A crise bateu às portas do setor varejista e afetou até datas em que o desembolso seria maior
Os comerciantes da região central de Campo Grande amargam, novamente, a frustrada expectativa por projeto que tinha tudo para dar injeção de ânimo no setor. O Reviva Centro, que deveria começar a sair do papel entre os meses de setembro e outubro, ficará, provavelmente, para 2016, sem data prevista para ser iniciado. O atraso no cronograma é balde de água fria no enfraquecido comércio varejista da Capital. Os empresários acusam a prefeitura de falta de planejamento e não deixam de ter razão. A inoperância não é o único problema da proposta, que também passa pelo entrave da falta de recursos para pagar as parcelas do empréstimo previsto para dar andamento à proposta.
O Reviva Centro foi lançado com grande alarde pela prefeitura. O projeto tem como objetivo mudar a cara da Rua 14 de Julho, entre as avenidas Fernando Corrêa da Costa e Mato Grosso, com redução das faixas de trânsito e construção de calçadão para pedestres. Também está prevista a proibição do estacionamento entre a Avenida Afonso Pena e a Rua Cândido Mariano. O relógio central retornaria para a rua, voltando ao desenho original, que existia até 1973. As alterações têm gasto calculado em R$ 65 milhões. Ainda tem verba estimada em R$ 70 milhões para reabilitação da zona central. Para dar andamento, a prefeitura precisa de autorização do empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e, claro, ter dinheiro para pagar as parcelas da dívida, o que chegaria a R$ 32 milhões ao ano.
A licitação da obra está autorizada, mas teve abertura adiada, para que seja feita concomitantemente à assinatura do empréstimo – estratégia lógica, já que a contratação da empresa está atrelada ao repasse de recursos. Porém, em período de crise e corte de gastos, é difícil imaginar que o Executivo, neste momento, assumiria o risco de conta alta. A contenção de despesas continua, e os problemas do primeiro semestre perduram: a greve dos professores e a necessidade de corte de custeio para evitar infração à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). O cenário econômico não é favorável e não será em longo prazo, o que ainda irá afetar as gestões públicas no País.
Ao mesmo tempo, é difícil não entender a situação dos comerciantes em Campo Grande. A crise bateu às portas do setor varejista e afetou até datas em que o desembolso seria maior, como o Dia das Mães. O resultado é queda nos lucros e, consequentemente, corte de gastos. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, de janeiro a maio deste ano, o saldo negativo foi de 705 postos de trabalho fechados. No período, foram 14.547 mil contratações, mas 15.252 demissões. Em 2014, foram 14,8 mil contratações e 15,4 mil demissões, o que já demonstrava que as perspectivas não seriam animadoras para este ano – e, até agora, estas têm se concretizado. Os empresários estão descontentes com a falta de planejamento e estão certos. O setor assiste, impotente, à queda do movimento na região central e ao decréscimo no volume negociado. Mas o cenário não é o melhor para a economia brasileira. O crescimento do número de endividados que não conseguiram nem renegociar as dívidas na Capital são a amostra do que ainda está por vir.