Abelhinhas atarefadas não precisam do olhar. Adotaram mais zumbido. Descobriram que ficar olhando por aí atrapalhava sua tarefa determinada.
Na porção humana do planeta, a tarefa é olhar para o celular. Pessoas estão olhando tudo, menos olhares estranhos. Cabisbaixas, as abelhinhas humanas estão muito ocupadas. O tempo todo. Talvez uma forma de desprezar outros olhares. Talvez como uma forma de esconder a dificuldade do seu olhar. Não sabemos se a tela de um celular reúne todos os encantos necessários à vida ou nela se encontra a atenção perdida no mundo massificado. Afinal, na tela do celular pode-se escolher o que queremos olhar com mais atenção, diferente dos humanos, que usam o olhar para definir a atenção que deseja dispensar. Pessoas podem ser atropeladas ou ter um acidente por causa do celular, como também podem ter uma decepção ao outro olhar. Muitos preferem o acidente que a decepção. Civilizados gostam do celular, mas crianças, em processo de humanização, gostam do olhar. Elas são bastante objetivas. Só dão a atenção que querem receber. Na falta dela, preferem a tela do celular, deixando de lado a atenção adulta, sempre querendo algo e troca.
Na terra, as abelhinhas humanas não conseguem ficar à toa. No ar, as abelhinhas atarefadas estão sumindo, dando valor ao pólen florido, enquanto os humanos dão valor ao celular. Mel é produto da tarefa. Celular é produto da solidão comunicativa. Além de seco e distante, toma o tempo do valioso vagar descomprometido, tão necessário para relaxar um pouco da sociedade, que exige atenção e objetividade em tudo. Até para dormir, estabeleceram um tempo padronizado, em que o celular substituiu o abajur de cabeceira.
Enquanto abelhinhas fogem do agrotóxico para não contaminar seu mel, os humanos se escondem de um olhar sincero na tela do celular.
Em tempo de avanços na tecnologia de ondas eletromagnéticas, a tela de um celular vem substituindo o bom e velho olho no olho, em que a sinceridade sempre pode ser revelada. Já o celular gosta de fakes, de todo tipo.