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Algumas reflexões sobre direita e esquerda

O foco final é a sociedade, o ser humano como seu destinatário, o problema está no radicalismo exacerbado ou exagerado desses enfoques, ou seja, na sua intransigência

Os vieses ideológicos de direita e de esquerda, com conceitos enraizados na Revolução Francesa de 1789, em si, são salutares.

Um faz contraponto ao outro. São abordagens valorativas diferentes de ver a mesma coisa. São enfoques diversos de como as pessoas enxergam, entendem e sentem o mundo e a sociedade. Nesse diapasão, longe de se repelirem, complementam-se!

O foco final é a sociedade, o ser humano como seu destinatário. O problema está no radicalismo exacerbado ou exagerado desses enfoques, ou seja, na sua intransigência. Neste viés, ambos se julgam donos absolutos da verdade.

O “nós e os outros” ou “nós e eles”, utilizado tanto por um lado como pelo outro, é bem revelador dessa assertiva fora da curva.

O extremismo, seja de que lado for, não acrescenta nada, ao contrário, incentiva a discórdia, acirra os ânimos entre as pessoas, como se estivesse falando de dois mundos diferentes. Um diálogo de dois inimigos!

O radical vê o mundo conforme as suas conveniências.

Prioriza-se a parte que lhe convém, em detrimento do todo. Um olhar vesgo! Aliás, mesmo que se esforce, nem mesmo o princípio da pluralidade explica ou justifica esse olhar torto!

A propósito, é pertinente o recente artigo do cientista e economista da USP Michael França, publicado na Folha de São Paulo, no dia 9/6/2026, p. A17, quando afirma que “esquerda vs. direita virou disputa de cego com cego”.

Segundo esse articulista: “Uma pessoa madura deveria ser capaz de dizer: a esquerda tem algo importante a ensinar sobre proteção social e concentração de riqueza. A direita tem algo importante a lembrar sobre liberdade individual e os limites do Estado. O erro começa quando cada campo transforma suas verdades parciais em dogmas. A maturidade política começa quando aceitamos que ninguém está certo o tempo todo. Nem a esquerda. Nem a direita”.

Sem essa compreensão, o caráter pedagógico do diálogo cai por terra!

O radical se esquece de que o razoável seria buscar, em uma visão atual, pragmática e humanitária, encontrar um ponto de equilíbrio para se ver o mundo e a sociedade e, com isso, conciliar o interesse individual com o interesse social, sem se afastar das premissas filosóficas apregoadas por Hobbes e Rousseau há séculos.

Aliás, a nossa Constituição Federal, em vários dispositivos, busca dar voz ao equilíbrio individual e social, a exemplo da contemplação do direito de propriedade e da sua função social. Igualmente, nas chamadas ações afirmativas, entre outras.

As ditaduras, sejam de direita, sejam de esquerda, são resultantes do embate radical. Elas (ditaduras) não visam ao bem comum, ao interesse da sociedade, do ser humano, e sim à manutenção do status quo por interesses próprios e de grupos dominantes. Um autêntico maquiavelismo!

Portanto, nenhum pecado há em ser de direita ou de esquerda. O pecado capital está na irracionalidade do radicalismo. O caminho racional, menos tortuoso e espinhoso, é, sem dúvida, a maturidade política do ser humano!

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