor no município”, pontuou.
Em 2021, a SAS atendeu 14.634 famílias com cestas básicas. Já neste ano, a Pasta registrou, até o momento, 6.764 famílias que solicitaram o benefício emergencial entre janeiro e junho.
O departamento adicionou que aqueles que precisam do auxílio eventual devem procurar a unidade de assistência social mais próxima e solicitar aos agentes um estudo da situação.
MAIS BARATOS
Embora as obras no centro de Campo Grande e a pandemia de Covid-19 tenham diminuído significativamente o número de pessoas que almoçam na região, proprietários de restaurantes populares, com valor acessível em refeições como o prato feito, explicaram que a procura por alimentação continua frequente e detalharam que manter o preço baixo exige “jogo de cintura”.
O dono do restaurante Feijão Caseiro, localizado na Avenida Calógeras, Manfredo Weiler, 51 anos, vende o PF por R$ 14, preço mais praticado durante a apuração do Correio do Estado.
“Hoje os valores aumentaram muito, da carne, do frango, do arroz, das verduras nem se fala. O feijão subiu exageradamente. Óleo, nem vou falar. O preço das coisas ficou bem difícil. Mesmo que a gente trabalhe com a rotatividade de alimentos, as coisas estão ficando cada vez piores para trabalhar”, pontuou.
Manfredo afirmou que a quantidade de pessoas na rua pedindo comida também aumentou recentemente. “O número de pessoas que vem pedir comida aumentou muito. Eu costumo ajudar, se tem sobra, ajudo.
Estamos fazendo bem contado para evitar desperdício, porque as coisas estão bem difíceis mesmo”, completou. O restaurante mais acessível encontrado pela reportagem do Correio do Estado foi o Sabor Caseiro, localizado na Rua Dom Aquino, que vende o PF a R$ 10. O proprietário, Salin José de Lima Júnior, contou que o estabelecimento atende, em média, 300 pessoas por dia, e que o número já foi mais expressivo.
“Todo mundo sumiu nessa pandemia, essas obras que atrapalham também, não tem lugar para estacionar, mas sempre foi bom o local. Está complicado, mas o preço da marmita é R$10 faz muito tempo”, relatou.
Atualmente, Júnior tem sete funcionários; antes da pandemia, a equipe era formada por 12 pessoas. O responsável está à frente do restaurante há 22 anos e reafirmou que também notou o aumento no número de pessoas que pedem alimento.
“Tem muita gente que está desempregada e vem pedir comida. Eu ajudo quando tem. Por dia devem ser umas oito ou 10 pessoas”, detalhou.
SAIBA
O Correio do Estado percorreu alguns restaurantes do centro da Capital para verificar o valor cobrado no prato feito.
O menor preço encontrado foi de R$ 10, e o mais caro de R$ 20.