Cidades

infraestrutura

Falta de pagamento e aumento de custo são principais causas de abandono de obras

Empresas alegam ter tentado ajustar preços das obras em razão do aumento do custo dos materiais, mas não tiveram êxito

Cauê Reis

26/01/2023 - 09h00

Das 23 obras paradas em Campo Grande, a maioria foi paralisada por rescisão de contrato, e os dois fatores principais para o fim dos acordos são o atraso de pagamento e o aumento do preço dos materiais de construção durante a pandemia.

De acordo com as empresas do segmento, o reequilíbrio foi tentado, mas a Prefeitura de Campo Grande afirmou que não podia reajustar os valores. 

O Correio do Estado entrou em contato com as empreiteiras responsáveis por obras de infraestrutura, saúde, transporte e lazer para saber os motivos da não conclusão das intervenções. De 11 empresas, apenas cinco enviaram suas justificativas. 

Boa parte das empreiteiras está com contratos rescindidos com a prefeitura. No entanto, no portal de obras do Executivo municipal ainda consta o nome da maioria delas como responsáveis pelas intervenções. 

A assessoria da Prefeitura de Campo Grande informou, por meio de nota, que “a atual gestão está fazendo um diagnóstico e buscando soluções, elencando as prioridades para que [as obras paradas] sejam retomadas, solucionadas e resolvidas”. 

ASSISTÊNCIA SOCIAL

Na área de assistência social, sete obras estão inacabadas, todas de responsabilidade da mesma empresa, a MDP Construção Civil Eireli.

O Correio do Estado entrou em contato com a empresa, e o dono, que não quis se identificar, informou que todas as construções tiveram os contratos rescindidos. 

As obras deixadas pela metade eram de reforma e readequação de Centros de Referência da Assistência Social (Cras) nos bairros Vida Nova, Vila Gaúcha, Jardim Botafogo, Jardim Canguru, Jardim Zé Pereira, Guanandi e Vila Popular – apenas nos dois primeiros citados consta a informação no site de obras de que as reformas estão canceladas. 

De acordo com o dono da MDP Construção Civil Eireli, o motivo da rescisão foi o aumento dos preços dos materiais, mas ele não quis comentar o assunto, pois tem outras obras em vigência com a prefeitura. 

As intervenções nos Cras foram divididas em “A” e “B”. As reformas da etapa A foram iniciadas em junho de 2020, segundo o site de obras da prefeitura, e o valor total para os reparos foi orçado em R$ 510.984,13, tendo sido executados R$ 205.886,55 deste montante. 

Já na etapa B o investimento foi de R$ 27.205,68 do valor total contratado pelas obras, que foi de R$ 452.537,44. 

A execução das reformas tinha prazo de cinco a seis meses. Não há informações sobre o que será feito nos locais. 

TRANSPORTES 

No setor de transporte, a GTA Projetos e Construções informou em novembro de 2022, ao Correio do Estado, a rescisão do contrato para as obras do corredor de ônibus da Avenida Calógeras. Segundo a empresa, a Prefeitura de Campo Grande havia atrasado o pagamento por diversos meses. 

A empreiteira LT Construções e Comércio está como responsável pela obra de instalação dos novos pontos de ônibus da Avenida Bandeirantes e da Rua Bahia, mas a reportagem não conseguiu contato para saber o motivo da paralisação. 

A empresa também venceu a licitação para obras nas ruas Guia Lopes e Brilhante, que foram entregues. O valor total da intervenção está previsto em R$ 942.908,41, mas o já executado não está disponível no portal da prefeitura. As obras foram iniciadas em 2020, mas até o momento não foram finalizadas. 

A empresa responsável pelo corredor de ônibus da Avenida Marechal Deodoro, a Engepar Engenharia e Participações, não retornou o contato da reportagem do Correio do Estado. Entretanto, já executou R$ 7.091.214,67 do valor total da obra, que é de R$ 13.006.594,32. 

A antiga empresa responsável pelas reformas dos terminais de ônibus General Osório, Nova Bahia e Hércules Maymone, a Trevo Engenharia, informou na época da desistência que o motivo foi o aumento dos preços. Até o momento, não há informações sobre a relicitação das reformas. 

