A sociedade vem se modernizando a cada dia e, com isso, a indústria traz para o mercado produtos cada vez mais variados, com a intenção de atrair consumidores. Os produtos que são levados às prateleiras são mais sofisticados e mais funcionais em sua aparência que os mais antigos, despertando em nós, consumidores, o desejo de ter algo melhor, mesmo que o objeto que temos em mãos esteja em boas condições. Com a ideia de que, “se as pessoas não compram, a economia não cresce”, surgiram dois artifícios utilizados pelas indústrias para motivar as pessoas a consumirem: a obsolescência programada e a obsolescência perceptiva.
A obsolescência programada corresponde ao fato de um produto ser planejado para ter uma vida útil reduzida, como pode ser observado nos eletrodomésticos em geral. Segundo o filme “A História das Coisas”, obsolescência programada é outra forma de dizer “criado para ir para o lixo”. Grandes corporações fazem seus produtos de modo que sejam inúteis tão rápido quanto possível para os consumidores os descartarem e voltarem a comprar outro. Isso é óbvio em sacolas ou copos de plástico, mas agora se verifica em produtos maiores, como DVDs, máquinas fotográficas, churrasqueiras e computadores. Um computador, por exemplo, muda sua tecnologia rapidamente, e, para “renová-lo”, não basta apenas trocar uma peça; em geral, a solução é um novo computador. Ou seja: os produtos atuais são mais suscetíveis a danos e, quando necessitam de consertos ou reparos, estes não são economicamente viáveis em comparação ao valor de um novo produto. E o produto, na maioria das vezes, é descartado ou armazenado.
A obsolescência perceptiva é outra forma de estímulo ao consumo. Ocorre quando um produto passa a tornar-se descartável em consequência do surgimento de uma nova versão em seu estilo ou linha de montagem. Um exemplo emblemático está na indústria da moda. As conhecidas calças “bocas de sino” voltam, depois de mais de três décadas, para as vitrines, com um novo nome e estilo, a calça flare (numa tradução literal, “alargada”), amplamente difundida na mídia, sobretudo nas telenovelas populares, e com sucesso garantido junto ao público feminino, graças ao forte apelo propagandístico que seu uso por celebridades representa. Dessa forma, passa-se a uma imposição de um determinado estilo e, caso não haja adesão, você está fora do contexto, e, portanto, desatualizado. Além disso, muitas vezes, o vício em consumo pode gerar dificuldades socioeconômicas e até problemas familiares.
Esses dois artifícios utilizados pela indústria, apesar de fazerem o consumo aflorar e gerar lucro para as indústrias, têm impactos negativos, em especial sobre o meio ambiente. A produção de lixo no mundo deve ter um aumento de 1,3 bilhão de toneladas para 2,2 bilhões de toneladas até o ano de 2025, segundo as estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Para os especialistas da entidade, a gestão dos resíduos e o descarte correto de materiais tornam-se cada dia mais imprescindíveis para que o mundo caminhe na direção de um desenvolvimento sustentável.
É por essas razões que temos de (re)aprender a prática de, ao entrar em alguma loja ou supermercado, refletir se aquilo que queremos adquirir é realmente necessário e se vai ou não pesar no nosso bolso e no futuro do planeta.
Em face desses dados e projeções, é necessária a intervenção do Estado para regular o descarte e criar campanhas de conscientização para consumidores acerca dos impactos ambientais decorrentes do descarte irregular de resíduos sólidos, (re)educando-os para que se tornem mais humanos e mais cidadãos.
* Dayane dos Santos Cunha: Acadêmica do curso de Ciências Contábeis da UFMS – Três Lagoas e Edenis Cesar de Oliveira: Professor do curso de Administração da UFSCar – Buri/SP