Velhice ou maturidade poderiam ser sinônimos, mas se tornaram conceitos e adjetivos para um corpo em desuso pela máquina do capitalismo selvagem, tirando da vida ativa e produtiva e destinando a uma vida contemplativa o período mais saboroso da existência humana. Além do mais, tira o elemento mais importante da sua identidade pessoal, sua ocupação. É nesse período da vida que o ser humano encontra o equilíbrio entre o individual e o coletivo. Sua maior virtude não é a velocidade ou a pressa. É a paciência. O olhar calmo. A qualidade no lugar da quantidade. Mais essência do que aparência.
Em tempos de reforma da Previdência, o limite de idade só serve para o funcionalismo publico, em que grande parte fica vendo a banda passar e a esperar nova oportunidade para reinventar a vida, pois ficar algemado a estabilidade funcional deve ser um martírio. Definitivamente, o corpo humano com seus bilhões de músculos lisos e estriados é sempre um convite a movimentar-se. Pode ser que certo condicionamento cultural a idade da razão vá perdendo interesse, porém, continua apta à vida intensa.
Tanto neurologistas, psicólogos e geriatras sabem que nesse período da vida o professor de educação física substitui, na maioria dos casos, o dinheiro gasto com medicamentos, que resolvem menos do que um exercício diário. Além do mais a imposição do mercado de trabalho de selecionar faixas etárias como sinônimo de desempenho produtivo tem a cara da pós-modernidade, em que tudo é volátil, objetivo, racional e instável, justamente do que a maturidade se distancia. O ido é comprometido e sério em tudo que faz, pois sabe que seu tempo diminui a cada dia. Assim, a intensidade no lugar da provisoriedade tão presente nos jovens que procuram seu ponto de equilíbrio é a diferença entre a novidade jovial e o equilíbrio maduro. Seu exercício preferido é apostar distância de hospitais. Já sabe que tem armas suficientes para enfrentar as bactérias hospitalares. As mesmas que tiraram Dino Rocha do nosso convívio.
Intelectualmente, a inspiração no sexagenário Ricardo Boechat deve servir de exemplo aos velhos antecipados e constatar que seu potencial de raciocínio melhorava com a idade. Dava baile em muitos colegas mais jovens. Marília Barreiros Correia de Melo bate recorde de natação aos oitenta anos em Minas Gerais. O corpo humano permanece o mesmo há séculos. Parece que quanto mais o mundo foi desvendado suas místicas superstições sobre o envelhecimento, a curiosidade e o ânimo pela novidade se transformaram no elixir da vontade de viver mais e com prazer maior. Não é a ideia de vida intensa que indica o caminho da morte, mas a ideia obstinada e submissa de morrer por antecipação ainda em vida. Na idade madura se descobre o tanto que é inútil ser passivo na direção da sua vida. Sabendo que todas as vidas têm começo, meio e fim, o humano conta com poderosos instrumentos para se negociar o tempo de vida, que se chamam sentimento e emoções e ocupação cerebral. São outros elixires indispensáveis para manter a vontade de viver.
Negar os cabelos brancos inevitáveis não vai esconder sua maturidade, sua escolha por ambientes e pessoas mais descoladas, o gosto mais parecido com sua identidade pessoal e nem a porção de sabedoria que vai se acumulando por anos a fio, às vezes, sem chance de exercitá-la, acaba tingindo os cabelos de branco, como sinal de que a paz, o amor, o bom senso e a transparência estão por perto. Bom seriam mais cabelos brancos, pois junto a eles está a autenticidade.