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Cartão Postal vira obstáculo na "privatização" do Rio Paraguai

Estrutura de captação de água da Sanesul em Corumbá é uma espécie de símbolo da cidade, mas agora atrapalha passagem de grandes comboios de barcaças vindos da Bolívia

Clodoaldo Silva

26/08/2025 - 14h30

Para viabilizar a exportação de 3,5 milhões de toneladas de produtos da Bolívia de forma competitiva pela Hidrovia do Rio Paraguai, representantes do governo federal, estadual e da Bolívia vão realizar uma visita técnica nos 12 quilômetros do Canal Tamengo, entre as cidades de Corumbá e Puerto Quijarro, nos dias 1 e 2 de setembro. Este trecho fluvial vai ser incluído na concessão do Tramo Sul da hidrovia, prevista para ocorrer no final deste ano. 

O objetivo é verificar o que é necessário para melhorar e garantir a manutenção das condições de navegação, que tem limitações, sendo a principal a estrutura de captação de água da Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul), uma espécie de cartão postal da cidade, localizada na confluência do canal com o Rio Paraguai. 

Para evitar danos à estrutura, construída na década de 60 do século passado, embarcações precisam se dividir, reduzindo a capacidade de carga por viagem. Atualmente, apenas comboios com até quatro barcaças conseguem passar pelo canal, o que eleva o custo do frete para cerca de US$ 45 por tonelada, segundo informações divulgadas pelo o Governo do Estado.

Este entrave foi apontado pela  VI Comissão Mista Brasil-Bolívia sobre o Sistema Tamengo, realizada no dia 17 de julho em Corumbá, que consolidou avanços importantes nas tratativas para fortalecimento da Hidrovia do Paraguai, especialmente no trecho entre Corumbá e Porto Murtinho, na foz do rio Apa. 

Como desdobramento desse encontro, foi agendada a visita técnica com a Marinha do Brasil dando  apoio técnico e logístico à delegação por meio de embarcações e combustível para o desenvolvimento da atividade entre a Lagoa Cáceres, Na Bolívia,  e o Rio Paraguai, em Corumbá.

Devem participar representantes da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), do governo de Mato Grosso do Sul, da própria Marinha e do governo boliviano.  

A vistoria está sendo coordenada pela Assessoria de Relações Internacionais da Antaq e pela Divisão de Bolívia, Equador, Paraguai e Peru (DIBEP)  do Ministério das Relações Exteriores. 

Na visita técnica serão verificados os entraves existentes, mas uma das propostas já discutida é a Sanesul licitar a instalação de blocos de concreto (dolfins), que protegerão a captação de água e permitirão a passagem de comboios maiores, com até seis barcaças. A medida pode reduzir os custos logísticos em até 20% e ampliar a competitividade da hidrovia.

Além das ações imediatas, há o debate de outras alternativas técnicas, como a abertura de um novo canal contornando a estrutura da Sanesul pela margem esquerda ou o uso do Canal Tuiuiú, que se conecta à Lagoa Cáceres, a cerca de 20 km de Corumbá.

A Bolívia estima exportar até 3,5 milhões de toneladas pelo canal até 2027. O projeto da Sanesul, elaborado em 2019, é visto como uma solução mais ágil do que as obras de dragagem e remoção de rochas previstas na futura concessão da hidrovia, que ainda dependem de licenciamento ambiental.

À época da reunião, o assessor da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) e representante do Governo de Mato Grosso do Sul na reunião, Eduardo Pereira, destacou o engajamento estadual.

“O Governo do Estado está totalmente comprometido com o fortalecimento da hidrovia e reconhece o papel estratégico do Canal do Tamengo para a integração logística regional. A Antaq está trabalhando em conjunto com o Itamaraty para agregar o Canal do Tamengo à concessão da Hidrovia do Rio Paraguai, dando estrutura para manutenção deste importante canal de navegação”, afirmou.

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