Quando batemos as asas e saímos do ninho, desapegando-nos da infância e partindo em busca de identidade e independência, surgem em nossa mente perguntas intrigantes sobre os mistérios e o sentido da vida.
Por que viemos ao mundo? Para que estamos aqui? Qual o papel de cada um de nós na família? E na sociedade? São muitos os questionamentos que povoam nossos pensamentos e que, muitas vezes, acabam sem explicação plausível, deixando uma sensação de vazio no coração.
Jesus Cristo, em seu gesto sublime de lavar os pés de seus discípulos, bem como em tantas outras passagens da Bíblia, revela a natureza do ser humano e apresenta a resposta para esse dilema existencial. O homem não foi feito para ser servido em primeiro lugar e, sim, para servir.
No entanto, trata-se de um servir repleto de amor, com o coração aberto, humildade e dignidade.
A capacidade plena de amar indistintamente, sem peso e sem medida, envolve o que chamamos de misericórdia, palavra que expressa uma entrega do coração para sanar as misérias do mundo, abrindo os braços ao desconhecido sem pensar em retribuição.
O servir é via de mão dupla. Fato é que, ao ajudar quem sofre, amenizamos indiretamente as nossas próprias dores e angústias, represadas na inatividade e na solidão do dia a dia. Quem já viveu a experiência de servir é testemunha de que, ao estender sua mão para ajudar, passou a enxergar seus problemas de maneira diferente, sentindo-se mais forte e esperançoso, reavivando em seu íntimo a vontade de viver.
Percebo que muitos sentem dificuldade em abrir-se para o serviço solidário, relutantes em se humilhar ou rebaixar perante os que consideram repulsivos ou desprezíveis, não os enxergando como seus “próximos”. Para esses, digo que é necessário aclarar as ideias e, com convicção, assumir que somos todos iguais, sem hierarquia de um sobre o outro.
É uma pena observar também que nos dias de hoje, com tanta violência e maldade estampadas nas mídias sociais, vivemos com medo de agir e de doar nosso tempo, temendo sofrer decepções ou então nos prejudicar.
Pior ainda quando vemos nos jornais diversas notícias de escândalos, corrupção e desvios de verbas que deveriam ser destinadas a quem mais precisa. Isso corrói a confiança e a esperança que depositamos na natureza das pessoas e, pouco a pouco, desmotiva-nos também a colaborar com o servir.
Para esses, tenho viva na memória as palavras de minha mãe, sempre dizendo que aquele que rouba de uma pessoa doente, de uma criança carente, de um idoso abandonado, de quem chora e sofre sem esperança acaba ganhando de brinde um pedacinho do inferno aqui mesmo na Terra.
Acredito firmemente nisso, pois, como diria Einstein, a vida nos devolve exatamente aquilo que lhe oferecemos.
Se lhe presenteamos com o mal, será isso que receberemos. No entanto, apesar de cobertos por tantas nuvens cinzentas de descrédito, não nos sintamos desmotivados nem percamos a esperança no serviço solidário, pois sempre haverá os que lutarão para o bem!
No ano de 2015, a Igreja Católica propõe, por meio da Campanha da Fraternidade, que todos os cristãos, de quaisquer denominações religiosas, abracem o desafio de servir.
Justifica que essa atitude de sair da rotina e comodismo permite-nos fugir do curso do rio de egoísmo do mundo em que hoje vivemos.
Essa proposta coincide com o período da Quaresma, quando somos todos convidados não só à reflexão, oração e penitência, mas também à caridade e à ação. Desafia-nos a não nos tornarmos indiferentes às necessidades dos que estão ao nosso redor, convidando-nos a trabalhar juntos, como irmãos, independentemente da religião ou classe social.
O Papa Francisco, em um discurso recente, enfatizou que o servir não é uma tarefa meramente de instituições de caridade. Reforçou que cada um deve fazer a sua parte, a começar em sua própria casa, em sua escola, em seu trabalho, junto aos seus amigos. É preciso assumir com a vida esse compromisso de viver o amor de maneira concreta e, para isso, lutar insistentemente contra a injustiça, o abandono e o descaso, deixando de lado as diferenças e servindo ao próximo sem distinção.
Desejo de coração que possamos chegar ao fim dessa Quaresma respondendo, conscientemente, que nascemos, estamos aqui e viemos ao mundo para servir, refletindo com nossas vidas a Luz Divina que sinaliza o caminho certo a ser seguido
*médico, escritor, palestrante e compositor (www.fabioaugustooficial.com.br)