Nascemos em um país onde a divina natureza nos privilegiou com suas cores em abundancia. Tanto assim é que, desde o início, esse predicado encantou navegantes que por aqui assentaram marco. Isso está patente em seus primeiros relatos, reverenciando nossos prados e rios, nossa fauna e flora, nossas montanhas e florestas.
Atracaram por aqui com intenções centradas na exploração e na produção de atividades lucrativas. Em meio à natureza generosa e policromática, encontraram também povos que por aqui já habitavam. Deve ter sido um choque cultural ver índios nus, com corpos pintados e supercoloridos, usando enfeites e cocares feitos com penas de animais. As cores, dependendo da etnia, diferenciavam das mais simples para as do dia a dia, das mais elaboradas para as de celebrações e eventos especiais. Enfeites e pinturas corporais com corantes naturais não eram para esconder a nudez, mas expressar artisticamente significados.
No decorrer da colonização, as vilas abrigaram as primeiras manifestações arquitetônicas. As edificações continham semelhanças lusitanas, aos poucos adaptadas às nossas técnicas, aos materiais, à cultura e, principalmente, ao colorido cenário brasileiro. Eram fortes, igrejas, casinhas caiadas, branquinhas, mas com portas e janelas em cores primárias, alegres, vívidas, às vezes cheias ou em tons suaves.
Pelas cores, as cidades brasileiras ganharam beleza e personalidade. Não sem razão ficamos conhecidos como um país colorido, da alegria, da hospitalidade, da simpatia espelhada em nossa cultura. Basta pensar nas vestimentas, nas danças, nas músicas, nas cidades e nas paisagens de nossos estados. Por todo o território nacional, enfim, as cores não se intimidaram: foram elas também demarcadoras de nossa identidade.
Apesar disso, nos últimos tempos, arquitetos brasileiros parecem esquecidos ou receosos delas. A começar pelos condomínios residenciais fechados, quase que padronizados pela utilização de bege, cinza, grafite e preto. Até mesmo nos edifícios verticalizados – sejam residenciais e corporativos, sejam institucionais – as fachadas são tratadas em cores dessa mesma matiz. Nas ruas dos comércios, nos locais de bares e restaurantes, predominam letreiros luminosos sobre fachadas pretas ou grafites. Tudo muito parecido.
Bem sei que estamos em outros tempos, mas parece que esquecemos das lições que nossos mestres deixaram. A boa arquitetura brasileira não envelheceu ou perdeu qualidade pelo uso da madeira, de telhados e varandas, bem como pela aplicação equilibrada de cores. A beleza dos casarios em nossas cidades históricas – edifícios exemplares modernistas, protagonistas da arquitetura plena de brasilidade – está até hoje como prova inegável.
Nada contra o preto ou o cinza. Como diriam: o que seria do amarelo se todos gostassem do vermelho ou alguma outra cor? Por meio da psicologia das cores, sabemos que elas interferem em nossas emoções, em nosso dia a dia. Às vezes nem notamos que o amarelo favorece a alegria, nos sentimos revigorados com o vermelho, aconchegados pelo laranja, tranquilizados pelo verde, introspectivos pelo azul e por aí vai.
Quanto ao cinza e ao preto, não podemos esquecer de sua demonstração de modernidade e elegância, é bem verdade. Entretanto – não sei se por modismo ou pela dita “tendência” –, há um certo exagero em seus usos nos ambientes urbanos hoje construídos.
Não se trata, por isso, de dividir o mundo entre preferências poli/monocromáticas. Claro que tudo depende de cada um, de sua aceitação, de sua preferência. Lembremos que as cores estão obrigatoriamente atreladas à cultura e às emoções. Por isso, quando – por qualquer razão que seja – nos referirmos a um edifício, não deixamos de mencionar principalmente a cor marcante dos elementos arquitetônicos de sua composição ou da sua fachada retida na imagem mental que deles fizemos. Como fazer isso agora com edifícios parecidos e cores padronizadas?
O jeito é jogarmos uma “pá de cal” na arquitetura das edificações, a fim de aliviar a mão no uso excessivo do cinza, do preto e de outros tons neutros. Caso contrário, legaremos para o futuro a cultura de cidades hoje cultivadas cada vez mais previsíveis, monótonas, abatidas, melancólicas, enlutadas.