A disputa entre a XP Investimentos e o consórcio formado pelo fundo Galapagos e a empresa K-Infra pelo controle da Rota da Celulose, conjunto de rodovias que abrange, entre outras, a BR-262, a BR-267 e a MS-040, ganhou um desdobramento minimamente surpreendente, já que não era de se esperar que o consórcio vencedor da licitação omitisse informações relevantes dos promotores do leilão, que são o governo de Mato Grosso do Sul, a B3 e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
O episódio levanta uma pergunta inevitável: de quem é a culpa? Talvez de todos.
Compliance é uma palavra que veio para ficar no vocabulário corporativo. Mas, se existisse de forma efetiva, dificilmente estaríamos diante deste imbróglio. A irregularidade que levou à desclassificação do consórcio poderia ter sido detectada antes do pregão, evitando o constrangimento público e a insegurança jurídica.
O primeiro vencedor (desclassificado e agora podendo ingressar com recurso) poderia ter sido simplesmente inabilitado antes mesmo de ser batido o martelo.
Diante desse cenário, é legítimo questionar: será que a B3 é mesmo o suprassumo da eficiência quando o assunto são leilões e parcerias público-privadas?
A Bolsa brasileira vende a imagem de um ambiente moderno, regulado e seguro para transações bilionárias, mas episódios como este abrem rachaduras nessa narrativa. A credibilidade, como sabemos, é um ativo frágil.
Também fica no ar outra dúvida: compliance não tem sido, muitas vezes, apenas uma palavra da moda, repetida em discursos e manuais, mas ignorada na prática? A má-fé no meio corporativo não é coisa do passado.
Empresas ainda fraudam balanços, recorrem a engenharias contábeis para mascarar dívidas e escondem irregularidades sob camadas de formalidade. Quando isso acontece em processos de concessão pública, o impacto não é apenas financeiro, mas também social.
O prejuízo, afinal, não se limita ao embate entre corporações ou à reputação das instituições envolvidas. Ele chega ao cidadão comum. A Rota da Celulose, que deveria ser entregue a um operador habilitado e apto a realizar investimentos, terá sua concessão atrasada.
O calendário de obras e melhorias será empurrado para frente e quem depende diariamente dessas rodovias continuará enfrentando sinalização um tanto precária e riscos à segurança.
O mais preocupante é que o caso não parece isolado. Em vários setores, licitações e parcerias são palco para manobras questionáveis, falhas de fiscalização e interpretações complacentes de regras.
As perguntas estão lançadas. Enquanto isso, o sul-mato-grossense continuará a esperar. Esperar pela entrega da Rota da Celulose, pelos investimentos prometidos e pela melhoria nas condições das estradas.