Cidades

LUTO

O recomeçar diário de quem perdeu muito para a doença desconhecida

Recomeçar a vida depois de um grande percalço e aprender sobre as próprias limitações têm sido a jornada da jornalista Súzan Benites desde março de 2021

A Covid-19 já levou mais de 4,5 mil pessoas em Campo Grande. Foram pais, mães, irmãos, filhos e amigos que deixaram uma lacuna em todos os seus entes queridos que conseguiram sobreviver a uma doença desconhecida e que causou sérios problemas na saúde pública no mundo todo.

A pandemia foi letal, em especial, para Neide Nara, Rafael Benites e Atanacildo Benites, a mãe, o irmão e o pai, respectivamente, da editora do Correio do Estado Súzan Benites, quem conheço há 14 anos. Em um curto espaço de tempo, de apenas oito dias, assistimos os três deixarem a nossa colega de trabalho e amiga sozinha em casa.

Uma família unida, feliz e que se bastava acabou destruída pela doença causada pelo coronavírus. 

“Em março de 2021, meu mundo desabou sob meus pés. Eu tinha uma família que viveu um ano de pandemia sem colocar os pés para fora de casa se não fosse para compromissos obrigatórios e essenciais. No dia 1° de março, testamos positivo para a Covid-19. Do dia 3 ao dia 8 [do mesmo mês], eu internei toda a minha família e fiquei sozinha em casa, sentindo todos os sintomas característicos da doença”, lembra.

“Eu esperava que todo mundo voltasse para casa, e, então, no dia 12 de março, a Covid-19 levou a minha mãe, depois, no dia 15, meu único irmão e, por fim, no dia 20, meu pai. 

Em um intervalo de oito dias, eu perdi tudo que eu tinha de mais importante. Enquanto eu perdia minha família, meu namorado na época e marido atualmente também estava internado, e eu não tinha a menor ideia se ele também não me deixaria”, completa.

Importante se dizer que dona Neide, como era chamada, era quietinha, mas gostava de cuidar das pessoas, sempre carinhosa em todas as festas e reuniões de amigos. 

Já seu Tanaka, apelido de Atanacildo, era brincalhão e sempre tinha um sorriso no rosto. E o Rafa, de apenas 34 anos, era uma mistura dos dois, um irmão atencioso, que sempre tinha seu violão ao lado.

“Eu morava com meus pais e irmão, e todos os planos que eu tinha até então envolviam eles. Perder o Rafa, meu irmão, foi como perder a minha referência enquanto pessoa, meu porto seguro, meu lugar e o meu rumo no mundo”, diz Súzan.

Foi só depois das três mortes que o atual marido da jornalista, na época namorado, Bruno Nascimento, saiu do hospital. “Depois que tudo aconteceu comigo, o Bruno saiu do hospital, ainda debilitado, e foi a vez de revivermos tudo novamente. Nos dois meses subsequentes, perdemos a mãe e o pai dele”.

“A pessoa que eu era morreu também naquele espaço de oito dias em que eu perdi minha família, e, desde então, eu tenho tentado reaprender, recomeçar e remendar os pedaços de mim”, relata a jornalista.

A jornada até aqui, um ano e cinco meses depois da tragédia, não tem sido fácil, como conta diz a jornalista. “Não vou dizer que tem sido fácil, e não acredito que um dia vai ser. O que eu aprendi nesse tempo, e é a maneira que eu tenho conseguido enfrentar a vida, é vivendo um dia por vez”.

“São muitos os dias que não quero levantar da cama, mas não foi essa pessoa que meus pais criaram. Eles se dedicaram muito para que eu fosse quem eu sou, para que eu tivesse formação, carreira e conquistasse meu espaço no mundo. Muitas vezes, eu acredito que a minha única forma de honrar a existência e as pessoas incríveis que eles foram é me mantendo de pé, mesmo nos dias mais difíceis”, segue.

VITÓRIAS

Apesar da dificuldade que é o processo do luto, Súzan tem se mantido de pé, dia após dia, e se destacando profissionalmente, já que em 2022 foi promovida de subeditora para o cargo de editora na empresa. “Tento continuar fazendo tudo da melhor maneira que eu consigo, seja no trabalho, seja nas atividades físicas e enquanto ser humano”.

“Em um ano e cinco meses sem eles, muitas coisas aconteceram. Bruno e eu nos casamos, fui promovida no trabalho, obtive reconhecimento profissional e, principalmente, aprendi a conviver com meus limites”, explica.

O casamento foi no dia 24 de março de 2022, um ano após tudo acontecer, e a festa foi rodeada de amigos e familiares. Os dois já estavam morando juntos desde que ele saiu do hospital, e um tem apoiado o outro nos momentos de dor.

“Todas as vezes que algo de bom acontece eu não me sinto completamente feliz, e, para tentar preencher essa lacuna, eu imagino qual seria a reação de cada um deles e o quanto estariam orgulhosos da pessoa que eu tenho me tornado, muitas vezes, para mostrar para mim mesma que eles nunca deixarão de existir dentro de mim”.

“Acho importante citar que faço acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia e pilates, para tentar manter o corpo e a mente da melhor maneira possível. Não é vergonha nenhuma saber que a gente precisa de ajuda especializada para lidar com grandes problemas. Outra coisa que eu tenho aprendido é que tem dias que a gente apenas aceita que precisa de ajuda, que não vai conseguir dar conta de tudo sozinha e que não é vergonhoso precisar se respeitar. Dou um passo por vez, se precisar dar dois para trás eu dou e vou em frente novamente. Toda pequena conquista é importante”, reforça a jornalista.

De família grande e que sempre esteve presente em todos os momentos, Súzan diz que é ao lado dessas pessoas e dos amigos que ela procura estar. 

“Hoje, procuro me cercar apenas das pessoas que estiveram ao meu lado nos piores momentos e querem realmente a minha felicidade. Sou grata a família que ainda tenho, como meus tios, primos, cunhados, sobrinha e amigos. E, principalmente, sou grata pela vida do meu marido e da minha prima-irmã Bárbara, sem eles dois ao meu lado eu provavelmente não estaria aqui”.

SAIBA

A família da jornalista morreu antes que eles tivessem a possibilidade de tomar a primeira dose das vacinas contra a Covid-19.

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