Cidades

violência escolar

Meses após ataque, escolas não têm medidas para evitar casos

Criação de aplicativo que aciona a Guarda Municipal é apenas uma resposta rápida para ocorrências, já que o policiamento nas escolas não é constante

Judson Marinho

26/09/2023 - 09h30

Quatro meses depois do ataque ocorrido na Escola Municipal Bernardo Franco Baís, quando um adolescente de 15 anos, armado com quatro facas e uma marreta, acertou com golpes de faca a mãe de um aluno, poucas ações efetivas foram realizadas pela Secretaria Municipal de Educação (Semed) para coibir cassos de violência.

Segundo informou a Semed em nota, “medidas de segurança foram adotadas pela Prefeitura de Campo Grande, como reforço do efetivo da Guarda Municipal nas escolas e veículos colocados à disposição para as unidades escolares nas sete regiões, que continuam em vigência”.

No entanto, a reportagem do Correio do Estado constatou na tarde de ontem que não havia nenhum efetivo da Guarda Municipal fazendo a segurança no entorno das escolas municipais da região central da Capital.
Também não foi possível identificar a presença de vigias escolares na entrada das escolas municipais Geraldo Castelo, José Rodrigues Benfica, Professor Alcídio Pimentel, Padre José Valentim e Bernardo Franco Baís, local onde ocorreu o ataque.

Além do aumento de segurança, a Semed também acrescentou que, após o ataque, disponibilizou, para alunos, pais e funcionários da Escola Municipal Bernando Franco Baís, o serviço do Setor de Acompanhamento de Conflitos Relacionados à Evasão e à Violência Escolar (Secoe) e de psicólogos do Programa de Valorização da Vida.

Segundo a pesquisadora norte-americana Sherry Towers, que estuda o chamado “contágio” dos ataques em escolas (teoria que mostra que, a cada ataque, novos jovens são influenciados a cometer o mesmo crime), o principal problema é que não se tem trabalhado na prevenção aos ataques, e sim no que fazer durante esses ataques.

“Nos Estados Unidos, há simulações de ataques para orientar as crianças sobre o que fazer durante os ataques, e essas simulações são extremamente traumáticas, meus filhos tiveram pesadelos com essas simulações. Mas não se trabalha para se denunciar o bullying, que é um dos principais motivos que levam a esses ataques”.

Em entrevista ao Correio do Estado, Telma Vinha, pedagoga, doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp e professora do Departamento de Psicologia Educacional, explica que ataques não são impedidos por conta do policiamento armado.

“Os estudos nos Estados Unidos mostram que esses ataques não são impedidos por conta do policiamento armado, nós sabemos que tem de se ter uma resposta para o público que está inseguro, mas, em longo prazo, piora a qualidade do clima, o jovem sente que está sendo vigiado, que não pode ser ele mesmo”, declarou Telma Vinha durante o Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, que aconteceu em São Paulo.
Questionado sobre a violência nas escolas, o ministro da Educação, Camilo Santana, informou que medidas no âmbito do governo federal são tomadas nesse sentido.

“Nós vamos apresentar, agora em outubro, a política nacional de enfrentamento à violência nas escolas, com medidas emergenciais e com a construção em médio e longo prazo. E uma das principais medidas emergenciais foi o apoio às escolas, apoio às redes construído com a Undime [União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação], que representa os secretários municipais e o Consed [Conselho Nacional de Secretários de Educação]”, declarou o ministro.
 

BOTÃO DO PÂNICO

Uma das ações criadas pela Prefeitura de Campo Grande em resposta à violência nas escolas foi o aplicativo Educação Mais Segura, desenvolvido pela Agência Municipal de Tecnologia da Informação e Inovação (Agetec) e que disponibiliza um botão do pânico que avisa e aciona a Guarda Municipal em caso de ataque.

Acionando o botão, os diretores das escolas enviam, além do alerta, sua geolocalização e um áudio de cinco segundos comunicando a situação de risco dentro do ambiente escolar, que poderá ser essencial para as equipes de segurança que receberão essas informações. 

O objetivo do aplicativo é promover a segurança nas escolas, além de acionar a Guarda Municipal de maneira rápida e eficaz, em caso de ataque e violência nas unidades de ensino.

Segundo a Secretaria Especial de Segurança e Defesa Social (Sesdes), o aplicativo está em funcionamento e, “sempre que acontece algum evento que as diretoras se sintam na necessidade [de utilizar o botão de pânico], o aplicativo é acionado, a velocidade de resposta é bem rápida, em torno de cinco minutos”, informou a Sesdes, em nota.

De acordo com a Guarda Municipal, normalmente, as situações atendidas por meio do aplicativo são possíveis brigas entre os alunos, principalmente após o horário das aulas. 

ATAQUE A ESCOLA

No fim da manhã do dia 18 de maio, um adolescente vestido com o característico uniforme verde da Rede Estadual de Ensino (REE) esfaqueou uma mulher que deixava o filho na Escola Municipal Bernardo Franco Baís, na Avenida Calógeras, em Campo Grande.

Conforme informações da Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude (Deaij), em depoimento, o adolescente argumentou que o alvo principal da agressão não era a mulher, e sim três ex-colegas que teriam cometido abusos contra ele quando ainda estudava na escola municipal.
Segundo o Corpo de Bombeiros, o adolescente foi contido antes de entrar nas salas de aula por um segurança e um instrutor de badminton.

De acordo com a Deaij e conforme apurado pelo Correio do Estado no mês de junho, o adolescente está internado desde o corrido em uma Unidade Educacional de Internação (Unei), em Campo Grande.
O jovem mantém os estudos na Unei, com um professor que dá aulas semanalmente na unidade.

SAIBA

De acordo com a Guarda Municipal, o aplicativo Educação Mais Segura já foi acionado em um caso de invasão a unidade escolar, quando um indivíduo pulou o muro de uma escola. Em poucos minutos, a viatura da Guarda já estava em frente à escola. A partir das características dadas pelos servidores, a viatura saiu em patrulhamento e capturou o suspeito de invasão.

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