Os que migraram conseguiram reduzir custos, principalmente com aluguel – há caso de queda de 85% nesta despesa –, mas estão usando os ganhos para saldar dívidas
Por dificuldades econômicas e impossibilidade de quitar as dívidas com bancos, a migração é a saída na busca por melhores condições de vida. Esta é a descrição do romance “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, escrito em 1939, mas que não poderia ser mais atual. No livro, a família central da trama foi afetada pela Crise de 1929, a grande depressão americana, que abalou a economia do mundo no século 20. O Brasil vive sua própria depressão, também abalado pelo cenário internacional, mas não consegue se reerguer por conta das medidas – e consequências – da política econômica adotada pela gestão petista. A cada notícia de aumento de inadimplência, de rebaixamento da confiança das agências internacionais e redução de investimento, é certeza de que os efeitos ainda serão sentidos em longo prazo.
Entre os ajustes pretendidos pelo governo federal, como aumento de tributos, e o consumidor, que terá de arcar com este custo, está o comércio varejista. E nele, em sua devida proporção, que a migração do romance americano se repete. É uma situação recorrente nos grandes centros, em tempos de crise, e está tornando-se cada vez mais comum em Campo Grande. Pesquisa informal feita pela reportagem do Correio do Estado, no quadrilátero das avenidas Afonso Pena, Mato Grosso, rua 26 de Agosto e Calógeras, constatou que 180 imóveis comerciais estão fechados, para venda, locação ou, simplesmente, sem funcionamento por tempo indeterminado. Os entrevistados dizem que as vendas caíram, enquanto os gastos aumentaram, como tarifa de energia e aluguel. A atividade começou a arrefecer ainda em 2014, no período da Copa do Mundo, eleições e datas comemorativas que reduziram os dias úteis. Esperava-se crescimento, que não chegou no fim do ano e em 2015. Há casos em que o ponto está para venda há mais de um ano e não há compradores à vista. Os que migraram, conseguiram reduzir custos, principalmente com aluguel - há caso de queda de 85% nesta despesa - mas estão usando os ganhos atuais para saldar as dívidas deixadas para trás.
Enquanto isso, o centro de Campo Grande começa a parecer uma cidade fantasma. O movimento concentra-se nas rua 14 de Julho e Rui Barbosa, na esquinas da avenida Afonso Pena. A medida que se avança, sentido avenida Mato Grosso, os imóveis fechados começam a aparecer. O projeto Reviva Centro, que prevê reordenamento das vagas de estacionamento, remodelação da fiação elétrica e até calçadão, que seria a luz no fim do túnel, está parado. Criado há cinco anos, depende de aval na Câmara de Vereadores para contratação de empréstimo de US$ 56 milhões com o Banco Interamericano Mundial (BID). A prefeitura ainda tem que arcar com pagamento de parcelas da dívida, calculado em R$ 32 milhões ao ano. Para os que permanecem na região central, especialistas recomendam a reivenção do setor, com métodos criativos de redução de custo, mudança no planejamento financeiro e adoção de técnicas publicitárias. Muitos ainda estão com estoque sobrando, o que demonstra o compasso de espera adotado pelos consumidores. Em mercado competitivo e afetado pelos efeitos econômicos, a maioria adotou a cautela e a espera.