Cidades

entrevista

"Hoje, a rivalidade é entre os democráticos e os autoritários"

Aliado do governador Eduardo Riedel, Vander Loubet diz que a rivalidade histórica do PT com o PSDB ficou para trás e que a disputa agora é contra a "extrema direita raivosa"

Eduardo Miranda

19/08/2023 - 09h30

Em seu sexto mandato consecutivo de deputado federal, Vander Loubet (PT) assumiu grande protagonismo com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. Líder da bancada federal de Mato Grosso do Sul, o deputado está empenhado em várias frentes. A primeira delas é viabilizar o máximo de recursos possíveis para todos os municípios do Estado. 

Ele também quer dar grande contribuição na operacionalização do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado neste mês. Por sempre ter estado entre os mais moderados do PT, Vander lidera no Estado o diálogo com outros partidos, dando grande suporte ao governo de Eduardo Riedel (PSDB) e à administração de Adriane Lopes (PP) em Campo Grande. 

Se tudo der certo, pretende candidatar-se ao Senado em 2026. Para ele, partidos como o PSDB, que historicamente foram adversários do PT, agora são aliados. "Hoje, a rivalidade é entre os democráticos e os autoritários", destaca. 

Em primeiro lugar, gostaria que nos falasse como está sendo este retorno à articulação política de Mato Grosso do Sul, como líder da bancada federal. Como tem sido o diálogo com outros parlamentares, prefeitos, com o governador e com ministros do governo Lula?

Logo após a eleição do presidente Lula, na condição de deputado federal mais experiente da bancada, o único do Estado com seis mandatos consecutivos, coloquei meu nome para coordenador da bancada por entender que tinha as melhores condições para fazer esse trabalho neste momento.

Conversei individualmente com cada eleito e fechamos um consenso em torno disso. Sempre deixei muito claro que nosso foco seria aquilo que é melhor para Mato Grosso do Sul. 

Também me comprometi a priorizar o diálogo e a construção de consensos. Nunca fui um adepto do radicalismo político nem de nenhuma forma de revanchismo, porque entendo que isso atrapalha a boa política. Então, é assim que temos conduzido essa função.

Converso com todos os deputados e senadores, ouço as demandas e as reivindicações e, naquilo que há espaço, abrimos canais de diálogo com o governo federal, independente da questão partidária.

O lema do novo governo Lula é "união e reconstrução". E é com esse espírito que a gente tem atuado na coordenação da bancada.
 
O PAC prevê investimentos de R$ 44 bilhões para Mato Grosso do Sul. Esses investimentos serão feitos ao longo desses quatro anos? Explique como será o PAC no Estado e como será a liberação dos recursos.

Esses R$ 44,7 bilhões anunciados devem ser executados em duas etapas. A principal vai até 2026, mas também devem ter ações pós-2026. Nesse pacote tem obras grandes, estruturantes, que Mato Grosso do Sul precisa que saiam do papel.

Acho que vale destacar a recuperação da BR-267, entre Caracol e Porto Murtinho, e a construção da alça de acesso da rodovia até a ponte da Rota Bioceânica. Também tem a conclusão da BR-419, o contorno rodoviário de Três Lagoas, o aeroporto de Dourados, a recuperação da ferrovia entre Três Lagoas e Corumbá...

Mas não vai ser apenas infraestrutura. Vamos ter obras em todas as áreas: saúde, educação, assistência social, habitação, com o Minha Casa, Minha Vida.

Até mesmo a questão da conectividade está no pacote: vai ter muito recurso para levar internet de alta velocidade para escolas públicas, postos de saúde, rodovias e regiões distantes, uma necessidade nos dias atuais.

Importante enfatizar que esse montante será maior, pois tem investimentos que devem ser anunciados em outubro ou novembro.

Um, que é muito aguardado, é a conclusão da fábrica de fertilizantes de Três Lagoas, que deve receber R$ 5 bilhões da Petrobras.

Outro é a duplicação da BR-262, no trecho entre Campo Grande e Três Lagoas, que está em fase de discussão sobre qual deve ser o modelo de concessão para a rodovia, que inclusive tem o governo do Estado como um interessado em cuidar da concessão.

Outra coisa importante do novo PAC é a conclusão de obras que estão se arrastando há alguns anos. Acho que a maior delas é a revitalização das margens do Rio Anhanduí, ali na Avenida Ernesto Geisel, em Campo Grande. É uma obra emblemática, que precisa ser entregue para a população.

A Fábrica de Fertilizantes de Três Lagoas (UFN3) ficou fora do anúncio oficial do PAC. Ela será retomada ainda durante o governo Lula?

Com certeza. Ela não entrou agora no lançamento, mas na própria solenidade o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, fez questão de destacar para nós de Mato Grosso do Sul, particularmente para o governador Eduardo Riedel, que a conclusão da fábrica vai ser lançada em um anexo do novo PAC. 

E o Prates reafirmou isso na quinta-feira, para o Riedel e para a ministra Simone [Tebet, Planejamento e Orçamento], lá no Rio de Janeiro. Tem o compromisso de a gente finalmente concluir e colocar para funcionar essa planta, ainda mais depois do que vimos com a guerra entre Rússia e Ucrânia, quando a questão da disponibilidade de fertilizantes foi afetada.

O governo Lula se elegeu com uma frente ampla no segundo turno, assim como Eduardo Riedel contou com voto maciço da esquerda em rejeição a Capitão Contar. Como tem sido a participação do Partido dos Trabalhadores no governo do Estado? E o diálogo do governo estadual com o federal?

