Artigos e Opinião

ARTIGO

Segunda época

Precisamente no século passado, quando ainda no colégio, eu era craque em desenho geométrico, embora “perna de pau” em matemática. Vivia um ano escolar de satisfação, pois a grade escolar considerava como média final de uma única matéria a soma das duas notas daquele saber acadêmico.

Até então eram essas as regras pedagógicas que foram alteradas no fim do ano e que para minha surpresa após os exames, passaria com elogio em desenho e seria reprovado com louvor em matemática. De nada adiantou o “jus sperneandi”, meu protesto, pois a decisão desfavorável transformaria a minha garantia em um infortúnio.

A parte mais difícil era revelar aos olhos do meu pai a ocorrência, a decepção, o súbito e justificar a frustração do resultado daquele fracasso retumbante e ouvir sobre o fato pesaroso, primeiro aquela preleção e a seguir a repreensão provável.

Pois bem, o que ouvi? – A segunda época foi feita para o aluno (palavras da salvação). Sabe o que significava? 

Significava uma segunda chance e ali já estaria posto tanto o rol das obrigações e das perspectivas negativas: o fim das férias, ter de estudar, fazer o dever de casa que não tinha feito, a possibilidade de mudar de escola e companheiros pelo fato de ficar atrasado, o valor das mensalidades dobradas que pesariam no orçamento, ouvir durante um ano a mesma “inana”, e o pior, a desconfiança sobre as expectativas que tinham sido colocadas sobre meus ombros, como a oportunidade de mostrar a habilidade de aceitar e driblar as vicissitudes da vida juvenil. 

Tudo se acertou, e felizmente compreendi que na vida não existe certeza, pois a incerteza nos ronda e não podemos adivinhar o futuro, embora devamos ter a capacidade de adaptação ao desafio e gerenciar a rotina diária.

Metaforicamente trazendo essa lembrança para o contexto das eleições e o resultado atual, posso dizer que o segundo turno nas eleições nada mais é que uma segunda época. 

Uma chance para corrigir as falhas de planejamento separando-as dos fatores externos, avaliar friamente que se sucedeu, o que foi errado, fazer autocritica sem apegar-se ao resultado negativo, e considerar que a reprovação não é um ponto final e sim uma oportunidade de rebater o fracasso a partir de uma nova perspectiva e atitude desenhando a estratégia a ser assumida.

Mudar a abordagem, tentar com ferramentas mais afiadas, evitar inteligentemente a persistência na teimosia cega é o combustível que move os realizadores diante dos obstáculos, pois o triunfo não pertence a quem não cai, mas a quem domina a arte de se levantar mais forte depois do tombo.

Analistas políticos afirmam que parcelas da população canalizaram falsamente suas frustrações socioeconômicas contra o sistema político estabelecido, e que supostamente falhou em entregar estabilidade e o crescimento sustentável, uma narrativa desleal, incluindo mentiras sobre a precarização dos serviços públicos e de salários irreais.

Com discursos xenofóbicos, negacionistas e fascistas sempre relacionados na tríade, ordem, pátria e segurança os movimentos da direita ganham força sub-repticiamente. E assim alimentam o medo sobre o descontentamento dos bens materiais e os valores tradicionais consolidando sua principal força de contestação e poder.

Para enfrentar e passar no segundo turno, e conquistar indecisos, os progressistas devem se travestir das mesmas ideias propostas pelos seus adversários políticos, como concentrar sua comunicação digital em um número reduzido de temas e produzir conteúdo adaptado para esses formatos dinâmicos, saindo das bolhas tradicionais de mídia escrita acadêmica e serem repetidos e diretos para a fixação das narrativas.

Importante é substituir termos técnicos por uma linguagem simples e universal pautando as decisões governamentais que afetam diretamente a renda e o bem-estar familiar e ter em mente que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado. A prática mostra que se deve evitar o confronto de crenças pessoais, mantendo o foco estrito no papel social do Estado e combatendo boatos de viés anticlerical e saber que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado, todavia sempre alertando sobre as conquistas reais com propostas concretas e as relacionadas ao futuro do emprego, bem-estar e os direitos sociais. 

A direita tem demonstrado vantagem estratégica no uso das redes sociais e na comunicação digital direta ao capturar os anseios das novas gerações de eleitores, e pautar costumes em defesa da família tradicional e dos valores religiosos para os mais velhos. 

Considerar tais objetivos será um ponto de partida para uma virada no segundo turno eleitoral, valendo-se do aprendizado para quem entendeu o significado da segunda época.

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