Fevereiro é mês da volta às aulas, e a educação fica em evidência no debate público. Tanto as escolas particulares quanto as públicas seguem um calendário não apenas de horas-aula, mas também uma grade curricular prevista pelo Ministério da Educação (MEC).
O que diferencia as instituições são as visões, os métodos de ensino e os valores, que também são passados para os alunos e vão além do conteúdo didático.
O Correio do Estado falou com a professora, especialista em Educação e diretora do Colégio Master, Adelina Spengler, sobre habilidades que auxiliam na educação e na construção de crianças e adultos mais felizes e líderes.
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Hoje, nós vamos falar sobre educação e sobre como educar as crianças para elas se tornarem pessoas mais felizes e mais bem-preparadas para o futuro. E eu gostaria de perguntar o que são as soft skills e por que elas serão mais importantes do que as hard skills.
Hoje, nós temos as soft skills e as hard skills. As soft skills são as habilidades humanas, como saber se comunicar, saber se relacionar com o outro, são as habilidades emocionais e sociais. E as hard skills são o conhecimento técnico específico que as pessoas têm. Há um tempo, as hard skills eram muito mais importantes do que as soft skills, do que o relacionamento humano.
Com a evolução das tecnologias, a inteligência artificial e o conhecimento técnico, do seu celular você consulta, você sabe tudo o que você quer saber, há textos que hoje a inteligência artificial faz melhor do que uma pessoa que é formada em Letras, então, o conhecimento técnico hoje não está sendo mais tão importante quanto as habilidades humanas, que são as soft skills.
Quem tem as soft skills hoje, que sabe se relacionar com o outro, tomar decisões, fazer boas escolhas, ser proativo, essa pessoa vai ser mais valorizada do que a pessoa que tem o conhecimento técnico apenas.
Muitas vezes, você consegue um emprego bacana porque você tem um bom conhecimento técnico, que é a hard skill, e você às vezes perde o trabalho por você não ter a soft skill. O fato de você não saber trabalhar em grupo, não saber se relacionar, não saber ouvir um feedback pode fazer com que você perca o emprego.
Há muitos e muitos anos, na época do Antigo Egito, da Grécia, quem ia à biblioteca para ler livros era “envenenado”, porque conhecimento é poder, então, quem tinha conhecimento tinha poder e acabava sendo sabotado.
E até um tempo atrás o conhecimento era o mais importante. Hoje, o conhecimento não é o item mais importante; hoje, as habilidades humanas e saber se relacionar, saber fazer escolha, saber tomar decisão, saber ser um líder tem mais valor do que ter apenas conhecimento técnico, porque o conhecimento técnico pode ser substituído pela máquina, pela inteligência artificial, e a habilidade humana não.
O desenvolvimento dessa capacidade humana tem de começar desde cedo? Qual é o papel da educação na formação de soft skills nas crianças?
Eu vejo assim, as escolas desde cedo podem incluir no currículo essas habilidades, como acontece com a gente.
Desde a Educação Infantil a gente já veio desenvolvendo isso com as crianças, essas habilidades de soft skills, as habilidades humanas.
É colocar no currículo as habilidades cooperativas, em que as crianças podem cooperar mais entre elas, com projetos cooperativos, para que elas trabalhem mais em grupo, aprendam a se relacionar com o outro, aceitem a diferença do outro, aprendam a fazer trocas e a respeitar o ponto de vista do outro.
Então, quando você põe as crianças para trabalhar em time ou as coloca em projetos para apresentarem as coisas em forma de seminário, elas vão desenvolvendo essas habilidades, que são saber se relacionar e ter mais responsabilidade, ter autoestima.
Então, essas atividades vão fazendo com que elas comecem desde pequenas a criar esses hábitos para lá na frente serem um adulto mais feliz e eficaz.
E a respeito da autoliderança, quais são os benefícios de desenvolvê-la nas crianças?
Quando a criança desenvolve a autoliderança, são vários os benefícios, um deles é a criança ter mais responsabilidade, ter maior autoestima, maior controle sobre suas emoções, saber fazer escolhas melhores, saber resolver problemas com mais facilidade.
Então, quando você desenvolve essa habilidade na criança, ela se torna mais eficiente, ela vai se desenvolvendo de uma forma mais equilibrada.
E como o Colégio Master, do qual você é diretora, desenvolve a autoliderança e trabalha as soft skills nas crianças?
Desde cedo, desde a Educação Infantil, a gente já vem desenvolvendo esse trabalho com as crianças, por meio das atividades colaborativas, de projetos colaborativos, em que as crianças se relacionam entre si, aprendem a respeitar o outro.
Elas podem exercer atividades de liderança, como tomar decisões, saber lidar com as diferenças, aceitar o ponto de vista do outro, aprender a falar em público.
E outra coisa bacana nesse programa é que a criança, quando ela trabalha nessa linha, vai desenvolvendo a autoestima dela, a autoconfiança, isso é muito importante.
Não cresce um adulto inseguro, medroso, ele se empodera, porque desde pequeno ele já está acostumado a trabalhar com esse perfil. Não é só aquela cadeira individual, em que ele fica sentado, com um programa de decoreba, como foi na nossa geração, em que a gente tinha que decorar, repetir aquela coisa chata.