Desde a campanha eleitoral do ano passado, defendo a tese de que PT e PSDB não rivalizam mais, pelo menos não mais como antigamente. Hoje, a rivalidade é entre os democráticos e os autoritários. Isso é uma questão que eu destaquei para o próprio Riedel, que é um sujeito aberto ao diálogo, dizendo a ele que a nossa disputa hoje é contra essa extrema direita raivosa. 

Foi por isso que fiz esse movimento para o PT ocupar espaços no governo do Estado, porque eu entendo que é possível a gente ter diálogo e construir políticas públicas juntos.

Claro que, nesse processo, o apoio do PT ao Riedel no segundo turno de 2022 teve peso, mas a própria construção desse apoio lá na eleição teve como base essa tese, que não foi defendida apenas por mim, também foi defendida por outras figuras importantes do nosso partido, como o Zeca.

Em relação ao diálogo entre o governo estadual e o governo federal, eu acredito que tem sido o melhor possível. Como disse antes, o lema da nova gestão do Lula é "união e reconstrução", e isso foi muito bem compreendido pelo governador Riedel, que sabe que o bom relacionamento entre esses dois entes é fundamental, tanto para o Estado quanto para o País.
 
O PT chegará com bastante entrega nas eleições de 2024 e 2026 em Mato Grosso do Sul? O que poderá vir pela frente, além do PAC?

Não tenho dúvidas. A aprovação do governo Lula tem crescido a cada mês, as políticas públicas voltaram a funcionar no País, a economia segue dando sinais de melhora, o preço dos alimentos vem registrando queda...

São fatores que com certeza ajudam a fortalecer o projeto do PT para 2024 e 2026. Eu acredito que a avaliação do governo federal vai estar muito relacionada ao potencial do partido de se sair bem nas eleições. Mas claro que tudo vai depender também da nossa capacidade de montar chapas competitivas para as disputas.

É possível, no Estado, que o PT abra um bom diálogo com segmentos ainda muito resistentes ao partido e ao presidente Lula, como um setor mais radicalizado dos produtores rurais e também um grande grupo do segmento evangélico?

Eu acredito que é possível, sim. Isso já está sendo feito a nível de governo federal. Existe uma disposição de dialogar.

O Brasil só tem a perder com a radicalização. Evidente que isso depende de gestos e, pelo menos da nossa parte, da parte do governo federal e do PT, existe essa preocupação.

Eu mesmo sou coautor da PEC que trata da isenção tributária para as organizações religiosas, sejam de qual religião forem. É uma pauta defendida pelos evangélicos e que estamos conduzindo com responsabilidade e com diálogo, no Congresso Nacional e no governo.

Outra coisa: grande parte da população evangélica é diretamente beneficiada pelos programas sociais resgatados pelo governo do PT, e isso precisa ser levado em conta.

Na questão do agronegócio, basta ver o Plano Safra deste ano, é o maior volume de recursos da história do programa. Assim como o Lula fez nos dois primeiros governos, quando negociou as dívidas dos produtores, liberou crédito para produção em abundância e abriu novos mercados para nossas commodities, especialmente a China, ele está fazendo nesse novo governo. Honestamente, não tem motivos para esse setor ser radical contra o Lula, ele sempre agiu de forma republicana e responsável com o agronegócio.

O senhor tem dado sinais de que se candidatará a senador nas próximas eleições e mudará de Casa após uma longa carreira na Câmara. Como estão esses planos? Do que eles dependem?

Eu entendo que cumpri meu papel como deputado federal. Sou o único de MS com seis mandatos consecutivos na Câmara. Então, vejo dois caminhos: o Senado, onde acredito que poderia contribuir ainda mais com nosso estado, ou sem mandato, abrindo espaço para outras figuras irem para a Câmara e passando a me dedicar à política partidária.

Sobre ser senador, tudo depende do contexto, da conjuntura. Vontade tenho, vou trabalhar por isso, mas ninguém pode ser candidato de si mesmo. Além disso, vai depender muito de como o governo Lula estará em 2026. Se estiver na perspectiva que tenho hoje, com o País melhorando a cada dia, eu entendo que posso chegar com força, como o candidato do Lula ao Senado.

Mas ainda tem muita água para passar por baixo da ponte e, enquanto isso, quero me dedicar muito a fazer mais um mandato exitoso como deputado federal.

O Pantanal entrou na pauta nacional e global. Como a bancada federal vai contribuir nesse debate, para buscar uma solução sustentável para o bioma?

É verdade, entrou. E entrou de forma tardia. Nada contra a Amazônia, pelo contrário, devemos nos preocupar com esse bioma cada vez mais. Porém, o Pantanal tem um grau de importância que tem passado despercebido do debate da sociedade brasileira.

Eu acredito que estamos entrando nessa pauta em um momento muito positivo, porque a questão ambiental e da sustentabilidade está na agenda do governo Lula. E o governador Riedel está demonstrando muita sensibilidade com esse debate, está disposto a cuidar disso.

Eu acredito que, enquanto bancada, a gente tem o papel importante de auxiliar o governo federal, e por que não o estadual também, a direcionar recursos para as iniciativas de sustentabilidade no Pantanal. Tem muito equívoco de alguns produtores quando falam que estamos contra eles. Não é verdade.

O mundo mudou, e todos nós precisamos evoluir com isso. Os mercados que compram nossa carne, nossa soja, estão de olho sobre como isso é produzido e como isso impacta o meio ambiente. 

Então, não é questão de ser contra ou a favor de produzir no Pantanal, a questão é que, cada vez mais, temos que melhorar os meios de produção nesse bioma, para que ele seja economicamente viável, mas sem destruição. Ou seja, temos de buscar a sustentabilidade.

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