O leitor do Correio do Estado não encontrará na edição impressa, e muito raramente na edição on-line, informações sobre movimentos paredistas de ocasião na Santa Casa de Campo Grande.
E o motivo é bem simples: trata-se de um problema em que as partes envolvidas, Santa Casa e prefeitura da Capital, parecem não ter interesse em resolvê-lo de uma vez por todas, enquanto funcionários e parte da imprensa têm servido de instrumento de chantagem em meio a uma disputa financeira.
Neste início de agosto, não foi diferente. Mais uma vez a Santa Casa atrasou o pagamento de seus funcionários e, certamente, mais uma vez a prefeitura, que em algumas situações atrasa ou retém repasses, deverá fazer os pagamentos e a situação se normalizará rapidamente.
O problema é que a situação tornou-se cíclica, ocorre quase todo mês. Talvez a única pausa nesta relação tóxica entre a prefeitura e o hospital ocorreu no período da pandemia de Covid-19.
Há quase dez anos, desde que a intervenção do município sobre a Santa Casa teve fim, que o problema se repete. Pudera, anualmente, quase R$ 300 milhões são repassados pela prefeitura para o maior hospital de Mato Grosso do Sul.
Um grande volume de recursos como este, embora de direito do hospital, não sai tão facilmente dos cofres públicos.
Por outro lado, o hospital não dá à sociedade as provas de que faz uma boa gestão do dinheiro público que recebe. As práticas de gestão e a transparência com os recursos públicos, que são quase a totalidade dos serviços realizados pelo hospital, são praticamente inexistentes.
As contas da Santa Casa vivem nas trevas, e tudo o que se faz às escuras desperta desconfiança.
No mês passado, já havíamos falado neste mesmo espaço sobre a necessidade de a Prefeitura de Campo Grande, que é gestora plena dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS), depender menos da Santa Casa em serviços de saúde de alta complexidade.
As alternativas: construir um hospital municipal ou distribuir parte destes serviços para outras unidades da rede pública, privada ou beneficente. Tudo isso, porém, só poderia ser feito no médio e longo prazo.
Enquanto nada disso acontece, prefeitura e Santa Casa devem ser coerentes e responsáveis. A primeira deve fazer um diagnóstico coerente da demanda por atendimento e administrar de uma forma razoável os recursos que o Ministério da Saúde repassa para ela. A segunda deve ser mais transparente e mais eficiente na gestão e tratar melhor os seus funcionários.
A Santa Casa tem um grande passivo de dívidas bancárias, fruto de escolhas duvidosas feitas por gestores que passaram por lá nos últimos anos. Os compromissos financeiros do hospital impedem que a verba destinada ao atendimento do cidadão, de fato, cumpra esse fim.
No fim das contas, quem precisa de atendimento e o funcionário, que presta o serviço, são os mais prejudicados.