INFRAESTRUTURA 

De acordo com o site de obras da prefeitura, a empresa responsável pela revitalização e controle de enchente do Rio Anhanduí, na Avenida Ernesto Geisel, é a Dreno Construções. 

No entanto, em junho do ano passado, o ex-titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Rudi Fiorese, informou que a obra deveria ser relicitada ainda em 2022, o que não aconteceu. 

Em contato com a empresa, a reportagem foi informada que o responsável não estava no local. De R$ 15.832.524,99 do valor total da intervenção – do lote entre as ruas Bom Sucesso e do Aquário –, R$ 8.119.797,03 já foram executados.

A outra etapa paralisada, entre as ruas Abolição e Bom Sucesso, estava orçada em R$ 25.730.013,43 e teve a execução de R$ 15.104.639,42. 

A empresa responsável pelas etapas C (lote 1) e D das obras de pavimentação do Bairro Nova Lima, a GTA Projetos e Construções, informou que pediu a rescisão de contrato em função dos atrasos de pagamento do Executivo. 

O investimento realizado para o início das obras da etapa C (lote 1) foi de R$ 4.189.611,76, de um valor total de R$ 20.516.321,02, o que corresponde a 20% do total a ser executado. 

Já na etapa D, essa porcentagem é ainda menor, de apenas 2%, já tendo sido investidos R$ 330.852,59, do valor integral de R$ 11.455.706,87. 

O Correio do Estado não conseguiu informações sobre a empresa responsável pela obra de controle da erosão em frente ao presídio da Gameleira. 

LAZER 

A Gimenez Engenharia, responsável pela reforma da piscina e do complexo do Parque Jacques da Luz, informou que rescindiu contrato.

A empresa solicitou o reequilíbrio de contas, em função do aumento de preços causado pela pandemia de Covid-19, mas a prefeitura disse que não podia realizar o reajuste. 

A reforma foi iniciada em 2019 e R$ 411.181,84 já foram utilizados, do valor total de R$ 961.999,58 destinado para a obra. 

A CW Engenharia informou que também rescindiu o contrato de construção do estádio de beisebol na Associação Campo-Grandense de Beisebol em razão do aumento dos preços dos insumos. 

A CW Engenharia tinha um contrato de R$ 221.171,61 para a realização da obra, que foi relicitada com o valor de R$ 686,9 mil, mas ainda não foi reiniciada. A empresa JN Construtora teve a proposta vencedora, mas a reportagem não conseguiu contato com para saber o motivo da demora no início da obra. 

A Paragon Engenharia ainda é a responsável pela Praça do Guanandi. Entretanto, o responsável pela empresa, Guilherme Vit, informou que a obra está parada por atrasos de realinhamento, reajuste e reprogramação desde dezembro de 2021, mas a empreiteira ainda está tentando diálogo com a prefeitura.

Do total de R$ 664.626,79 previstos para a obra, R$ 183.444,44 já foram utilizados. 

O número de telefone disponível da empresa DT3 Construções está errado. A empresa é listada como responsável pela revitalização do Horto Florestal, de acordo com o site de obras da prefeitura. O valor executado para a reforma do local foi de R$ 550.091,22, do total de R$ 819.312,15. 

A empresa responsável pela reforma do Parque Nascente do Sóter, LT Construções e Comércio Ltda., não foi encontrada. No local, já foram executados R$ 526.981,52, do total de R$ 774.273,00 para a realização da obra. 

A MRL Comércio de Materiais Elétricos e Serviços, responsável pelas obras de reforma e readequação para acessibilidade da Orla Morena, não foi encontrada. Do total de R$ 463.148,35 previstos em contrato, R$ 264.682,18 já foram executados.

Saiba: Obras da Educação - Das sete empresas responsáveis por 13 obras da Educação, apenas uma informou o motivo da rescisão de contrato.

A Gomes e Azevedo disse à reportagem que a prefeitura atrasou seis meses de pagamento, o que motivou a empreiteira a abandonar a obra da escola municipal da Vila Nathália.

Outras duas empresas responsáveis por obras no setor, a Selco e a Coletto Engenharia, estão atualmente inaptas pela Receita Federal, ambas por omissão de dados, e não quiserem falar.

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