Não deve, você não tem mais que ensinar assim, porque eu conheço bem o que nós falamos, está na palma da mão.
A inteligência artificial pode te ajudar a construir textos, o que você quiser, tem as calculadoras que fazem toda a matemática.
Mas o que é que hoje as empresas procuram? É esse ser humano que sabe trabalhar em grupo, sabe trabalhar em equipe, que sabe participar de um debate, que sabe falar. Então, na escola, nós trabalhamos muito com a formação em debates, de modo que a criança aprenda a falar em público, a se comunicar.
E a gente sabe que não é só a escola que tem esse dever. A educação, quando compartilhada com a família, torna tudo mais fácil, até para repassar para a criança. Sendo assim, como os pais podem ajudar na educação de autoliderança?
É muito interessante isso, porque a família e a escola são uma parceria de sucesso. Eu não vejo nenhuma escola ter sucesso na formação dos seus alunos sem a parceria da família. A família não pode terceirizar a educação dos seus filhos, seja na escola particular, seja na escola pública. A família tem que ser participativa.
O colégio tem que sempre passar para os pais qual é a sua missão, qual é a sua visão, os seus valores. E quando o pai conhece a missão, a visão e os valores do colégio, ele passa a trabalhar em união. Se ele sabe que o colégio trabalha com esse programa de autoliderança com as crianças, ele também, em casa, tem que ensinar os filhos.
Você poderia dar exemplos, para quem é pai, tio, para quem está nesse cuidado diário com as crianças, de como desenvolver essa autoliderança nelas?
É tão simples, você pode pedir para a criança ajudá-lo a colocar a mesa do almoço, falar “ajuda a mamãe a tirar a louça da mesa”, “limpa aquilo que você sujou”, “arruma o seu quarto”. É importante ajudar nas tarefas de casa. “Quem vai dar comida para o cachorro?”. Divida as tarefas.
Não deixa tudo para o pai, para a mãe, porque, quando é tudo o pai e a mãe, a criança se torna o “reizinho”, a “rainha” da casa. Tudo é para ele, para ela, e o que acontece com essa criança quando ela vai para o mundo? O mundo não vai fazer isso com ela, vai cobrá-la, e ela tem que saber interagir com as pessoas.
Então, quando a mãe, o pai e a família têm esse cuidado de pôr essa criança para colaborar em casa, à medida que ela vai crescendo ela vai se tornando mais responsável, mais confiante, ela sabe da obrigação e faz escolhas mais assertivas.
Existem alguns hábitos que ajudam a tornar as pessoas altamente eficazes e capazes de serem mais eficientes tanto no trabalho quanto em outras áreas da vida. Poderia falar sobre eles?
Você sabe que tudo na vida é hábito. Hábito de escovar os dentes, hábito de tomar banho, todos são para o resto da vida. Tudo é hábito que você vai introduzir na sua vida, hábito de comer bem, hábito de praticar esporte. Esses hábitos que vão tornando a pessoa diferente.
O primeiro hábito é ser proativo, que é aquela pessoa que toma iniciativa de fazer as coisas sem ter que ficar mandando, pedindo. Você está vendo que tem uma água derramada no chão, quando você é proativo, você mesma pega um pano, vai lá e seca, você não fica esperando alguém mandar, mesmo que não seja a sua função, não custa nada. Então, ser proativo é ser responsável pelas suas escolhas. A pessoa proativa é responsável pelas escolhas dela, se deu certo, muito bem, se não deu certo, também. Ela assume a responsabilidade e não fica procurando culpados.
O segundo hábito importante é saber fazer as escolhas certas. Escolha sempre fazer primeiro o mais importante, depois você escolhe fazer o que está em segundo plano. Se você tem metas a atingir, deixe-as de forma clara na cabeça, esse é outro hábito, que é você ter em mente um objetivo.
Quando você tem em mente um objetivo, uma meta, como ser médico, por exemplo, você estabelece metas claras e define o que precisa ser feito para atingi-las, como estudar muito, se dedicar, ser disciplinado. Você coloca o objetivo em mente, estabelece metas para que isso aconteça e começa sempre pelo mais importante.
Outro hábito é o ganha-ganha. Quando você trabalha em grupo, você não pode estabelecer metas ou atividades das quais só você sai ganhando, tem que ser beneficente com todos. Outro hábito importante é criar sinergia, que é quando você trabalha em equipe, é saber ouvir todos e fazer das diferenças entre as pessoas pontos fortes. Você pode ser forte em um ponto em que eu sou fraca, e vice-versa.
E quando você faz isso você cria uma sinergia bacana e valoriza todos, a coisa anda mais rápido. Ainda, outro hábito muito importante também é afinar o seu instrumento, que é você cuidar de si mesmo.
Tem momentos em que você tem que cuidar de si, cuidar da sua espiritualidade, isso te dá fé, e a fé cria esperança. A esperança faz com que a gente sempre acredite que existe um tempo melhor, que as coisas vão dar certo. E as famílias precisam cultivar essa espiritualidade nos seus filhos, sentir gratidão, que é algo muito importante que a gente tem que desenvolver nas nossas crianças, nos nossos alunos.
E o oitavo hábito que hoje já está se falando é você inspirar as pessoas a olhar para dentro de si também. Quando você afina o seu instrumento, você está olhando para dentro de si.