Investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que a quadrilha especializada em tráfico de drogas que foi alvo de 21 mandados de prisão preventiva e 32 mandados de busca e apreensão na segunda fase da Operação Snow, deflagrada no dia 15, tinha como peça-chave do esquema o escrivão da Polícia Civil Gustavo Cristaldo de Arantes.
Além dele, o grupo também era integrado pelos investigadores Anderson César dos Santos Gomes e Hugo Cesar Benites, que atuavam como “batedores” da quadrilha, que escoava drogas da fronteira com o Paraguai até São Paulo.
Conforme o inquérito policial, Gustavo Arantes era um dos responsáveis por checar o banco de dados da Polícia Civil e, mediante o recebimento de propina, repassar informações privilegiadas aos criminosos do grupo.
Lotado então na Delegacia de Polícia de Ribas do Rio Pardo, cidade distante 97 km de Campo Grande, a ligação do escrivão da polícia com o chefe do grupo, Joesley da Rosa, o Jotinha, era intermediada pelo advogado Vlandon Xavier Avelino, segundo o Gaeco, homem de confiança do líder do grupo.
Em uma dessas ocasiões, em abril de 2023, Vlandon Xavier pediu para que o escrivão consultasse no banco de dados da polícia se havia um mandado de prisão aberto em nome de Joesley da Rosa, que, na ocasião, temia ser preso em flagrante.
“Consegue puxar meu nome rapidão aí? Se tem alguma coisa. Estou num lugar aqui, tem 4 policiais do lado de fora esperando eu sair”, diz Joesley ao advogado.
Ao realizar a busca, o escrivão envia um print da tela de um celular com o nome de Joesley da Rosa ao advogado, que, por sua vez, diz ao patrão: “Mandado de prisão não tem, está tranquilo”.
As consultas de Gustavo Arantes foram realizadas por meio do Sistema Integrado de Gestão Operacional (Sigo), plataforma de uso restrito da Polícia Civil que centraliza dados sobre ocorrências, registros criminais, entre outras informações sigilosas e confidenciais, informação confirmada em auditoria realizada pelo Gaeco no dia 7 de junho de 2023.
Denunciado por corrupção passiva sistêmica, em março de 2024, Arantes já havia sido alvo da Operação Juramento Quebrado, deflagrada pela Delegacia Especializada de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
O escrivão teve o nome vinculado a um grupo de extermínio que atuava nas Moreninhas, em Campo Grande.
À época, Gustavo estava lotado na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Contra as Relações de Consumo (Decon), com a investigadora Fátima Regina Pereira Benitt, que trabalhava na 2ª Delegacia de Polícia da Capital, localizada no Bairro Monte Castelo.
Ambos tiveram seus afastamentos publicados no Diário Oficial do Estado (DOE) em março do ano passado.
A decisão determinou “o recolhimento das armas, carteiras funcionais e demais pertences do patrimônio público, além da suspensão de suas senhas e logins de acesso aos bancos de dados da instituição policial, sistema Sigo, Infoseg, suspensão de férias e avaliação para fins de promoção e conclusão de estágio probatório”.
Em razão desta situação, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) destacou que as ações do escrivão eram incompatíveis com a permanência dele na Polícia Civil e pediu que, se condenado, o escrivão cumprisse pelo menos quatro anos de prisão. A reportagem entrou em contato com a Corregedoria da Polícia Civil para saber mais sobre o escrivão, entretanto, não obteve retorno até o fechamento desta edição.
OUTROS NOMES
A primeira fase da Operação Snow foi deflagrada em março de 2024, quando o Gaeco prendeu os policiais Anderson Cesar dos Santos e Alexandre Novaes Medeiros, ambos condenados a mais de 19 anos de prisão e à perda da função pública por transportar cocaína de Ponta Porã a Dourados utilizando viaturas oficiais.
Eles recebiam R$ 80 mil em dinheiro pelo transporte, que foi feito pelo menos seis vezes entre julho e agosto de 2023.
O caso se tornou público em setembro daquele ano, quando o Departamento de Operações de Fronteira (DOF) apreendeu 538,1 quilos de cocaína em Dourados. Ambos estavam com 500 tabletes de cocaína, avaliados em mais de R$ 40 milhões, em uma viatura oficial da 1ª Delegacia de Ponta Porã, onde trabalhavam.
Parceiro da trama, o policial civil Hugo Cesar Benites, preso na 3ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, foi flagrado com 10 caixas de cocaína.
Conforme o arquivo de imagens da casa utilizada como entreposto para o descarregamento das caixas transportadas na viatura da polícia, é Hugo Cesar Benites quem realiza a abertura do compartimento de presos e ajuda no descarregamento da droga, prática conhecida no mundo do crime como “frete seguro”, isso porque a viatura, em regra, não é parada, muito menos fiscalizada, por outras unidades de segurança pública.
Nas redes sociais, ambos foram fotografados em um curso para operador de fuzil, “revelando que a parceria na prática de crimes se estendia para atividades convencionais na vida diária”, diz o inquérito.
Consta no relatório de movimentação e passagem de veículos em rodovias federais, obtido na Polícia Rodoviária Federal (PRF), que a viatura da Polícia Civil utilizada por ambos foi identificada no posto da PRF no dia 4 de maio de 2023, com sentido a Dourados.
Depois de algumas horas, passou pelo posto da PRF em Sidrolândia, “de modo que é possível concluir que fez o trajeto Ponta Porã, Dourados, Itaporã, Maracaju, Sidrolândia e Campo Grande”, afirma a investigação.
Na Capital, a polícia diz que ambos só ficaram o suficiente para descarregar a droga, apreendida dias depois, no dia 12 de maio de 2023, pela PRF no município de Terenos.
Do entreposto, a cocaína foi encaminhada até Valdemar Kerkhoff Júnior, fuzilado no dia 27 de junho de 2023, em Ponta Porã, com seu irmão Eder Kerkhoff, “ao que parece, acerto de contas, queima de arquivo”, destaca o Gaeco.
Ambos os policiais foram denunciados por associação criminosa e tráfico de drogas, além de terem sido afastados da Polícia Civil. A viatura utilizada por ambos permanece na delegacia em que trabalhavam e está à disposição da Justiça.
SAIBA
A investigação do Gaeco indica que policiais da Delegacia Especializada de Furtos e Roubos de Veículos (Defurv) também estariam entre os envolvidos, uma vez que podem ter facilitado Joesley da Rosa a recuperar caminhões utilizados para carregar a droga da fronteira até São Paulo.