Sutil e simples, cresce com cada um, desde a infância, o poder da escolha. Ele chega de mansinho, fazendo-nos decidir entre o sorvete de chocolate e o de morango, e, aos poucos, demanda decisões mais importantes, como a conflitante escolha da profissão, até escolhas complexas sobre que ideologias seguir, em que acreditar, quais causas e crenças abraçar pela vida afora.
Olhando sob um ponto de vista mais abrangente, poderíamos até pensar que, certas vezes, as dúvidas e os conflitos interiores que enfrentamos devem gerar felicidade. Afinal, eles são as provas de que somos livres para fazer as nossas escolhas, de que somos donos das rédeas.
Em épocas conturbadas, quando a violência se alastra e a água recua, investimos mais tempo em questionar. Discute-se a liberdade do homem e o seu poder diante da fragilidade da vida, fala-se de injustiças e acasos.
Segundo o filósofo iluminista Gotthold Ephraim Lessing, defensor do livre pensamento, “a palavra ‘acaso’ é blasfêmia. Nada no mundo é por acaso”. Se partirmos do princípio de que isso é verdade, de que temos as chances de escolher nossa trajetória, podemos reconhecer que a própria palavra escolher já abriga nas letras um pouco de seu significado, nos remetendo ao fato de que: quem escolhe colhe os frutos da sua escolha. Como diziam Tom Jobim e Vinicius de Moraes: “quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade”.
Deparar com essa possibilidade não é fácil, porque surge a necessidade de olharmos para as pegadas que nós mesmos deixamos pelo caminho, no lugar de simplesmente apontar o dedo para um culpado distante. E isso pode doer. Colher os frutos das escolhas exige o comprometimento com a decisão tomada, o reconhecimento da responsabilidade que caminha ao lado da liberdade.
Poderiam as coisas boas e ruins que nos batem à porta serem os resultados das nossas escolhas de hoje e de ontem? Em tempos de individualismo, de corrupção e desmatamento contínuos, fica a pergunta ecoando... Talvez seja tempo de tratar as escolhas com rédeas mais curtas.
Afinal, elas não são autônomas. Elas são comandadas... e cada um de nós dá a ordem de comando para uma porção de coisas pequenas e grandes, começando lá longe, pela escolha do sorvete de chocolate.
E vale a pena valorizar esse comando, tanto quanto possível, para nos tornarmos, cada vez mais, sujeitos da transformação, em vez de vítimas do acaso.
*Jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário, colaboradora do blog www.literaturadograal.blogspot.com.br