Cidades

ESPECIAL 123 ANOS

Cultura não tem fronteira

Com sua dança, culinária e cultura, os bolivianos contribuem cada vez mais para a construção da identidade multicultural de Campo Grande

Parte do que somos, algo imaterial e que ultrapassa qualquer fronteira, seja de idioma ou territorial, a junção de diversas culturas é o que faz de Campo Grande uma cidade acolhedora e construída com diferentes rostos, sotaques e nacionalidades.  

O Tratado de Ayacucho, ou Tratado da Amizade, que estabeleceu, em 1867, pela primeira vez os limites entre o Brasil e a Bolívia, contribuiu para que o trânsito facilitado entre os dois países pela fronteira seca de 385,7 km permitisse o fluxo migratório contemporâneo para Campo Grande.  

Como resultado, a Bolívia se tornou mais uma influência para a construção identitária do campo-grandense, que hoje consome a tradicional saltenha no dia a dia e que já conta com a influência da chipa e do tereré, de origem paraguaia.

Ao Correio do Estado, o médico e secretário-geral da Colônia Boliviana, Orlando Turpo, de 39 anos, relata que os bolivianos escolhem Mato Grosso do Sul por sentirem o calor do lar, pela mistura cultural que aqui existe e pela proximidade com o país de origem.  

“Por ser um estado fronteiriço, a imigração aqui é pulsante nas relações humanas, com culturas e entidades que se entrelaçam e se sobrepõem muitas vezes aos limites internacionais”, explica Turpo.

De acordo com Orlando, é estimado que mais de 8 mil bolivianos vivam em Mato Grosso do Sul. “Segundo dados divulgados pelo Consulado da Bolívia em Corumbá, esse é o número de pessoas registradas com capacidade de votação nas eleições bolivianas. Então, eu acredito que somos um número ainda maior, porque as crianças e os descendentes não estão nessa conta”, completa.

É por meio da dança e da culinária que as barreiras do idioma são quebradas para todos que se dispõem a não estabelecer uma fronteira para a cultura. Com vestimentas coloridas dos pés à cabeça, Turpo conta que a dança Tinku representa a resistência do povo contra as diferentes formas de opressão.  

“A dança Tinku é nativa da cidade e do departamento de Potosí. Essas roupas falam um pouco sobre como o povo se levanta contra o regime de escravatura. Durante os passos, mostramos a briga, onde sempre há um que ganha e outro que perde a luta”, destaca Orlando.

Os laços que se conectam na Capital

Descendente dos incas, o boliviano Damian Adolfo Yupanqui, de 48 anos, relata que vive há 28 anos no Brasil e, por buscar uma vida mais tranquila, escolheu Campo Grande há oito anos para criar raízes.

“Morei 20 anos em São Paulo e pedi a Deus para me tirar de lá por conta dos constantes assaltos. No começo, pensava que, se não desse certo, aqui já estaria perto da minha terra natal, o que facilitaria meu retorno para a Bolívia”, relata.  

Damian frisa que, em Campo Grande, finalmente divide a rotina de trabalho em sua fábrica de roupas militares com a qualidade de vida de uma capital com aspectos de interior.

“Quem me acorda são os passarinhos todos os dias, essa sim é uma vida muito boa. Aqui não tenho que me preocupar tanto com os perigos de uma cidade grande”, reitera.  

Yupanqui está à frente, ainda, da criação da Associação da Colônia Boliviana. Ele relata que, até meados de abril deste ano, não havia uma entidade oficial que representasse o país vizinho aqui na Capital.  

“O cônsul da Bolívia nos perguntou até quando viveríamos separados. Fizemos, então, um documento para o Ministério de Relações da Bolívia e desde abril estamos com a Associação da Colônia Boliviana legalizada aqui em Campo Grande. Estamos começando com os eventos agora, para resgatar a nossa cultura, culinária e música. Estamos nos abrindo para os campo-grandenses que tanto nos acolheram, e fico contente por isso”, salienta Damian.  

No dia 6 de agosto, em comemoração aos 197 anos da Independência da Bolívia, a organização da Feira da Bolívia realizou uma edição especial na Praça do Rádio, na região central da Capital.  

Filha de bolivianos, Maria Rosilda Ribera, 63 anos, nasceu na cidade de Ladário, no interior de Mato Grosso do Sul. Em 1998, veio para Campo Grande para trabalhar e, desde 2009, ajuda a difundir a cultura boliviana por meio da culinária.

“Meus pais são bolivianos, mamãe é de San José de Chiquitos e papai é de Santa Cruz de La Sierra. Para mim é maravilhoso estar inserida em diversas culturas, tendo a vivência de ter nascido em Ladário”, conta.  

Na Praça da Bolívia desde 2009, Maria Ribera conquistou clientes fiéis com a integração de pratos e bebidas brasileiros e bolivianos em sua barraca colorida. “Eu vendo sarrabulho, arroz carreteiro, rolinho de arroz cuiabano e chicha”, lista.  

Bebida comum em boa parte do continente americano, em especial nas regiões que fizeram parte do Império Inca, a chicha é originalmente feita com milho, de acordo com a comerciante Tânia Aparecida Heredia, 61 anos.  

“A bebida chicha é típica da Bolívia e originalmente feita com milho. Como não temos acesso a esse milho específico, fizemos uma adaptação e usamos o amendoim torrado com especiarias, açúcar e água”, pontua.  

Com textura arenosa por conta do amendoim torrado, a chicha surpreende o paladar.

A bebida tem um sabor refrescante e suave, ideal para os dias quentes que são rotina na capital de MS.  

