Artigos e Opinião

COMPORTAMENTO

Roberta D'Albuquerque: "Longe e perto"

Coluna semanal sobre infância e comportamento

Redação

31/12/2018 - 19h00
Notícia sem imagem

Roberta,

Encerro minhas pendências de 2018 hoje. Voltamos a conversar no dia 17 de janeiro quando recomeço minhas atividades. Feliz ano novo.

Um abraço.

De todas as mensagem de fim de ano que recebi, essa foi sem dúvida a minha predileta. “Encerro as minhas pendências” não é uma frase qualquer. Entendo que falávamos aqui de pendências profissionais, entendo também que sua tradução neste contexto não passa de um: “favor não me escrever durante as férias”. Tudo claro. Ainda assim, saber que alguém teve a força de digitar “encerro minhas pendências” não deixa de ser comovente.

Para além dos abraços de Natal, encontros de família, presentes ou promessas de sacrifícios para o janeiro que se aproxima, o que me põe mais enternecida nas festas de fim de ano é a esperança de mudança: “2019 promete!”, “Ano que vem vai ser diferente!”, A partir de terça-feira…”

É bonito e é ao mesmo tempo triste. Veja bem, se a vida seguir como está. Se você continuar trabalhando no mesmo lugar, morando na mesma cidade, mantendo os mesmos hábitos, e principalmente se continuar lidando com as suas questões da mesma maneira, imprimindo o mesmo tom nos seus relacionamentos o que fará com que seja diferente? Em que tipo de promessa estamos depositando as nossas fichas?

Mudanças exigem movimento. E movimentar-se dói, dá trabalho. Sabe a imagem de alguém tentando subir a escada rolante que desce? Pronto! Tomar a direção contrária é um pouco isso. Vai parecer bobo, vai exigir muito mais força, vai ter gente olhando torto, vai demorar mais do que o normal. Mas se as duas escadas estão descendo e você já não quer ficar no andar que está, não tem muito jeito, certo? Errado. O jeito é se convencer de que não dá para subir. Melhor não, deixa o que está incomodando aqui quietinho. Deixa a pendência desaparecer sozinha, “2020 promete!”.

Promete, mas não cumpre. Não quero ser eu a dar a má notícia, mas ou se olha para as pendências ou se fica na promessa. Para a colega que enviou a mensagem que inicia esse texto, vai por aqui meu feliz ano novo. Deus me livre perturbar o descanso de quem encerrou as pendência, bravo! Para vocês, que me acompanharam doces e delicados durante o ano que passou, desejo fôlego e joelhos fortes. Vamos?

* Roberta D'Albuquerque é psicanalista, escreve semanalmente neste espaço e em diversos jornais do Brasil sobre infância e comportamento, é autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que...

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