Cidades

ENTREVISTA TIAGO BOTELHO

"Cansei de promessas de políticos que revezam de cargo a cada nova eleição"

Tiago Botelho, professor universitário, disputa vaga ao Senado pelo PT. Ele é de Dourados e tem discurso pronto para atrair votos do agronegócio

Nascido em Ivinhema, interior de Mato Grosso do Sul, e alfabetizado em escola pública de Naviraí, formou-se em Direito, depois fez doutorado e virou coordenador e professor de Direito da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Tiago Botelho, 39 anos de idade, resolveu ingressar na política já por cima: ele concorre, pelo Partido dos Trabalhadores, à única vaga ao Senado. Vai enfrentar concorrentes já experientes, como a ex-ministra Tereza Cristina (Agricultura), do PP, Luiz Henrique Mandetta, do União Brasil e o ex-juiz federal Odilon de Oliveira, do PSD.

“A minha diferença para esses candidatos é que nós vamos apresentar um projeto a Mato Grosso do Sul. Projeto de um jovem filho da classe média, advogado, professor universitário, filho do interior, diferente deles que são da Capital, eu sou do interior, e tenho orgulho de ser do interior”, afirmou Botelho.

Tiago Botelho disse ter concordado com o convite para ser pré-candidato ao Senado pelo PT de MS por entender que “o Estado precisa com urgência de um representante no Congresso Nacional que se preocupe não apenas com os mais ricos”.

Ele afirmou ainda que “a agricultura familiar, a juventude, a educação, os pequenos empresários, os profissionais liberais, os trabalhadores, o interior, as minorias e tantos outros precisam de um senador atento para suas demandas. Sou apenas um sul-mato-grossense que não aguenta mais promessas de políticos que revezam de cargo a cada nova eleição”.

TIAGO BOTELHO - PERFIL

Professor adjunto e coordenador do curso de Direito da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); doutor em Direito Socioambiental e Sustentabilidade pela PUCPR; doutorando em Democracia no Século XXI pelo CES – Universidade de Coimbra; mestre em Direito Agroambiental pela UFMT; Especialista em Direitos Humanos e Cidadania pela UFGD; bacharel em Direito pela UEMS; licenciado em História pela UFGD.

Estreante na política e logo concorrendo à vaga ao Senado, também disputada por dois ex-ministros do presidente Jair Bolsonaro – Tereza Cristina (Agricultura) e Luiz Henrique Mandetta (Saúde) –, que armas você tem para brigar contra os dois candidatos já viajados na política?

Eu não porto arma [referindo-se ao presidente que defende o porte de arma], e eu sou contra qualquer tipo de arma com a sociedade civil. Hoje, tem mais arma com a sociedade civil do que com a polícia, né?

 

O senhor é contra o porte de arma?

Eu defendo o porte de diploma, o porte da casa própria, o porte do brasileiro poder comer comida sem veneno. Eu não defendo nenhum tipo de porte de arma.

 

Acha-se preparado para concorrer ao Senado?

Apesar de ser o mais novo, eu sou o mais qualificado. Eu tenho mestrado, doutorado, duas graduações que me preparam para ser o senador de Mato Grosso do Sul. Eu defendo o projeto do Partido dos Trabalhadores, que tem erros, mas tem acertos. 

Aqui em Campo Grande, o PT construiu quase 40 mil casas. E eu pergunto e deixo a pergunta a Tereza Cristina [adversária dele]: quantas casas Bolsonaro construiu em quatro anos em Campo Grande? Por que a comida está tão cara? Por que a carne está cara?

 

Tiago, você pode falar de projetos?

A minha diferença para esses candidatos é que nós vamos apresentar um projeto a Mato Grosso do Sul. 

Projeto de um jovem filho da classe média, advogado, professor universitário, filho do interior, diferente deles que são da Capital, eu sou do interior, e tenho orgulho de ser do interior. 

E eu ando com o presidente [Lula]. Diferente de todos que terão de mendigar o apoio e andar na garupa de Bolsonaro. 

Eu tenho para apresentar para a sociedade sul-mato-grossenses um projeto de defesa da educação e em defesa do meio ambiente, defesa do SUS, da juventude e da cultura.

 

E sua campanha tem recebido apoio?

Se você me perguntar: Tiago, quanto vai ser sua campanha? Não sei dizer, eu não recebi nenhum recursos ainda do Partido dos Trabalhadores, eu tenho andado com recurso próprio.

 Recebo meu salário, está lá no Transparência Brasil, eu sou o que tem menos bens, que recebe menos entre os candidatos, e aí me assusta, por exemplo, a utilização do poder econômico, Tereza Cristina anda de avião. 

