A onda crescente de violência em Campo Grande já resultou em mais homicídios dolosos (quando há intenção de matar) registrados em 11 meses e 10 dias deste ano do que em todo o ano passado. Até ontem, haviam sido contadas 110 execuções. Em todo o ano de 2021, foram 108 crimes deste tipo.
Conforme levantamento do Correio do Estado com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), os casos de execuções na Capital este ano representam quase o dobro dos 64 homicídios dolosos registrados em todos os 12 municípios de Mato Grosso do Sul que fazem parte da faixa de fronteira com o Paraguai.
Na noite de quarta-feira, Gabriel Brandão Mendonça, de 22 anos, foi executado com 15 tiros, enquanto estava em frente à casa de sua ex-esposa, na Vila Moreninha III, em Campo Grande.
O jovem chegou a ser socorrido e levado até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Moreninhas, mas não resistiu aos ferimentos. De acordo com a Polícia Civil, Mendonça tinha passagem por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo.
Segundo o boletim de ocorrência, os familiares contaram que os responsáveis pelo crime, que ainda não foram identificados, passavam pelo local em um veículo Gol vermelho.
De dentro do carro rebaixado com aros esportivos, quatro homens teriam feito diversos disparos contra Gabriel.
O Correio do Estado esteve no local do crime nesta quinta-feira: foi possível notar que o medo e a insegurança prevalecem no bairro, dominado pela violência. Conforme apurado pela reportagem, nas imediações da residência onde Gabriel foi executado funciona um ponto de drogas.
Por medo de represálias, uma moradora de 59 anos, que preferiu não se identificar, relatou que o comércio de entorpecentes tem potencializado os casos de violência, não vistos com frequência há muitos anos.
“Moro aqui nas Moreninhas desde 1982, e, antes, as brigas eram rixas de gangues. Hoje, o que manda são as drogas. Ontem [quarta-feira] eu estava arrumando o jantar para minhas netas e, no momento do acontecido, parecia uma metralhadora. Desde o início do ano tivemos alguns casos similares no bairro”, salientou.
Com a tensão palpável no local, um morador, que terá a identidade preservada, pontuou que, com o crescente domínio do tráfico de drogas, a atuação policial é cada vez mais rara no bairro.
“Após o homicídio de quarta-feira aqui, a polícia nem passou. Eles [a polícia] não vêm aqui. E com os crimes, todos estão quietos no bairro, não há movimento dos moradores, e quem circula mesmo acredito que são os usuários de droga, os ‘peixes pequenos’”, disse.
AÇÕES DESORDENADAS
Em entrevista ao Correio do Estado no mês de outubro, o advogado especialista em segurança e ex-superintendente da Polícia Federal de Mato Grosso do Sul Edgar Marcon explicou que as execuções registradas na Capital nos últimos meses têm um perfil de conflito interno entre as próprias facções.
“Pelo que estamos notando, é pistoleiro matando pistoleiro. Eu acredito que esses crimes podem demonstrar brigas internas entre as facções nos bairros mais periféricos”, explicou o especialista.
COMÉRCIO FUZILADO
Outro crime com perfil das ocorrências nas cidades de fronteira foi registrado ontem na Capital. A loja de materiais de construção Destak Pisos e Revestimentos foi incendiada e fuzilada, na madrugada desta quinta-feira, na Avenida Eduardo Elias Zahran, em Campo Grande.
Quatro rapazes, em duas motocicletas, atiraram contra a loja e atearam fogo, por volta das 4h de ontem. Não houve roubo e ninguém ficou ferido. Os homens fugiram e, até o momento, ninguém foi preso.
A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) e peritos da Polícia Civil estiveram no local e vão investigar as causas do crime.
O Corpo de Bombeiros Militar (CBMMS) esteve no local mais cedo para apagar as chamas. Imagens de câmeras de segurança serão analisadas e vão auxiliar no trabalho das autoridades.
De acordo com uma mulher que trabalha próximo à região e não quis ser identificada, foi possível ouvir o barulho dos tiros e houve explosões em virtude do fogo.
O proprietário da loja, que também não quis ser identificado, está bastante abalado. Ele não desconfia das causas do crime e afirmou que sua loja foi alvejada por “bandidos, e não qualquer bandidinho”.
Os tiros de fuzil quebraram a porta de vidro. O fogo atingiu o primeiro e o segundo andares e destruiu vários produtos da loja, como pisos, revestimentos, porcelanatos, teto, entre outros. A fumaça tomou conta do local.
SAIBA
Gabriel Brandão Mendonça foi testemunha da morte de João Lennon Ferreira dos Santos, de 31 anos, ocorrida no dia 28 de julho deste ano. À época, Santos foi executado com 20 disparos. O caso ainda segue em investigação.
(Colaboraram Leo Ribeiro, Naiara Camargo e Cauê Reis)