Cidades

Especial de Aniversário

Campo Grande ganhou Embrapa quando se tornou capital

Na década de 1970, a unidade ficava na zona rural; atualmente, tem como vizinhos os bairros Santa Mônica e Vila Popular

A influência da pecuária em Campo Grande também é demonstrada pela relevância do município para a atividade produtiva, tanto em nível estadual quanto nacional.

Um exemplo disso é o fato de a unidade de gado de corte da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estar localizada na zona urbana da Capital.

No entanto, nem sempre foi assim: em 1975, dois anos após a criação da Embrapa, uma equipe de profissionais ficou responsável pela implantação do Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte na cidade de Campo Grande, na época, município do Mato Grosso.

A escolha da cidade foi defendida por especialistas do ramo por ter condições favoráveis à produção de bovinos de corte.

Em 28 de abril de 1977, foi oficialmente inaugurada a unidade de pesquisa, um acontecimento que contou com a presença do então presidente da República general do Exército Ernesto Geisel, do ministro da Agricultura Alysson Paolinelli, um visionário e um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura brasileira, e do governador do Mato Grosso José Garcia Neto.

No mesmo ano, a cidade de Campo Grande se tornou capital do recém-criado estado de Mato Grosso do Sul, e o trabalho de montar o centro de pesquisa, o quadro de pessoal e promover o avanço tecnológico da pecuária de corte brasileira foi liderado pelo engenheiro-agrônomo José Mendes Barcellos.

Sua primeira missão foi adaptar as instalações herdadas do Exército, onde estavam a coudelaria e o Regimento de Cavalaria, para o funcionamento da unidade.

Duas bases físicas passaram a pertencer à Embrapa: uma onde está situada a sede, com 3.081 hectares, que, na época, ficava na zona rural do município e, hoje, tem como vizinhos os bairros Santa Mônica e Vila Popular, e outra base física ainda na zona rural hoje em dia, de 1.612 hectares, conhecida como Fazenda Modelo (37% de sua área total foi registrada como reserva legal).

Na época da criação da Embrapa Gado de Corte, a produtividade da bovinocultura de corte brasileira, além de baixa, não apresentava crescimento e não atendia os mercados interno e externo.

Para mudar o quadro, foi necessário investir em pesquisa e promover o desenvolvimento da produção nacional.

Tecnologias foram lançadas e contribuíram para incrementar o crescimento do rebanho e aumentar a produção de carne por animal e por hectare.

MELHORIAS

A Embrapa, que estuda sistemas de produção, já pesquisou e lançou uma série de variedades de forrageiras, realizou pesquisas nas áreas de sanidade e nutrição do rebanho, melhoramento, reprodução e manejo animal e foi responsável pelo crescimento do setor em âmbito nacional.

De acordo com o pesquisador da área de nutrição animal Luiz Orcírio Fialho de Oliveira, chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Gado de Corte, ao longo desses 46 anos de funcionamento da unidade, as contribuições no fortalecimento da pecuária nacional são visíveis.

“O Brasil é hoje o maior produtor e exportador de carne bovina, e os mais de 200 projetos e subprojetos em andamento visam a aumentar ainda mais a produção, a qualidade, a rentabilidade e a eficiência dos sistemas produtivos da bovinocultura de corte”, ressaltou Luiz de Oliveira, completando que é premissa da instituição atender à demanda do mercado que exige alimentos seguros e de boa qualidade.

“Hoje, em cada fazenda há um pouco do trabalho da Embrapa Gado de Corte. A unidade mantém cooperação técnica com todo o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária e com instituições da Europa, da América do Norte, do Japão, da Austrália e, especialmente, com aquelas de países da América do Sul”, assegurou.

Conforme o chefe adjunto, a Embrapa Gado de Corte mantém, ainda, integração com instituições de Ensino Superior e escolas agrotécnicas, interagindo também com organizações e entidades diretamente ligadas a produtores rurais.

Campos experimentais, laboratórios, casas de vegetação, biblioteca, centro de informática e benfeitorias de apoio constituem um complexo com área total construída de 20.702,79 metros quadrados, onde atua uma equipe interdisciplinar de aproximadamente 193 funcionários, dos quais cerca de 44 são pesquisadores com mestrado e doutorado.

Luiz de Oliveira também citou um fato curioso da Embrapa Gado de Corte: a unidade divide as bacias dos rios Paraná e Paraguai, pois o Córrego Imbirussu cruza os 3.081 hectares.

“A água que cai naquele morro que desce para lá vai para o Rio Paraná, enquanto o córrego que nasce aqui dentro da Embrapa, bem aqui, atrás do Morro Planalto, que é o Piraputanga, corre para o Rio Paraguai. Então, nós estamos bem na divisão das duas bacias”, ressaltou.

