A república brasileira já tivera, em cento e vinte e sete anos, cerca de dez governos de transição. O do Sr. Michel Temer é mais um nesta contabilidade histórica. Podemos verificar pela experiência que não é fácil a construção de um Estado Democrático de Direito. Guardo muitas lembranças do ano de 1978 quando decidi deixar, definitivamente, as nossas valorosas forças armadas.
Na qualidade de cadete do curso de engenharia da lendária Academia Militar das Agulhas Negras, lia quase todos os dias jornais e revistas, adquiridos em uma banquinha perto do correioda escola. Anunciava-se na época a sucessão do presidente Ernesto Geisel e na polarização entre os nomes dos generais João Batista de Figueiredo e Euler Bentes Monteiro, optara por este último, brilhante oficial da arma de engenharia, a qual eu pertencia. Meu estimado primo Ceriani, coronel de engenharia, que depois foi adido militar na Venezuela, tinha assessorado o general Euler na antiga Sudene e sempre me falara dele como uma pessoa muito íntegra.
No interessante livro A Ditadura Acabada, do jornalista Elio Gaspari, que acabou de ser lançado, o autor afirma que “ em 1978 a chamada linha dura, que se associara à máquina repressiva do regime, estava no SNI, comandado por Figueiredo e nos DOI-CODI”. Formei a convicção de que o general Euler, já na oposição, jamais compactuaria com a linha dura. Foi naquele contexto histórico que tomei uma das resoluções mais difíceis de minha vida profissional: abandonar a vida militar, depois de quase dez anos, e lutar pela democracia em nosso país. Quando no final do ano o general Figueiredo foi eleito no Congresso Nacional por 375 votos contra 226 do general Euler eu já estava matriculado no curso de engenharia civil da Universidade Federal da Paraíba e me preparando para o vestibular dos cursos de História e Ciências Sociais. Decidi recomeçar minha vida profissional da estaca zero e nunca me arrependi da atitude que tomei em passar para a oposição ao regime.
Outro fato que revelei, recentemente, neste Correio do Estado, foi confirmado também pelo jornalista Elio Gaspari. Ele afirma que “Nini”, apelido do general Newton Cruz, então comandante militar do planalto, em 1983, meteu-se num incidente com um repórter, agarrando-o pelo braço e obrigando-o a pedir desculpas diante das câmaras por um comentário que fizera. Diante do episódio, o general da reserva José Maria de Toledo Camargo, escreveu um artigo condenando o “mau exemplo” dado por um “general irritado e descontrolado”.
O certo é que nada aconteceu ao general Toledo Camargo, nem a este ex-cadete de engenharia que já ocupava o cargo de professor da Faculdade Católica de Administração e Economia, na cidade de Curitiba, e também criticava duramente o governo do presidente Figueiredo na imprensa, principalmente na Gazeta do Povo e na Folha de Londrina. Não fomos punidos porque a transição para o Estado Democrático de Direito estava sendo completada. Melhor assim...