A sífilis é uma infecção causada pela bactéria Treponema pallidum, transmitida através de contato sexual, seja ele oral, anal ou vaginal, e até pelo beijo, em alguns casos.
Essa Infecção Sexualmente Transmissível (IST) é exclusiva dos seres humanos, e possui tratamento, oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.
Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES), em 2022, foram registrados 2.769 pacientes com a sífilis adquirida, aquela transmitida através de relações sexuais, e 1.320 pacientes gestantes com a doença em Mato Grosso do Sul.
Destes, 986 (35,6%) pacientes de sífilis adquirida e 422 (31,9%) gestantes são da Capital.
Ao Correio do Estado, Jaqueline Barbosa, gerente técnica da sífilis no Serviço de Infecções Transmissíveis da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau), explicou que a sífilis se desenvolve em estágios, e é dividida em quatro tipos: primária, secundária, terciária e latente.
A sífilis primária se manifesta a partir de pequenas lesões, que geralmente aparecem na região anal e na boca. Normalmente, neste estágio, ela é transmitida também através do beijo.
“Pode aparecer outros sintomas também, mas o mais clássico é essa lesão. Ela (lesão) pode desaparecer com ou sem tratamento, então às vezes aparece uma feridinha lá na boca, a pessoa acha que é uma afta e ela some”, explicou Jaqueline.
Posteriormente, ela pode aparecer como sífilis secundária, com lesões que aparecem normalmente nas palmas das mãos, nas plantas dos pés e no corpo, geralmente na região torácica.
“São umas feridinhas, tipo de catapora. Podem desaparecer também sem tratamento, então às vezes a pessoa tem essa lesão e não busca tratamento”, comentou.
A fase terciária já é mais avançada, e causa alteração cardiovascular, alteração neurológica e lesão de pele grave. Geralmente, o diagnóstico da sífilis terciária já é feito no hospital, porque o paciente se encontra em estado agravado.
“É muito difícil ter esses casos, é difícil chegar até na terciária, né? Ainda mais agora que tem diagnóstico, tratamento, as pessoas são mais informadas. Mas ainda tem casos de sífilis terciária, normalmente neurosífilis, que dá alteração neurológica.
A fase latente da doença é assintomática, então ela não apresenransintoma nenhum, e menos transmissível.
“Às vezes a pessoa não vai passar por essas outras fases. Então a pessoa nunca vai ter uma ferida e vai ter sífilis. Muitas vezes a pessoa procura fazer teste rápido de IST, vai no posto e às vezes não acredita que está com a doença, ‘Por que que deu sífilis aqui no teste se eu não senti nada? Nunca tive nada…’” acrescentou.
Em gestantes, se a sífilis não for tratada da forma adequada, é transmitida através do parto, para o bebê. Esse tipo de transmissão é chamado transmissão vertical, e a doença no bebê recebe o nome de sífilis congênita.
“É protocolo do pré-natal realizar a testagem rápida no primeiro e no terceiro trimestre, então todas as gestantes que fazem o pré-natal na rede pública de saúde realizam essas duas fases dos exames, quando ela começa o pré-natal na idade gestacional adequada”, explicou.
A partir do momento que recebe o diagnóstico, a gestante já inicia o tratamento. Segundo a gerente técnica, quando a doença é detectada, tratada e acompanhada mensalmente durante a gestação, a cura ocorre em quase 100% dos casos.
“A não ser que ela esteja exposta à reinfecção, né? É feito acompanhamento por exame de sangue mensalmente, para ver se ela vai ter uma reinfecção ou não, porque às vezes a mulher trata e o parceiro não. Então, ela é exposta novamente à bactéria e se reinfecta. Mas se a gestante tratar com Penicilina a criança nasce saudável”, explicou.
Jaqueline reforça que o parceiro sexual da gestante também deve fazer o tratamento, justamente para evitar que a paciente continue tendo contato com a bactéria.
“Não basta só a grávida fazer o tratamento, o parceiro também tem que tratar, é muito importante”.
Jaqueline relata que em uma ocasião, uma paciente grávida assinou um termo informando que não iria realizar o tratamento.
“Já chegou ficha aqui para a gente que a mulher assinou um termo falando que não ia tratar, porque ela não acreditava na doença. A gente notifica o conselho tutelar, notifica o pessoal da violência, porque querendo ou não, é um ser que está dentro dela e ela é responsável por outra pessoa, não só por ela. Mas a gente fica meio que amarrado, né? O que você vai fazer? Se a mulher está recusando de se tratar”, comentou.
A falta de tratamento na gestante pode ocasionar um aborto, ou má formação do feto. O bebê pode nascer com surdez, cegueira, alterações ósseas e deficiência mental, podendo levar a óbito.
Preocupação
Existe um Comitê de Transmissão Vertical, formado por várias pessoas da rede hospitalar - pública e privada - e da vigilância para monitorar os casos de bebês nascidos com sífilis em Campo Grande, a fim de identificar o porquê de crianças estarem nascendo com a doença, e elaborar estratégias para reduzir o número de casos.
“É feita uma investigação do porquê essa criança nasceu com sífilis congênita, se foi a mãe que não tratou, o pré-natal que iniciou muito tarde, se foi o hospital que não fez o diagnóstico correto… Então a gente busca saber onde foi o erro para tentar corrigir, tentar melhorar, tentar criar novas formas”.
O Ministério da Saúde também realiza campanhas para tentar eliminar a transmissão vertical de infecções sexualmente transmissíveis, mas, o trabalho é árduo.
“É difícil, é complicado, porque depende muito da população, de orientação. É um trabalho de formiguinha”, comentou Jaqueline.
São vários os riscos que podem ser evitados pelo tratamento, que é simples e ofertado de forma gratuita.
“É uma doença que tem tratamento, tem monitoramento e não tem porque estar nascendo tanta criança exposta a sífilis assim no município”, concluiu
Teste e tratamento
Os testes são feitos em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS). A pessoa interessada pode comparecer a qualquer UBS e solicitar o exame. A gerente técnica reforça que todos os enfermeiros da rede estão aptos a realizar os procedimentos.
“Não precisa ser no posto perto da sua casa. Você pode escolher o posto de saúde que você quiser, ir lá e fazer”, reforçou.
O tratamento também é oferecido em todas as Unidades Básicas de Saúde.
“O enfermeiro vai avaliar qual fase da doença você está e vai te tratar. O tratamento normalmente é penicilina, que é a benzetacil, normalmente uma dose ou três doses por três semanas”.
O monitoramento da doença é feito pelo VDRL, um exame de sangue que vai quantificar o treponema (bactéria da sífilis) no sangue do paciente.
Prevenção
Para prevenir a sífilis, é fundamental o uso da camisinha masculina ou feminina. É a única forma de evitar a doença.