Artigos e Opinião

ARTIGO

Cezar Augusto Carneiro Benevides: ''Sobre tragédias''

Professor aposentado da UFMS

Redação

22/08/2014 - 00h00

Não temos, normalmente, o hábito de observar o tempo. Comecei a minha vida profissional como aspirante a piloto militar e assim precisava fazê-lo todos os dias, mesmo vivendo em um país tropical. O desaparecimento inesperado do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, candidato a presidente da República, não passa de mais uma tragédia humana recorrente, com efeito potencializado pelo jovem ter sido um protagonista importante na vida política brasileira. A tragédia vitimou também mais seis pessoas. Não conheci Eduardo, mas lembro do seu avô Miguel Arraes. Quando ele fora cassado como governador de Pernambuco, eu estava lá, na cidade do Recife, na residência do dr. Ítalo Joffily Pereira da Costa, grande urbanista brasileiro, que na ocasião exercia a função de fiscal de tributos federais, atuando na zona portuária e em bancos estrangeiros.

Dr. Ítalo me contou sobre a tragédia que se abatera sobre o interventor federal da Paraíba, Antenor Navarro (1931), pouco tempo depois da morte de seu antecessor João Pessoa, que fora assassinado também na cidade do Recife. O avião caiu no mar e só escapou o escritor José Américo de Almeida, grande nome da política nacional.

Poucos anos antes, na festa de formatura, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1929, todos aguardavam o presidente da República, Washington Luís. A conversa na mesa era sobre outro acidente aéreo que havia vitimado vários professores da escola, dois anos antes, inclusive o professor Amoroso Costa, ilustre matemático que havia trazido Alberto Einstein para proferir uma conferência, na Escola Politécnica, exatamente sobre a relatividade do tempo. Para o grande físico, as diferentes temporalidades passado, presente e futuro eram ilusões. Curiosamente os estudantes estavam aguardando no cais do porto do Rio de Janeiro que o navio transportando Santos Dumont, que voltava da Europa, atracasse. A aeronave com os professores aproximou-se do navio para dar boas vindas ao grande inventor, inesperadamente se desgovernou e se precipitou no mar. Morreram todos. Minha turma da Escola Preparatória de Cadetes do Ar completou 43 anos. Na festa de 30 anos (2001), compareci com meu filho Guilherme, em Barbacena, e, segundo os colegas, até aquele momento haviam falecido quase 30 pilotos militares da nossa turma em acidentes aéreos.

Lamento muito o que ocorreu. Mas tenho impressão de que houve imprudência. Sendo assim, compartilho inteiramente com a opinião de Antonio João, neste Correio do Estado: “Ele [Campos] devia ter esperado o clima melhorar. Voar com o tempo ruim é a primeira chance que se dá ao azar.Ritmo de campanha não pode tirar o senso de responsabilidade” (Correio do Estado, 14/08/2014).

Segundo o literato inglês, S. Johnson (1709-1784), “quando dois ingleses se encontram sua primeira conversa é sobre o tempo”. Que os nossos políticos comecem a imitar os britânicos.

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