Quem paga o avião? Como é que pode um pré-candidato ao Senado andar de avião? Por quem que anda de avião? Eu ando de carro com muita dificuldade. Dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, eu já consegui ir em 30.  

 

Você se autointitula renovação, isso?

Entre os quadros que estão apresentados, a única renovação real sou eu. Eu vejo que se colocam [adversário] como renovação, e isso é uma piada. 

Horrível, não é renovação, não. Renovação é quem se coloca a primeira vez, sabe da dificuldade que vai enfrentar, e mesmo assim eu tenho plenas convicções que o Partido dos Trabalhadores vai voltar a ter um senador aqui em Mato Grosso do Sul.

 

O senhor vem da segunda potência econômica do Estado, a cidade de Dourados. Por lá, manda o agro, há questões sociais, como a indígena, tem como agir dos dois lados?

Primeiro, nasci em Ivinhema, cresci em Naviraí e fui fazer faculdade, eu fui fazer Direito na UEMG, História na UFGD em Dourados e acabei virando professor universitário da universidade que me formou, e criada pelo presidente Lula, que é a UFGD, é um projeto do PT para Mato Grosso do Sul. 

A minha percepção, e aí eu tenho dito a sua pergunta, se é possível, eu quero dialogar com agronegócio. 

Eu quero uma mesa bem grande, e eu vou botar o agronegócio, eu vou botar os povos, eu vou botar agricultura familiar, os ribeirinhos na mesma mesa e eu vou explicar ao agronegócio que nós precisamos deixar de ser o Estado com maior violência no campo. 

Porque hoje MS é um dos estados com maior índice de violência no campo do Brasil. E por quê? Porque nós não temos políticos capazes de apresentar um diálogo e unir.  

 

Não é contra o agronegócio?

Eu não sou contra o agronegócio. O agronegócio que não desmata, o agronegócio que não violenta a legislação ambiental, o agronegócio que não joga agrotóxico em excesso, o agro, o agronegócio que não desrespeita a Constituição Federal. 

Agora, o que eu percebo é que os senadores de Mato Grosso do Sul não têm condições de apresentar um diálogo franco. 

Se a gente quer proteger o meio ambiente, se a gente quer valorizar a cultura, o ecoturismo, a gente precisa olhar os povos indígenas não como sujeitos pobres ou sujeitos alcoólatras ou sujeitos violentos, mas como os sujeitos que possuem uma cultura originária e que precisa do Estado. 

Não é o Thiago que defende a demarcação de terra indígena, é a Constituição, a mesma Constituição fala que a propriedade privada é um bem disponível. Mas ela também diz que a demarcação de terra indígena, a reforma agrária, o quilombola e o meio ambiente ecologicamente equilibrado também é.

 

Tem ido ver a comunidade indígena?

Hoje, a gente vai nas aldeias indígenas de Dourados, as crianças estão desnutridas, os idosos estão passando fome, as pessoas moram em barraco de lona, indígena também é sul-mato-grossense.

 

Como senador, quem quer representar, Tiago?

Eu não voto contra o trabalhador, eu não voto contra os mais pobres, e é por isso que eu me coloco à disposição de ser senador de MS, porque eu não quero representar os grandes, os grandes já têm grandes representantes, que é Soraya [Thronicke, senadora do União Brasil], Nelsinho [do PSD] e Simone [do MDB].

 Eu quero representar a classe dos trabalhadores, da agricultura familiar, das minorias, do SUS, dos técnicos de enfermagem, dos enfermeiros e tantos outros profissionais, dos advogados.

 

Como quebrar a barreira do antipetismo?

Primeiro, a gente precisa destacar um ponto, quem estabeleceu o extremismo na política foi Bolsonaro e o bolsonarismo. A partir deles, eles estabeleceram quem são os amigos e quem são os inimigos. 

Então, por exemplo, nós do PT, para eles, eles nos tratam como comunistas. Eu não sou comunista. Eu sou um trabalhador que acredita que os trabalhadores podem estar na política, não sou filho de gente rica, eu não tenho nome de avenida, o meu pai não foi, entende? 

Então, o que eu entendo da eleição de 2022, que é uma eleição muito polarizada e o que está em jogo é a civilidade dessa barbárie. 

Quem defendeu, quem foi contra a ciência, contra a vacina, quem é contra a urna eletrônica? É o presidente de Tereza Cristina. O meu nunca atacou jornalista. 

O presidente Lula nunca foi contra a Justiça. O presidente Lula foi injustamente preso. Que dia que vocês viram o presidente Lula falar em fechar o Supremo Tribunal Federal? Ou o Congresso Nacional? Então nós temos uma polarização. 

