Nesses 108 anos de imigração, Campo Grande incorporou diversas tradições japonesas que hoje já se tornaram parte da cultura da cidade.
“Com a chegada dos japoneses aqui para a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, eles vêm e mostram a sua cultura. A cultura japonesa fica fortemente impregnada na sociedade campo-grandense”, analisa o historiador Roberto Figueiredo.
“Eles se estabelecem aqui e desenvolvem uma outra economia, para a questão do comércio, para a questão das hortaliças, e começam a fazer suas feiras, e das feiras vem principalmente o sobá, que é hoje comida típica, patrimônio imaterial de Campo Grande”, completa o estudioso.
A plantação de hortaliças foi uma das atividades em que esses imigrantes se envolveram.
"Historicamente, o mato-grossense vivia mais de carne e mandioca, com a vinda dos japoneses é que eles começaram a plantar verduras [eles inseriram esses alimentos no cardápio local]. Primeiro eles começaram a vender para o Exército, que consumia verduras, depois começaram a fazer as feiras para vender as verduras plantadas por eles”, conta Jorge Gonda, ex-presidente da Associação Esportiva e Cultural Nipo-Brasileira de Campo Grande.
“As próprias feiras de Campo Grande nascem em um contexto da colônia japonesa, e esse contexto vai além do sobá. Campo Grande é a ‘capital das feiras’, nós temos feiras em praticamente todos os bairros, com muitas décadas [de funcionamento]”, diz o historiador.
A tradição das feiras é tão presente que Campo Grande tem, pelo menos, 51 feiras livres de terça-feira a domingo catalogadas e espalhadas por diversos bairros. Seja começando de manhã, à tarde, ou à noite, apenas às segundas-feiras não há registros desse evento na Capital.
A mais tradicional delas talvez seja a Feira Central de Campo Grande, fundada em 1925.
Bem antes de ter um endereço fixo na Rua 14 de Julho, a feira acontecia na calçada. Nos primeiros anos, ela funcionava onde hoje está o Mercadão Municipal, mas teve vários endereços depois disso.
Em 1955, foi para a Rua 15 de Novembro, entre a Avenida Calógeras e a Rua 14 de Julho, onde ficou até 1958. Depois, se instalou na Rua Antônio Maria Coelho, entre as ruas Pedro Celestino e 13 de Maio, até 1964. A partir daí, foi levada para a Rua Abrão Júlio Rahe, local em que permaneceu por 40 anos.
Em 2004, a Feira Central foi transferida para a Esplanada Ferroviária, onde permanece até hoje.
SOBÁ
Segundo contam os descendentes dos primeiros okinawanos, o sobá chegou com os imigrantes. Mas inicialmente ele não era vendido pelos japoneses, pelo contrário, eles chegavam a ter vergonha de comer o macarrão na frente dos clientes.
“O sobá é típico de Campo Grande, porque a maioria dos japoneses que vieram para cá era da Ilha de Okinawa. Eles iam vender na feira e a comida que comiam era o sobá, que comiam escondido. Dizem que quem experimentou gostou e disse que eles poderiam vender, e daí nasceu o sobá. Graças a essa comida, Campo Grande começou a ser mais conhecida. Hoje, o embaixador do Japão no Brasil sabe que existe [o sobá] e todo cônsul que vem fala que é famoso lá no Japão”, relata Bernardo Tibana.
De tão tradicional, a comida virou bem cultural de natureza imaterial de Campo Grande, por meio do Decreto Municipal n° 9.685, publicado no dia 18 de julho de 2006. O alimento foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O prato é feito com macarrão artesanal à base de trigo, cozido com cinzas vegetais e mergulhado no caldo de carne de puchero, finalizado com omelete em tiras, cheiro-verde e carne.
Os japoneses, como consomem mais carne de porco, contam que o sobá original era feito só com carne suína, mas, para agradar o paladar dos campo-grandenses, foi criada também uma versão com carne bovina.
REFORMA
A atual Feira Central, ou Feirona, como também é conhecida, vai passar por uma repaginada. A obra está avaliada em R$ 40 milhões.
Esta é a segunda grande modificação da Feira Central desde 2004, quando saiu das ruas e foi instalada na Esplanada Ferroviária, onde permanece até hoje. A Feirona existe há 97 anos, e em 2025 serão celebrados os seus 100 anos.
O projeto arquitetônico definitivo da nova Feira Central de Campo Grande deve ser apresentado este mês, conforme a presidente da Associação da Feira Central e Turística de Campo Grande (Afecetur), que administra o local, Alvira Appel.
Dos R$ 40 milhões que serão empenhados, R$ 25 milhões foram garantidos pelo governo do Estado, e R$ 15 milhões, pela bancada federal, por meio de emenda parlamentar.
O lugar está sendo desenvolvido para dar mais segurança na manipulação de alimentos, com lojas maiores para os empreendimentos no varejo, e também para acomodar de maneira mais confortável os visitantes.
Atualmente, a Feirona comporta 300 negócios, entre os quais, 25 são restaurantes e 80 são pontos de venda de alimentos diversos.
No ano passado, a Associação projetava entre as mudanças previstas a construção de dois pavimentos, com atrativos culinários, setor de compras, lazer e informação, com referências à cultura de Mato Grosso do Sul.
O projeto para remodelação, modernização e ampliação do local está em pauta desde 2016.
Segundo o pensado pela Afecetur e informado no ano passado, a concepção do novo projeto teria dois elementos-chave. A cobertura lembraria uma oca indígena e seria feita de madeira. Já a base da estrutura traria referência ao navio Kasato Maru, que trouxe os imigrantes japoneses.
Depois do pontapé, feiras cresceram e integraram brasileiros no comércio
Até hoje a tradição das feiras segue forte em Campo Grande, mas elas não são mais formadas, em sua maioria, por japoneses ou seus descendentes: a maior parte é de trabalhadores sem ligação com a origem deste comércio.
Este é o caso de Cláudio da Silva, que hoje atua em duas feiras livres de Campo Grande, nos bairros Piratininga e Vila Carlota, mas que já esteve em 10 bairros diferentes por semana.
“Essa tradição de serem os orientais a produzir aqui em Campo Grande já não é tão mais tradicional assim, porque os mais velhos tiveram que passar o bastão e, como eles foram bem-sucedidos, os filhos seguiram outra carreira, alguns viraram médicos, engenheiros. Tanto é que no Ceasa são dois ou três que continuam produzindo, o resto são brasileiros mesmo”, conta o feirante ao Correio do Estado, entre um atendimento e outro.
No caso dele, a pandemia atrapalhou sua produção própria. Agora ele trabalha com a terceirização.
“Eu parei de plantar, a gente agora só pega de produtores e revende. Começou a pandemia, minha propriedade era longe, o custo era alto. No início [da pandemia] não podia ter as feiras, a gente ficou sem ter onde vender. Então, tive que parar a produção. O custo do transporte era muito grande, por conta de que não era em Campo Grande, plantava em Jaraguari”, relata o comerciante.