Cidades

Desafios

Burocracia evidencia que Rota Bioceânica ainda é um sonho

Trâmites aduaneiros podem fazer com que caminhões fiquem uma semana aguardando liberação para seguir viagem; viabilidade econômica ainda é estudada

Alanis Netto

12/02/2025 - 10h40

Prometendo menores custos e caminho mais rápido para escoamento de produtos, a Rota Bioceânica ainda se mostra um sonho distante: a burocracia e a viabilidade econômica ainda são um desafio para o uso do corredor.

A principal vantagem da rota, destacada pelo Governo do Estado, é o escoamento de produtos importantes para o Chile. Dentre esses produtos, se destaca a carne bovina. A exportação de carne para países asiáticos pelos portos chilenos é praticamente inexistente, então a expectativa é de que o cenário mude a partir do corredor bioceânico.

Atualmente, para chegar ao norte do Chile, a carga precisa passar por Santa Catarina e pelo Rio Grande do Sul, o que aumenta a distância em 700 a 1.000 km se comparado com a nova saída por Porto Murtinho.

No entanto, ainda são necessárias diversas adequações para que os processos burocráticos "caminhem" de forma mais ágil, a fim de não se tornarem um obstáculo no transporte dos produtos.

O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas de Mato Grosso do Sul (SETCEMS), Cláudio Cavol, explicou que os trâmites aduaneiros fazem com que os caminhões levem até quase uma semana para cruzar a fronteira.

"Atualmente, os caminhões podem levar de 7 a 8 dias apenas para cruzar Mato Grosso do Sul e o Paraguai, passando por diferentes etapas burocráticas nos dois países. Para que a Rota Bioceânica seja eficaz, é essencial evitar longos períodos de espera nas aduanas”, ponderou Cavol.

Vale mencionar como exemplo o ocorrido em novembro de 2023. Um caminhão com 12 toneladas de carne bovina da JBS foi enviado de Mato Grosso do Sul para o Chile, durante o 4º Foro de Los Territorios Subnacionales Del Corredor Bioceânico Capricórnio, com o objetivo de inaugurar a Rota Bioceânica.

A carga, no entanto, precisou voltar para Campo Grande, após passar quatro dias esperando na Receita Federal a liberação para entrar no Paraguai e seguir viagem. À época, foi explicado que faltavam documentos do caminhão, e por isso houve demora na liberação.

Sendo assim, o primeiro teste do corredor fracassou.

Infraestrutura

Foto: Álvaro Rezende/Governo do Estado

Outro ponto essencial para que o trajeto tenha fluidez é a infraestrutura das rodovias, que precisam estar preparadas para esta nova realidade.

“É fundamental que a via seja bem sinalizada e que existam estruturas adequadas para os motoristas, como postos de gasolina, restaurantes e suporte logístico ao longo do trajeto”.

A expectativa do setor é que o fluxo de transporte aumente de 5% a 10% ao ano, contribuindo diretamente para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estadual.

Viabilidade econômica

Outro obstáculo é a viabilidade econômica para exportações além dos quatro países que integram a rota (Brasil, Paraguai, Argentina e Chile), principalmente para mercados globais.

“O principal benefício da Rota Bioceânica para a indústria frigorífica de Mato Grosso do Sul será a ampliação das exportações para o Chile e o Peru. Já para outros mercados globais, a viabilidade econômica dependerá da competitividade dos custos logísticos no novo corredor de exportação”, destacou Sérgio Capucci, vice-diretor do Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados do Estado de Mato Grosso do Sul (Sicadems).

O setor quer agora analisar o custo do frete rodoviário em comparação ao trajeto até ao Porto de Santos (exportação Ásia e Europa).

Novo caminho

Mato Grosso do Sul exporta atualmente 360 mil toneladas de carne bovina ao Chile. Este produto sai hoje do Estado por três caminhos: De Ponta Porã até Assunção no Paraguai, do Paraná rumo a Argentina e do Rio Grande do Sul até a Argentina, para chegar no Chile. O caminho é longo e pode ser encurtado pelo corredor de Porto Murtinho, Carmelo Peralta (Paraguai), Argentina, até chegar em terra chilena.

Se o destino ainda for os mercados asiáticos, esta mesma carga vai até os portos chilenos de Antofagasta ou Iquique, para seguir por meio do Oceano Pacífico.

Exportação

Atualmente os produtos brasileiros exportados para a China navegam mais de 24 mil quilômetros e gastam 54 dias para desembarcar em Shanghai, via Canal do Panamá. Utilizando a nova rota o tempo se reduzirá em 12 dias e 5.479km.

Para chegar aos países da Ásia ou Oceania, os navios saem do Porto de Santos, contornam o continente africano ou fazem desvio pelo Canal do Panamá, elevando custos de frete e sujeitos a atrasos devido às condições climáticas. Com a Rota Bioceânica a meta é reduzir o trajeto em 7.000 quilômetros ou até 20 dias no transporte entre Brasil e Ásia.

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