O pesquisador de nutrição animal recordou ainda que, na época de fundação da Embrapa Gado de Corte, o estado de Mato Grosso do Sul tinha o maior rebanho do Brasil, e isso contribuiu para que Brasília optasse por Campo Grande.

“Ao longo dessas mais de quatro décadas de existência desta unidade da Embrapa, conseguimos desenvolver novos cultivares e melhoramento das pastagens, trazendo da África dois bancos de germoplasma, o da Brachiaria spp. –Urochloa spp. – e da Panicum maximum – Megathyrsus maximus –, que compõem atualmente a maioria das pastagens brasileiras”, informou.

Ele acrescentou que a Embrapa Gado de Corte mantém esse banco de germoplasma e, por meio dele, essas espécies foram melhoradas, surgindo inúmeras cultivares que revolucionaram a produção a pasto, como é o caso do capim-mombaça e do capim-paiaguás.

“Foi um avanço muito grande, graças às pesquisas com manejo desses capins e manejo do solo. Outra área que cresceu muito também e que fez um trabalho fantástico foi a área de genética animal, com o melhoramento das raças bovinas criadas aqui no Brasil. Nós temos aqui um clima diferente das regiões temperadas, pastagem tropicais, clima tropical, precisava de um animal adaptado, então, nós trabalhamos muito na melhoria dessas raças, que hoje são fantásticas”, ressaltou.

NUTRIÇÃO ANIMAL

Luiz de Oliveira argumentou que um dos trabalhos mais importantes da Embrapa Gado de Corte foi na questão da alimentação e da nutrição animal.

“Foi um dos nossos primeiros desafios, que era acabar com a fome do gado. Naquela época, o rebanho bovino passava fome durante grande parte do ano porque não tinha pastagem, não tinha alimento. Então, nós tivemos um trabalho árduo, mas avançamos muito na alimentação e na nutrição desses animais. Os suprimentos foram desenvolvidos, fórmulas minerais foram criadas e surgiram produtos para melhorar a digestão do animal”, relatou.

O pesquisador ainda lembrou da parte dos trabalhos nas áreas de genética animal e vegetal, bem como na parte de sanidade, com os protocolos de designação, vacinas e diagnóstico.

“Mato Grosso do Sul era uma região complicada, por fazer fronteira com Bolívia e Paraguai, pois os animais tinham muitas doenças, porém, graças a muito trabalho, ajudamos na redução da mortalidade dos animais. Agora, o nosso desafio é na parte dos novos protocolos de sustentabilidade, atuando na compensação da emissão do gás de efeito estufa por parte dos bovinos, implantando um manejo mais adequado dos animais, plantando árvores e atuando no manejo das pastagens corretas”, exemplificou.

Ele reforçou que a Embrapa Gado de Corte demonstrou para o mundo, que sempre combateu muito a pecuária de corte, que é possível reduzir e até zerar a emissão de gás carbônico na atmosfera.

“Nós podemos ter uma pecuária sustentável, se usarmos as tecnologias criadas pela Embrapa. Isso aí resultou nos protocolos de sustentabilidade e no surgimento da carne carbono neutro, ou seja, estamos contribuindo para que Mato Grosso do Sul seja um estado que não emite gás de efeito estufa, que é totalmente sustentável. Trata-se de uma expertise nossa, que hoje já está sendo copiada pela Austrália e por vários países da Europa”, garantiu.

EMBRAPA GADO DE CORTE

  • > Medicina veterinária, com ênfase em doenças infecciosas e parasitárias de animais. 
  • > Medicina veterinária preventiva, principalmente nos temas: brucelose; tuberculose; epidemiologia molecular; desenvolvimento e aprimoramento de recursos diretos e indiretos para o diagnóstico de doenças transmissíveis de animais; e defesa sanitária animal. 
  • > Biologia molecular aplicada a ensaios de diagnóstico sorológico e molecular de patógenos de interesse em medicina veterinária. 
  • > Genética, com ênfase em genética molecular e de micro-organismos. 
  • > Biologia molecular, com ênfase em diagnóstico por PCR e diagnóstico por espectrometria de massas. 
  • > Imunologia e biologia molecular aplicadas ao desenvolvimento de antígenos para diagnóstico e imunização contra patógenos de alto risco. 
  • > Virologia animal aplicada. 
  • > Engenharia genética aplicada ao desenvolvimento de vacinas e testes de diagnóstico. 
  • > Genômica, transcritômica e proteômica voltadas às temáticas estratégicas para a saúde animal.

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