O complexo ferroviário em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2009, assiste, já há alguns anos, ao renascimento do Carnaval de rua, com blocos e cordões que tomam como palco as ruas de paralelepípedos. Limitada outrora a modestos desfiles das escolas oficiais e bailes privados realizados em clubes, a festividade ocupa agora o espaço que registrou o período áureo da estrada de ferro Noroeste do Brasil, com sua estação e as residências na vila dos ferroviários.
O Carnaval carrega em si diversas camadas de significados e valores, muitos destes reconhecidos como patrimônio nacional. O samba, expressão musical, coreográfica, poética e festiva das mais importantes e significativas da cultura brasileira, manifesta-se de formas diversificadas: tanto o samba de roda do Recôncavo Baiano como as matrizes do samba do Rio de Janeiro (o partido alto, o samba-enredo e o samba de terreiro), são reconhecidos como patrimônio imaterial nacional. O mesmo tratamento recebe o frevo, expressão pernambucana que permeia o Carnaval brasileiro.
Este ano, o centro histórico da cidade abrigará, mais uma vez, o já tradicional Cordão da Valu, que há nove anos insiste em convidar o campo-grandense a “não marcar touca”, ficar e celebrar na Esplanada Ferroviária da cidade durante o Carnaval – pedido esse que vem sendo prontamente atendido por um grande número de foliões. Também na região, o bloco Capivara Blasé aparece para somar forças, em seu segundo ano de realização. Além dos campo-grandenses que vêm para o Carnaval de rua, os moradores da área tombada também aguardam fevereiro para participar da folia, inclusive refrescando os foliões com os já tradicionais banhos de mangueira.
É significativo que estes cordões escolham um conjunto urbano tombado como patrimônio nacional para acontecer: além de resgatarem elementos dessa tradição reconhecida nacional e internacionalmente, estes blocos e cordões voltam nossa percepção para o território, contribuindo para a apropriação do patrimônio pela população, bem como para uma reflexão sobre a ocupação da rua como espaço público, para além de ser faixa de rolagem de automóveis, e sim palco de encontros, manifestações populares, celebrações e produção cultural, de forma democrática e inclusiva, acessível a todos que querem celebrar.
Se antes Campo Grande aguardava o apito dos trens na estação, hoje a espera é pelos apitos dos foliões.