Mato Grosso do Sul tem três prédios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A entidade é protagonista e essencial para a geração do uso de conhecimento para o desenvolvimento sustentável da agricultura brasileira até 2030.
Essa proposta de atuação está altamente prejudicada em razão do processo de sucateamento e desmonte que as unidades estão enfrentando. A realidade nesses locais envolve fechamento de laboratórios, falta de funcionários e risco de descontinuidade de pesquisas e construção de saber.
A Embrapa Pantanal, que fica em Corumbá, apresenta-se com condição mais sensível diante desse desmonte. Dois prédios inteiros já foram desativados e há laboratórios fechados, além de equipamentos, como lanchas, que não são mais utilizados por falta de manutenção.
A Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, é outra que está em processo de desmantelamento em algumas áreas, inclusive com a perda de locais que já foram utilizados para pesquisas.
Em Mato Grosso do Sul, ainda há a Embrapa Gado de Corte, que fica em Campo Grande. Essa estrutura, por estar localizada na Capital, oferece uma condição de pesquisa e funcionamento em melhores condições.
“O desmonte é de forma geral, em todas as unidades de Mato Grosso do Sul e nacionalmente. As pesquisas científicas aplicadas no setor agropecuário, questões ambientais e de sustentabilidade estão de escanteio. O que acontece nas universidades federais está ocorrendo por aqui, com falta de investimento”, detalha o presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf) na seção Pantanal, Igor Alexandre Péres.
“A situação orçamentária é só uma situação, porque enfrentamos um problema seríssimo de contingente, é insuficiente. A pandemia amenizou um pouco a situação porque tudo foi desacelerado, mas com a retomada o problema está gritante”, completou.
Toda essa problemática passou a constar em boletins internos da Embrapa a partir de 2014 e como poucas ações efetivas foram tomadas ao longo desses oito anos, a desestruturação passou a se agravar.
Como a Embrapa depende diretamente de pessoal para que pesquisas sejam realizadas, isso corresponde tanto a pesquisadores como técnicos de laboratório, técnico-administrativos, analistas, a falta de efetivo avolumou-se com o passar de quase uma década de saída de funcionários e nenhuma ação de reposição e continuidade de trabalhos.
“A estrutura de pesquisa está obsoleta, as condições de logística não favorecem para dar apoio. Desse jeito, há comprometimento na missão da empresa”, ressalta Péres, que atua na Embrapa Pantanal, unidade atualmente mais caótica.
“Quanto mais interiorizada a unidade, maiores os problemas. Porque ocorrem transferências, remoções de empregados. Quem fica nessas unidades e percebe o que está acontecendo tenta migrar para onde está mais estruturado ou para regiões metropolitanas para tentar continuar com alguma pesquisa”, complementa.
Em uma das tentativas de alertar toda essa situação, em agosto houve audiência pública em Campo Grande que pontuou a crise que foi instalada na Embrapa por conta de medidas de gestão.
Um dos pontos abordados para indicar causas que levam a essa falta de investimento em pesquisa e a consequente redução de valor agregado, principalmente em se tratando do agronegócio, é que o chamado complexo agroalimentar global, que domina as principais cadeias de grãos e de proteínas, tende a reduzir o interesse no País para domínio de tecnologia.
Dessa forma, a dependência do complexo agroalimentar global torna-se mais necessária. Nesse grupo estão multinacionais, inclusive brasileiras, como a JBS e a BRF.
Para sustentar essa condição, dirigentes do Sinpaf apontaram para o trâmite do marco legal dos bioinsumos. Esse marco envolve dois projetos de lei, o de nº 658, de 2021, do deputado Zé Vitor (PL-MG), e o PL nº 3.668, de 2021, do senador Jaques Wagner (PT-BA).
Depois de tramitação da proposta no Senado, o que vem sendo desenhado é que os fazendeiros não poderão produzir seu próprio insumo, o que os obriga a comprar das indústrias.
Outra situação é que, conforme levantamento do diretor de formação e comunicação do Sinpaf seção Pantanal, Alberto Feiden, a tecnologia que a Embrapa é capaz de produzir pode gerar impacto negativo de US$ 1 bilhão para a indústria de fertilizantes.
Essa atuação específica na área de fertilizantes envolve o programa Caravana Embrapa 2022, que vem capacitando técnicos para implantar tecnologias e alternativas para uso mais eficiente desses insumos em 48 polos agrícolas, de 10 macrorregiões do Brasil. Nesse contexto, até 20% de redução pode ser alcançado na dependência de compra de fertilizantes do exterior.
Desde 2017, a Embrapa passou a implantar a maior revisão em seu modelo de gestão e governança. Ela foi criada em 1973 pelo Ministério da Agricultura.
Depois de aprovada no Conselho de Administração, a empresa passou a ter de gerir recursos dentro do teto de gastos mais apertado e se adequar a regramentos da lei das estatais, que na prática não favoreceram a pesquisa e a inovação.
Já em 2017 houve redução de 17 para seis áreas administrativas na sede e de 46 para 42 unidades no País. Em 2018, as mudanças começaram a ser repassadas para os centros de pesquisa, no caso das unidades de Mato Grosso do Sul e no Brasil.
“A Embrapa chegou onde chegou com investimento público em pesquisa. O retorno para a sociedade veio a partir de profissionais altamente qualificados. Hoje, temos a degradação no orçamento para a pesquisa, a degradação no patrimônio físico”, analisa Marcus Vinícius Vidal, presidente nacional do Sinpaf.
“Quando se fala em espaço, a Nasa é referência e recebe recursos públicos. Em termos de pesquisa na área da agricultura tropical, a Embrapa é a referência mundial. Mas o orçamento não está favorecendo esse trabalho. O orçamento público para a pesquisa, que já foi de R$ 3,7 bilhões, caiu para R$ 2,7 bilhões”, completou Vidal.
O alcance da empresa estatal é muito amplo, ela já atuou em melhoramento genético abordando grãos, pastagens, frutas, hortaliças, mandioca, espécies florestais, pecuária e aquicultura, para diferentes regiões e biomas brasileiros.
Saiba
O Correio do Estado procurou a gerência da Embrapa em Brasília para que esta se posicionasse em relação ao desmonte e aos temores de que unidades como a Embrapa Pantanal poderão ser extintas a partir do próximo ano. Porém, a reportagem não recebeu retorno até o fechamento desta matéria.