SALTENHA

O secretário-geral da Colônia Boliviana, Orlando Turpo, explica que o principal prato que representa a culinária da Bolívia é a saltenha. “Temos a missão, por meio da nossa culinária e do centro cultural, de mostrar nossos costumes, ensinar e interagir com outras culturas”, diz.

A sua criação é creditada a Juana Manuela Gorriti, escritora argentina natural de Salta, exilada em 1831 em Tarija, na Bolívia, que adaptou a receita das empanadas de seu país para se integrar e tirar o seu sustento no novo país.

A história da saltenha nas terras campo-grandenses reforça que, para a cultura e a culinária, não há fronteiras.

Saltenha

Ingredientes

> 500 gramas de farinha de trigo;

> 160 gramas de manteiga;

> 5 gramas de sal;

> 10 gramas de colorau;

> 240 ml de água morna.

Filha de bolivianos, a professora universitária Suzana Vinicia Mancilla explica que a “legítima salteña boliviana” é feita com caldo e precisa ser consumida com cuidado para não manchar a roupa.  

“Essa é a versão mais apreciada. Um fato interessante é que o nome salteña é o gentílico de alguém procedente de Salta [Argentina] e, de fato, teve sua origem nesse país, mas ganhou destaque na Bolívia, sendo uma digna representante da gastronomia boliviana”, conta Suzana.

Em formato de empanada, o salgado é recheado com carne ou frango e tem como complementos ovo cozido, azeitonas e uvas-passas. 

Para uma receita, além dos ingredientes listados no quadro, são necessárias 200 gramas de peito de frango cozido temperado e desfiado, o caldo do cozimento do frango, 100 gramas de cebola picada, 150 gramas de batata picada em cubinhos, 20 gramas de açúcar, 75 ml de azeite, 100 gramas de ervilhas, 50 gramas de salsinha, 5 gramas de orégano, 80 gramas de uvas-passas, 100 gramas de azeitonas pequenas e temperos a gosto.

Para preparar a massa, é preciso derreter a manteiga com o colorau e deixar amornar. Em seguida, adicione parte da farinha, misture bem e deixe descansar por uma hora. Após o descanso, adicione o sal, o açúcar, a água e o restante da farinha, fazendo uma massa bem firme e lisa. Corte em bolinhas de 20 a 30 gramas cada, enrole-as e unte com manteiga as assadeiras.  

Cubra-as com um plástico e deixe descansar por uma hora. Abra a massa, corte e recheie. Para fechar a saltenha é preciso apertar a massa com pequenas “beliscadas” na parte de cima para dar o formato característico do salgado.

Para cozinhar o recheio da saltenha, em uma panela, aqueça o azeite, adicione o colorau e a cebola e deixe fritar.

A seguir, junte o açúcar, o caldo de frango e o restante dos ingredientes, exceto o peito de frango desfiado e as azeitonas, que serão acrescentados separadamente em cada saltenha.

O “jeitinho brasileiro” não garante o domínio da língua espanhola

Apesar de contarmos com uma fronteira em dimensão continental com países de língua espanhola, o Brasil é o único país da América do Sul que tem o português como o seu idioma oficial.  

No País, o ensino do espanhol teve altos e baixos, e apenas em 5 de agosto de 2005 foi sancionada a Lei 11.161/05, que torna obrigatória a oferta da disciplina de língua espanhola nas escolas de Ensino Médio.

No entanto, o idioma, que tem sua origem no latim, vulgar falado por parte da população que constituía a Península Ibérica, por vezes é desvalorizado para o ensino da língua inglesa, que é dominante.  

Ao Correio do Estado, a professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Suzana Vinicia Mancilla, graduada em Letras com Habilitação em Português e Espanhol, explica que, dada a proximidade de interlocução entre as duas línguas, os brasileiros acreditam que, com apenas pequenas adequações e com o “jeitinho brasileiro”, já sabem falar espanhol.  

“E não é assim. Cada língua tem suas peculiaridades, e seria importante que o sistema educativo brasileiro como um todo, e em especial o sistema educativo sul-mato-grossense, dada a posição geopolítica do Estado, propiciasse o direito linguístico de aprender o espanhol como língua adicional”, salienta.  

Mancilla destaca que, com a difusão do ensino da língua espanhola, os jovens poderiam se comunicar com os falantes dos países vizinhos e de todas as nações hispanofalantes.  

“Assim, eles poderiam ampliar seu repertório linguístico e também cultural, pois as línguas sempre estão vinculadas às culturas dos falantes desse idioma. Com isso, só temos a ganhar na formação dos nossos estudantes”, reitera.

Nova Mobilidade

Prefeitura vai usar carros de aplicativo para transportar servidores em Campo Grande

Contrato com o Banco do Brasil prevê corridas por aplicativo e táxi para viagens de trabalho; município estima economia de até 30% com manutenção da frota e combustível

05/11/2026 17h46

Prefeitura de Campo Grande vai adotar corridas por aplicativo e táxi para transportar servidores durante o expediente, com previsão de economia de 30% nos gastos com frota e combustível.

Prefeitura de Campo Grande vai adotar corridas por aplicativo e táxi para transportar servidores durante o expediente, com previsão de economia de 30% nos gastos com frota e combustível. Foto: Divulgação Prefeitura de Campo Grande

Continue Lendo...

Educação

Rede Estadual amplia vagas em 10% para 2027 em MS

Prazo começa na segunda-feira (9) e segue até 6 de janeiro; número é 20 mil superior às 200 mil vagas disponibilizadas para o ano letivo de 2026

05/11/2026 17h19

Rede Estadual amplia vagas em 10% para 2027 em MS

Rede Estadual amplia vagas em 10% para 2027 em MS Paulo Ribas

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).