O Brasil passa por um momento político com reflexos diretos na economia, no social e no nosso amadurecimento político, que será longo, marcante e que terá como desfecho, um aprendizado pela dor, do papel dos políticos, do judiciário e dos cidadãos dentro do contexto de uma democracia. Esse aprendizado é a esperança do otimista, que nunca abandona a possibilidade de um mundo melhor. Me incluo entre esses, mas, não posso deixar de fazer reflexões de como poderá ser o caminho até alcançarmos esse estágio.
Qual o vácuo que está sendo proporcionado e quais as consequências que esse vazio de representatividade pode representar? Quais forças se beneficiarão com esse enfraquecimento perante a opinião pública, dos nossos três poderes? Até onde podemos ser desobedientes? E se todos se recusarem a receber um oficial de justiça? E se tivéssemos, dentre do poder de escolha, não mais contribuir mensalmente com o INSS?
Os nomes de políticos, que ocupam cargos nos mais altos escalões, envolvidos com recebimento de pagamentos ilícitos, expõem como é tratado o destino do dinheiro do contribuinte. Com isso, conhecemos um pouco mais do projeto político de forças estranhas (que nem são tão estranhas assim), de ocupar o Estado e fazer do Estado, um mecanismo para usufruto de seus objetivos pessoais
O governo de Michel Temer ocupou o vácuo de um governo que traiu quem nele acreditava, que abandonou algumas lutas de seu discurso quando fora oposição (talvez nunca devesse ter saído de lá) e que se impressionou com o poder e para nele se manter, fez alianças com todos. Sarney, Renan, Collor, Temer e tantos outros estiveram juntos com o governo do PT. Se para governar precisava de gente desse tipo, melhor seria não governar. Se quis governar para ser igual aos que combatia, melhor teria sido permanecer como partido de oposição.
Depois de ocupar o governo, Temer se encarregou de atender as condições que foram negociadas para que ele lá chegasse. Para isso, articulou também com o Senado e o Congresso Nacional. Os dois, Congresso e Senado têm se mexido de acordo com seus interesses, e em nome de uma estabilidade para governar, ou então, para se protegerem, estão se tornando cúmplices, um do outro, dentro de cada casa. Nisso tudo, poucos se salvam. Nessa situação caótica, surge outra vez, o vácuo. A ausência do Estado.
A ausência do Estado provoca condições para que a contravenção, o tráfico e o uso abusivo do capital, se estabeleçam nas camadas mais frágeis da população. O desgoverno cria governos paralelos onde não há escola, onde não há universidades, onde não se tem atendimento médico, onde velhos e velhas estão abandonados, onde não há serviço de transporte decente, onde o saneamento básico está ausente. Nesses locais, surgem as forças de segurança autônomas, onde a lei é própria e o cidadão se torna refém de grupos de domínios territoriais. Por ali impera o suborno e outras taxas de sobrevivência.
Antes, porém, de tudo isso se concretizar, criam condições para um racha na população, nada melhor para quem quer se beneficiar da balburdia. Criam então os coxinhas, os mortadelas, os comunistas, os de direita, os de esquerda, os que que querem uma intervenção militar e outras qualificações que sequer conseguem explicar. Esquecem um passado, ou quando lembram, escondem o que não é de seu interesse. Se tornam torcedores. Se dividem em nós contra eles. Disfarçam e não reconhecem que em algum momento foram enganados e usados como massa de manobra.
A pergunta que fica é como iremos suportar até 2018? E nesse vácuo de ingovernabilidade, de um governo com claras demonstrações a que veio, como reagirá a população? Lembramos que somos novos no exercício de uma democracia e que esses aprendizados pela dor não podem nos mover a agir somente pelo revanchismo. Quem governa, governa para todos, inclusive para quem é contra seu governo. Governante tem que pensar coletivamente. Um bom presidente, governador ou prefeito, se faz pelo diálogo, não pelos acordos que descaracterizem suas propostas de governo.
As empresas fechadas, os esvaziamentos de alunos no ensino superior, o abandono de cidades bonitas, a precariedade nos transportes coletivos, as costas viradas para o lazer da população, a saúde na UTI, a insegurança nas ruas, contrastam com a postura e atitudes de alguns políticos que parecem se mostrar imunes às tragédias humanas. Aliás, delas têm-se utilizados, deixando para nós o vazio, que sai de dentro deles. Afinal, a gente só dá o que tem.