Não votei na presidente da República afastada pelo Congresso Nacional, mas não acredito que ela seja culpada no sentido de ser uma pessoa corrupta. Admito que é incompetente e autoritária.
Parece-me ser impossível realizar com êxito alguma tarefa se não tivermos aptidão para tal. A presidente não demonstrou vocação para o exercício do poder político em regime democrático.
Boa parte da população brasileira situa-se ainda no campo da pobreza com condição de vida inadequada. Sabemos que, na sua juventude, desesperou-se com as injustas mazelas e desumanas desigualdades de parte expressiva da população e pegou em armas para tentar alterar, voluntariosamente, a triste realidade nacional.
Fracassou, mas sobreviveu. Agora foi afastada do poder com grande ressentimento. Para uma pessoa, com sua personalidade violenta, parece difícil ter de reparar as escolhas equivocadas de seu protetor.
Espero que esta desagradável experiência tenha lhe ensinado como é difícil, em regime democrático, transformar o país em que vivemos em uma nação melhor.
Ela teria mais chances se tivesse conseguido colocar as forças armadas sob seus vigorosos pés, mas isso é impossível no Brasil por várias razões. O que chama a atenção é a transparência institucional e o elevado preparo técnico e humanista das forças armadas brasileiras.
Elas optaram pela democracia. Fui contemporâneo do ilustre General de Exército Paulo Humberto, Comandante Militar do Oeste, na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1976 e 1977 e ainda permaneci até 1978.
Tive também como colega de turma o fraterno General de Exército Cesar Augusto Nardi de Sousa, atualmente no Ministério da Defesa, em Brasília. Esses homens, só para citar dois exemplos, foram muito bem formados.
O comandante da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas, era o brilhante e destemido Coronel José Maria de Toledo Camargo. Ele foi o verdadeiro formador desses notáveis generais. Depois, como General de Brigada da reserva, e chefe da Assessoria de Imprensa da Presidência da República de 1977 a 1978, teve papel relevante no processo de redemocratização.
Quando no final de dezembro de 1983 a nação assistiu estarrecida ao descontrole do Comandante Militar do Planalto, agredindo um jornalista, o antigo Comandante da Escola Preparatória, não se acovardou e publicou o memorável artigo A religião do exemplo: “o que se viu foi um general irritado, ocupando um posto de alto comando, descontrolado na frente de um gravador e agredindo um jornalista” e disse mais: “Estes milicos que somos ou fomos não merecem as conclusões que se tiram de condutas inadequadas” (Veja, 28 de dezembro de 1983).
Eu me encontrava no Rio de Janeiro para passar o final do ano e enviei, imediatamente, uma carta para a revista que a publicou integralmente.
Em síntese afirmei que o então Coronel José Maria de Toledo Camargo “chefe foi e soube ser” (Veja, 4 de janeiro de 1984).
Poucos dias depois, ao tomar o avião de regresso para Curitiba, encontrei o saudoso amigo a bordo da aeronave e nos abraçamos fraternalmente. Nunca mais nos reencontramos.
Quando fui Pró-Reitor de Ensino de Graduação da UFMS, encontrei em Brasília o seu filho que era o decano da UNB, isto é, também Pró-Reitor de Ensino de Graduação. Guardo do General Toledo Camargo as mais gratas recordações e jamais esqueci o seu exemplo de chefe militar digno e honrado.