Cidades

GUERRA DE NARRATIVAS

Mãe de Sophia alega trauma psicológico e coloca a culpa em ex

Mãe e padrasto da criança, que foi morta em janeiro do ano passado, participaram ontem do primeiro dia do julgamento no Tribunal do Júri; além de testemunhas, Stephanie também foi ouvida

Judson Marinho

05/12/2024 - 09h00

O primeiro dia do julgamento de Stephanie de Jesus Silva e Christian Campoçano, acusados de matar a menina Sophia Ocampo, de 2 anos, na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, terminou com o depoimento da mãe da criança. A defesa da acusada alegou que ela sofria com traumas psicológicos, como síndrome de Estocolmo, e atribuiu a culpa pela morte ao ex-companheiro e padrasto da menina.

A defesa de Stephanie, mãe de Sophia e acusada de participação no assassinato da criança, sustenta a tese de que ela tem transtornos psiquiátricos e sofria de síndrome de Estocolmo, além de afirmar que a mulher vivia em um relacionamento abusivo e que esses problemas fizeram com que ela tivesse “prejuízo na capacidade de reação”, culpando, desta forma, apenas o padrasto pelo crime.

A afirmação e a apresentação do diagnóstico foram feitas pelo psicólogo forense Felipe de Martino Pousada Gomes, testemunha de defesa. Ele foi contratado pela defesa da acusada, sem remuneração, e realizou avaliações na modalidade telepresencial.

“Em resumo, eu coloquei hipóteses diagnósticas que puderam ser verificadas nesses exames e apresento algumas possibilidades dessas hipóteses, que é a Stephanie indicar transtornos de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada e episódios depressivos, além de apresentar sinais consistentes de síndrome de Estocolmo, no contexto de um relacionamento abusivo”, disse a testemunha.

Ouvida durante o julgamento, Stephanie afirmou que não sabia que a filha sofria agressões e que “não tinha ideia da gravidade” do quadro da vítima, ao levá-la a uma unidade de saúde, onde foi constada a morte de Sophia.

Apesar de afirmar desconhecer as agressões, a acusada disse ter certeza de que o culpado é Christian e chegou a chorar durante o depoimento, alegando inocência e traumas de um suposto relacionamento abusivo, em que foi vítima de violência doméstica.

“Eu não tinha coragem de chegar a espancar a minha filha, o máximo era uma palmada na bunda e só, não conseguia bater nela, eu gritava bastante, prefiro gritar do que bater”, disse.

NEGLIGÊNCIA

Durante o julgamento, também foram ouvidos amigos do casal que estiveram com eles um dia antes da morte da criança. Segundo o relato deles, apesar de a menina estar doente, os dois foram com ela a um bar jogar sinuca, onde também fizeram uso de cocaína.

Matheus Siqueira e Erick Douglas contaram que eles foram jogar sinuca e, depois, até a casa do casal, onde ingeriram bebida alcoólica e usaram cocaína com as crianças na residência.

“Se eu não me engano, a gente ficou até meados de umas 4h, 5h, quase amanhecendo. Depois das 4h, chegou a um ponto em que eu tinha que trabalhar”, contou.

Apesar do testemunho dos dois amigos sobre o uso de drogas, a mãe de Sophia negou o fato.

LEGISTA

Pela manhã, o médico legista Fabrício Sampaio Moraes foi ouvido no julgamento. Segundo ele, a criança de 2 anos e 7 meses faleceu após sofrer um trauma raquimedular na coluna cervical (nuca) e hemotórax bilateral (hemorragia e acúmulo de sangue entre os pulmões e a parede torácica). Moraes também constatou que a cabeça da menina girava quase que totalmente (360°). 

No laudo apresentado, mostrou que a criança sofreu agressões físicas, apresentando manchas roxas em diversas partes do corpo, e ruptura cicatrizada do hímen – membrana fina que cobre a entrada da vagina –, sinal de que a primeira violência sexual havia sido praticada há dias. 

Sobre o traumatismo, o médico explicou que poderia ter sido causado por um impacto, feito com a força de um adulto na região do pescoço.

“A cabeça girava quase 360°, contendo os ligamentos das articulações entre as vértebras, as articulações. A Sophia tinha uma mobilidade excessiva do pescoço, além da gente ter observado a fratura desses ligamentos e pequena fratura na vértebra”, afirmou.

O laudo ainda mostrou que a menina havia falecido há mais de quatro horas antes de ser levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro Coronel Antonino, no dia 26 de janeiro de 2023.

Também foi mostrado ao júri um áudio onde Christian Campoçano “ensinava”’ Stephanie a fazer Sophia parar de chorar, a técnica consistia na asfixia da criança. 

“Dá uns tapão nela, aí você vira a cara dela pro colchão e fica segurando, porque aí ela para de chorar. É sério. Parece até tortura, mas não é, porque aí ela fica sem ar para chorar e para de chorar. Entendeu?”, explicava.

SAIBA

Após o depoimento de Stephanie, a previsão era de que Christian fosse ouvido, porém, o juiz Aluízio Pereira dos Santos adiou a oitiva para hoje.

*Colaborou Alicia Miyashiro

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