Cidades

Tropa de elite

Policial do Batalhão de Choque de MS é preso por suspeita de corrupção

Acostumado a lidar com criminosos em operações especiais, policial da elite da PM de Mato Grosso do Sul está preso preventivamente por envolvimento em esquema de corrupção

Eduardo Miranda

10/09/2025 - 15h56

Uma das pessoas presas preventivamente na Operação Spotless, deflagada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e pelo Grupo de Apoio Especial na Repressão e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e que atua contra esquema de corrupção e fraudes na prefeitura de Terenos, é o policial militar do Batalhão do Choque Fábio André Hoffmeister Ramires. 

Acostumado a ficar na linha de frente com suspeitos nas ruas e criminosos ligados a facções, o terceiro sargento Fábio André Hoffmeister Ramires, segundo as investigações do Ministério Público, quando estava sem farda estaria do “outro lado do balcão”, praticando crimes de colarinho branco, como corrupção ativa e fraudes. 

Na operação, que apura pagamentos de propina, desvio de dinheiro público, e uma série de fraudes em licitações, foram presos além do policial do esquadrão de elite da Polícia Militar, nada menos que o prefeito de Terenos, o tucano Henrique Wancura Budke (PSDB). 

Outras 14 pessoas também estão entre os presos, incluindo na lista donos de empresas ligadas ao esquema e servidores público. Foram cumpridos, na ocasião, 59 mandados de busca e apreensão. 

Fábio, policial militar da ativa, segundo a Promotoria do Patrimônio Público do Ministério Público de Mato Grosso do Sul é sócio oculto da empreiteira Tercam Construções Ltda.

A empresa está em nome da mulher dele, Jucélia Maria de Oliveira, mas ele era ativo nas negociações dentro do esquema de corrupção. 

A empresa que ele representava, a Tercam teria participado de um esquema de conluio em licitações, sendo que a de maior valor é de R$ 1,2 milhão. O esquema resultava no pagamento de propina para o prefeito de Terenos, cidade distante 22 quilômetros do Centro de Campo Grande. 

Na manhã desta quarta-feira (10) o polícial militar do Choque foi afastado do batalhão pela subcomandante-geral da PM, coronel Neidy Nunes Barbosa Centurião.

A subcomandante alegou “incoveniência” a permanência dele no Batalhão do Choque, e o transferiu para o “Comando Geral/ Diretoria de Gestão do Presídio Militar Estadual”. 

Em nota, a Polícia Militar confirmou que esteve presente no cumprimento do mandado de prisão e ainda afirmou que não “compactua com condutas de seus integrantes que possam comprometer a imagem da instituição. 

“O fato registrado configura uma ocorrência isolada, que não representa os valores e princípios da corporação e será rigorosamente apurado”, afirmou a PM. 

Corrupção

A operação deflagrada em Terenos, município de Mato Grosso do Sul, expôs a dimensão de um suposto esquema de corrupção que, segundo o Ministério Público, manipulava licitações para direcionar obras públicas a um grupo de empresários. A ordem de prisão e de busca e apreensão, assinada pelo desembargador Jairo Roberto de Quadros, do Tribunal de Justiça do Estado (TJ/MS), descreve o funcionamento de uma rede que, em tese, contava com o respaldo do prefeito e o apoio de servidores municipais.

De acordo com a investigação, tratava-se de uma “atuação sistêmica de organização criminosa” voltada a fraudar a competitividade de certames públicos. O método utilizado incluía um revezamento entre empresários, que se alternavam como vencedores das concorrências, garantindo o controle das obras em troca do pagamento de propinas.

Os investigadores também apontam uma “evolução patrimonial de Henrique incompatível com o cargo público exercido”.

O prefeito Henrique Budke teria direcionado valores de propina para aquisição de imóveis e empresas, segundo o documento. Os números reforçam a suspeita: entre 2020 e 2024, o patrimônio declarado por ele saltou de R$ 776.210,57 para R$ 2.468.418,61, um aumento de 318%. Nesse mesmo período, seu salário líquido mensal era de R$ 15.630,83.

Na decisão que autorizou a operação, a Justiça destacou a robustez dos indícios de crimes como organização criminosa, frustração do caráter competitivo de licitação, pagamentos irregulares e corrupção. O documento judicial detalha que as manipulações em licitações começaram em 2021 e incluíam obras como a reforma da Escola Municipal Rosa Idalina Braga Barboza, a construção de calçadas e a substituição de pontes de madeira.

O avanço das investigações foi possível com base em mensagens de WhatsApp, além de quebras de sigilos bancário e telemático. Esses elementos reforçaram a tese de que o prefeito seria o “líder e figura central do grupo”, responsável por receber propinas, muitas vezes em espécie, por meio de intermediários apontados como “testas de ferro”.

Diante desse cenário, o Ministério Público solicitou a prisão preventiva de 16 dos 32 investigados, com o objetivo de “desarticular a organização” e “estancar as supostas condutas criminosas”, que, segundo a acusação, ainda estariam em andamento.

Enquanto o processo judicial avança e a Justiça decide o destino dos presos e da investigação, a população de Terenos acompanha com expectativa a definição sobre quem assumirá o comando da prefeitura e a continuidade dos serviços públicos essenciais.

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