O dia 16 de outubro de 1991 caiu numa quarta-feira. Foi uma data especial para a comunidade católica de Campo Grande. O Papa João Paulo II pisou nessa terra de José Antonio Pereira, com sua bata alvíssima e cabelos esvoaçando ao vento e percorreu os caminhos previamente estabelecidos pelas autoridades locais.
O papamóvel do Santo Padre passou ligeiro em meio a milhares de fiéis que agitavam suas bandeirolas brancas, aglomerados ao longo das Avenidas Duque de Caxias e Afonso Pena. Essa cena eu acompanhei pela mídia, já que, a convite da querida Irmã Silvia Vecellio, eu havia me programado para ir ao Hospital São Julião no dia seguinte, onde o Papa teria um encontro com os portadores de hanseníase e um certo número de convidados.
A quinta-feira amanheceu clara, luminosa. Dentro da capela, somente alguns doentes e freiras residentes no São Julião. Os convidados estavam do lado de fora, ladeando o longo percurso que o Papa deveria fazer a pé dentro daquele belíssimo lugar, cheio de paz e de verde.
Algumas pessoas, visivelmente emocionadas, quase não se continham, espichando, a todo momento, o olhar para a porta de onde surgiria João Paulo II. Ao meu lado, uma amiga, esposa de um ex-político, era, por certo, no nosso grupo, uma das mais ansiosas.
Finalmente, uma imponente visão surgiu, magnetizando a todos. Teve início, então, uma prolongada explosão de palmas, que se intensificavam a cada passo dado pela Sua Santidade, conhecido e admirado por ser um pacifista capaz de parar guerras, de juntar membros de várias religiões, sendo considerado um dos líderes mais influentes do século XX. As pessoas iam estendendo os braços para tocarem pelo menos nas vestes de João Paulo II.
Também fiz o mesmo, ao que fui retribuída com um forte aperto de mão. O que veio a seguir foi algo inesperado: minha amiga, ao lado, entrou literalmente em crise, começando a gritar sem controle. Sua Santidade, espantada, retirou imediatamente o gesto santo já estendido em direção a ela, e dos seus olhos e voz firmes, acostumados até a influenciar líderes políticos , como Lech Walessa, fundador do Solidariedade, a primeira organização sindical de oposição ao mundo comunista, surgiu um sonoro “Ah, questo no!”. E continuou a caminhar tranquilo e sereno em busca de outras mãos menos ávidas e assustadoras. Voltei para minha casa naquela manhã buscando justificativa pra aquela reação inesperada da minha amiga, uma profissional gabaritada e competente em sua área de atuação, que havia feito Sua Santidade recuar, abruptamente, ante suas mãos freneticamente estendidas.
Penso tê-la encontrado na “Arte Poética”, de Aristóteles, em que o filósofo grego nos ensina sobre a catarse (catharsis) que se traduz na tentativa de purificar a alma, por meio de uma descarga de sentimentos e emoções.
Ou, como queira a Psicologia, no “ato de colocar para fora aquilo que é estranho à natureza humana em sua integridade. A satisfação de liberar a energia emocional acumulada.”
Anos após a vinda do Papa, eu ainda me pergunto se Karol Josef Wojtyla – homem de rara inteligência, engajado com justiça social, que ajudou a proteger e esconder judeus poloneses dos nazistas em sua juventude; que veio a se tornar teólogo, filósofo e Papa, sabendo se expressar em 14 línguas; que beatificou 1.340 pessoas e canonizou 483 santos, teria compreendido afinal a reação catártica de uma jovem senhora campo-grandense, naquela iluminada manhã de quinta-feira, num dos mais belos e sagrados recantos desta Morena.