Andava muito nervoso naquele ano, que muitos só se lembram de setembro, quando as torres gêmeas caíram. Assim como na canção da Cássia Eller, eu trocava cheques para sobreviver.
Num dia em que uma chuva repentina me pegou, ao procurar abrigo num ponto de ônibus, dei de cara com aquele rosto ligeiramente conhecido, que se abriu em contentamentos. Nunca fomos próximos, ainda assim, ele danou a falar do seu casamento, que não deu certo, porque a Rosinha – e eu tive que mentir que conhecia a Rosinha, mesmo que, depois de todas as descrições, eu continuasse a pensar na namorada do Chico Bento – queria riquezas que ele não podia lhe dar, mas que resultou na garota tímida, que tentava se esconder no meio das suas pernas.
Contou também do desemprego, da falta de oportunidades para um profissional como ele – motorista, pintor, garçom, algo assim. O arco-íris no horizonte foi a desculpa que eu precisava para me despedir.
Na saída, eu o convidei para aparecer na minha casa um dia qualquer, dessas coisas que a gente fala mais por educação e cordialidade do que sinceridade. Quando alguém bateu palmas no portão de casa no domingo pela manhã, nem sequer me preocupei em trocar a roupa de mendigo que costumo vestir nos fins de semana.
Pensei se tratar de algum religioso, que eu ouviria sem escutar, fingiria ler o panfleto e logo o despacharia. Para minha surpresa, era ele, sorrindo enquanto equilibrava a filha no meio das pernas. Ele entrou e fiquei com raiva do meu cachorro, que balançou o rabo, todo contente. E danou a falar da ingratidão da Rosinha, o corpo aos poucos se esparramando pelo sofá, sem se importar com o tédio da filha, e eu só pensava no que faria para arranjar um cheque emprestado para trocar no dia seguinte.
Para disfarçar, servi um vinho cheirando a vinagre, que estava jogado na geladeira desde o último Natal. Bebemos, e o álcool relaxou meus pensamentos, as contas a pagar aos poucos foram se apagando.
A bebida acabou no exato instante em que ele recordou de um jogo do Operário, de um gol do Arthurzinho, e eu comecei a considerar razoável aquela nossa conversa. O gosto do vinho nos cantos da boca foi o combustível para comprar fiado cinco cervejas e, de repente, o chato já era meu melhor amigo. Rimos, quase choramos, recordamos de tudo um pouco, até afirmamos que, “no nosso tempo”, o ar era mais puro.
“Tem aí um violão?”, perguntou, e eu respondi faceiro que o vizinho tinha e fui lá buscar, enfrentando a cara feia do vizinho, que era um chato que se vestia de mendigo aos domingos, mas que gostou da ideia de ouvir violão, se autoconvidou, levando junto uma garrafa de 51 e uma penca de limões. Vinho, cerveja e caipirinha. Naqueles tempos, eu bebia sem apagar, hoje, só de lembrar, sinto náuseas.
O amigo chato tocou violão e cantou MPB, sertanejo de raiz, e o dia passou tão ligeiro que nem percebemos. Quando ele foi embora, acompanhei seu vulto virando à esquina, um tanto trôpego, as mãos que dançavam pelas costas da filha, lembrança que agora me deixa melancólico, tomado pela certeza de que fui um completo chato naquele difícil ano de 2001.
*Publicitário e escritor
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