Nesse tempo de delações premiadas e desmentidos deslavados, tenho me lembrado muito de uma estória que me foi relatada pela amiga Suely Neder, campo-grandense nata e grande memorialista. O caso se deu no início dos anos sessenta, quando a urbe era ainda uma pacata cidade interiorana e a televisão não tinha chegado por aqui.
Havia um casal, já de meia- idade, cuja mulher contratou uma nova empregada, muito bonita. O patrão assanhou-se e, naquele tempo, quando assédio sexual ainda não era tipificado como delito, passou a cercar a moça que, diante de tantas e insistentes investidas, por fim, caiu na sua lábia.
A partir daí, nas visitas que o casal regularmente fazia a amigos, depois do jantar, como era costume na época, ele passou a falhar, pretextando uma leve indisposição, a necessidade de revisar algum trabalho e outras desculpas meio esfarrapadas, sempre insistindo com a mulher para que não faltasse aos compromissos. Ela, até então, nunca pressentira qualquer deslize do companheiro, acreditava piamente em tudo o que ele lhe dizia e justificava suas ausências, desdobrando-se em atenções aos anfitriões, para compensar aquilo que, de todo modo, parecia-lhe uma indelicadeza .
Certa noite, já próximo da residência para onde se dirigia, percebeu que se esquecera dos biscoitos feitos para guarnecer uma vasilha trazida com uns mimos para ele. Na época, não se admitia devolver vazio um prato que tivesse sido recebido com algum alimento. Ao retornar a sua casa, surpreende o marido nu e a empregada, também nua, enrolada em um lençol. O fato era explícito, inequívoco, não havia dúvidas. As provas contundentes estavam todas lá, corroborando a traição.
O safado, diante do flagrante, não se deu por achado. Investiu contra a esposa, tentando arrancar-lhe a roupa, ao mesmo tempo em que gritava, “quero todo mundo nu”. A simulação do surto, embora meio canastrona para pessoas próximas, revelou-se eficiente, pois, acreditando na encenação, ou não querendo passar recibo da galhada, a mulher cumpriu ao pé da letra o preceito que prega o companheirismo “na saúde e na doença”. Telefonou a vizinhos e parentes, que vieram em seu socorro, para acudir o gajo acometido com o súbito ataque de loucura.
Levaram-no para o hospital, onde teria sido consultado e, dizem, até medicado. Ela, contristada, relatava a todos o sucedido, fazendo crer que se convencera da doença do marido. O círculo de relações do casal teceu uma rede de proteção em torno dela e, apesar de a notícia desse espetáculo bufão correr como rastilho de pólvora, não chegou aos seus ouvidos. E assim, ambos se blindaram e viveram felizes para sempre...
Quando vejo o desmentido de envolvidos nas delações, homens e mulheres, de todos os partidos, de todos os lugares, de todas as ideologias, de todos os poderes, de todas as religiões e mais, quando vejo a canhestra indignação de alguns, a falsa surpresa de outros e o grande cinismo de muitos, vem à mente o conselho preconizado para as situações sem saída, “negue até a morte”, tão bem ilustrado no registro dessa crônica. Vai
que cola?