Eu não acho que Mato Grosso do Sul seja conservador. Eu vejo uma parcela do Estado de MS conservadora, esse Estado já elegeu Zeca do PT por oito anos, e aí eu entendo que a política é cíclica, O que nós não podemos é chegar no modelo de política do Bolsonaro.

 

E o governo atual de Reinaldo Azambuja?

Por exemplo, eu tenho várias críticas a Reinaldo Azambuja, mas eu parabenizo ele por ter feito o que fez na pandemia. Ser de lados opostos está tudo bem na política. 

O que a gente não pode é o que aconteceu de um amigo, um colega de nosso de partido, fazendo uma festa com a bandeira do PT e de Lula, um bolsonarista vai lá e atira e mata ele. Política não é para pregar ódio.

 

Eleito, como seria relação com a direta?

Eu virando um senador não vou esperar os prefeitos de direita irem ao meu gabinete ou virar as costas aos prefeitos de direita. A prefeita Adriane [de Campo Grande] não é do meu partido e se quiçá vai me apoiar. 

Mas eu sendo senador, eu quero chegar aqui e falar, prefeita, eu quero um dossiê com as potencialidades, com os problemas e como eu posso ajudar Campo Grande. A prefeitura não é dela, ela está em um mandato em que existem pessoas que precisam do poder público. 

Eu sendo eleito, acabou a nossas adversidades. Política não é Flamengo versus Fluminense. Porque o jogo de futebol acaba, no outro dia todo mundo acorda, tem de trabalhar e está tudo bem.

 

Quais as prioridades de seu mandato?

A primeira coisa que eu quero montar são cinco pontos que eu falo com prioridade no nosso mandato. O primeiro é a bancada da educação. Se tem a bancada do boi, da bala e da bíblia, eu quero montar a bancada da educação, que é a reunião de deputados e senadores que acreditam que educação é investimento, e não gasto, como fez Temer [ex-presidente Michel], estabelecendo o teto de gastos, e Bolsonaro seguiu ele. 

Educação para mim é prioridade, eu sou filho de uma mãe professora, sou professor de uma universidade pública e eu acredito na educação. E aí eu vou lutar pelo Ensino Superior, mas eu vou lutar com muito mais energia pelo Ensino Médio, Ensino Fundamental que está sucateado.  

 

Na área política, se eleito, o que pretende fazer?

Eu quero eleger a maior bancada de vereadores jovens já na próxima eleição. O meu mandato vai ser um mandato guarda-chuva. Eu não vou ser senador de mim mesmo, eu vou ser senador de Mato Grosso do Sul, e eu quero ajudar a renovar a política deste Estado. Não dá para uma pessoa que já foi deputado federal querer ficar sempre no poder, eu quero ajudar a juventude.

 

O senhor tem dito que será defensor do SUS, isso?

O SUS é o plano de saúde do pobre, só que ele está sucateado. Hoje, os profissionais da saúde, que salvaram o Brasil da pandemia, ganham pouco, o agente de saúde ganha pouco. Eu defendo uma política de aceleração do SUS, um grande PAC nós temos, tivemos o PAC da infraestrutura, eu defendo um grande PAC da saúde e o presidente Lula sabe, eu falei para ele.

 

E na cultura, o que pretende?

Eu quero me reunir com todo o setor artístico de MS, isso aqui não é só sertanejo, isso aqui é um Estado de muitas línguas. Você pega os terenas, os guaranis, o castelhano, o espanhol, você pega as fronteiras em Corumbá com a sua potencialidade, e aí nós vamos dialogar com todo os setores da cultura sul-mato-grossense, e eu quero ajudar essas pessoas.

Hoje, os artesãos, os músicos, os pintores, os artistas tão desassistidos, inclusive Bolsonaro é contra a Lei Rouanet, é contra a Lei Aldir Blanc, é contra a Lei Paulo Gustavo. Quem gosta de cultura? Quem tem humanidade elevada, e eu vou defender a cultura deste Estado.  

 

O senhor está vestido com a camiseta do Brasil...

Eu não uso a bandeira do Brasil ou da minha religião para fazer hipocrisia, porque o que fazem com a bandeira do Brasil e com as cores da bandeira e com as religiões é opressão. 

E aí, o seguinte, eu estou com uma camiseta da bandeira do Brasil e está tudo bem, se eu quiser botar a camiseta vermelha do PT eu coloco também sem titubear, posso vestir a camiseta com a estrela do PT e está tudo bem. Eu espero que as pessoas me respeitem. 

A pessoa está com a camiseta de Bolsonaro, está tudo bem. Para mim, se eu tiver com a camiseta do PT, eu espero que as pessoas me respeitem.

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