Artigos e Opinião

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Do sistema de controle ao sistema de integridade

Auditoria, fiscalização, correição e responsabilização continuam indispensáveis, mas já não bastam para representar toda a contribuição que hoje se espera dos órgãos de controle interno

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Acompanhei as discussões do 22º Encontro Nacional de Controle Interno, realizado nos dias 16 e 17 de setembro pelo Conaci, organização que congrega órgãos de controle interno de todo o Brasil. O encontro evidenciou uma transformação na forma de compreender o controle interno.

Auditoria, fiscalização, correição e responsabilização continuam indispensáveis. Mas já não bastam para representar toda a contribuição que hoje se espera dos órgãos de controle interno.

Se fosse preciso sintetizar o movimento revelado pelo encontro, diria que estamos ampliando uma lógica de sistema de controle em direção a uma lógica de sistema de integridade. Não porque controlar tenha se tornado menos importante, mas porque integridade amplia o olhar para as condições que favorecem boas decisões e comportamentos íntegros.

A confiança é uma dessas condições. Na abertura do encontro, Michel Alcoforado colocou-a no centro da discussão. Quando a desconfiança se torna a premissa, a resposta tende a ser mais controle e burocracia.

Ocorre que controles baseados predominantemente na suspeita podem reduzir engajamento e cooperação, enfraquecer a cultura de integridade e alimentar novas razões para desconfiar.

Romper esse ciclo não significa controlar menos. Bons controles reduzem arbitrariedades, aumentam a previsibilidade e ajudam a construir confiança institucional. Mas controle, por si só, não produz integridade.

Uma atuação mais madura precisa considerar também as condições que influenciam decisões e comportamentos.

Essa evolução aparece no Modelo de Maturidade das Unidades Centrais de Controle Interno (Mucci), apresentado no encontro: quanto maior a maturidade, menos a atuação se limita a reagir aos problemas e mais procura evitá-los, compreender as suas causas e atuar sobre as estruturas e os sistemas para gerar valor.

Essa evolução sugere uma ampliação do papel dos órgãos de controle interno.

Sua maturidade não pode ser percebida apenas pela capacidade de encontrar irregularidades, mas também pela contribuição para criar condições que favoreçam comportamentos íntegros, melhorem decisões, estimulem aprendizagem e cooperação, inspirem confiança e ampliem a capacidade da organização de gerar valor para a sociedade.

Essa perspectiva exige olhar não apenas para o desvio, mas também para o contexto em que decisões e comportamentos acontecem. Normas e controles continuam necessários, mas riscos, incentivos, cultura, confiança e capacidade de aprendizagem também importam.

Duas expressões do encontro sintetizam essa transformação: a integridade como a “alma de todas as macrofunções” e a ideia de “gerar confiança para gerar valor”.

Integridade não substitui o controle. O controle é parte de um sistema mais amplo orientado à integridade. Controle é indispensável. Mas integridade é maior do que controle.

Talvez esteja aí uma boa medida de maturidade: não apenas quantos problemas o controle interno consegue encontrar, mas quanto contribui para que a organização consiga evitá-los e, quando ocorrerem, aprender com eles e reduzir a possibilidade de que se repitam.

A pergunta “está tudo conforme?” continuará indispensável. Mas precisa caminhar ao lado de outra: o que estamos fazendo para aumentar a capacidade da organização de fazer o certo antes que seja necessário corrigir o erro?

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O Brasil entre dois caminhos

O voto constitui uma das mais importantes manifestações da cidadania e a forma pela qual o povo participa da construção dos destinos do País

06/10/2026 07h20

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Como é de conhecimento geral, voto e democracia caminham lado a lado. A relação é intrínseca, um não existe sem o outro. No Brasil, segundo garante a Constituição Federal de 1988, todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

O voto constitui, portanto, uma das mais importantes manifestações da cidadania e a forma pela qual o povo participa da construção dos destinos do País.

No domingo, dia 4 de outubro, o Brasil foi novamente às urnas. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva, 45,16%. Nenhum alcançou a maioria absoluta e, no dia 25, o eleitor brasileiro será novamente chamado a escolher o presidente da República.

Dois candidatos, dois projetos e visões distintas sobre os caminhos que o Brasil deverá percorrer nos próximos quatro anos. A pequena diferença nas urnas revela um País politicamente dividido e aumenta a responsabilidade do eleitor neste segundo turno.

Mas outro número merece especial atenção. O Brasil tinha 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Mais de 33 milhões não compareceram às urnas, uma abstenção de 21,08%, a maior desde 1998.

Em outras palavras, mais de um em cada cinco eleitores deixou de participar da escolha. É um número que preocupa e convida à reflexão.

Em 2018, escrevi neste mesmo jornal o artigo “A festa fúnebre da democracia brasileira”. Naquela oportunidade, chamava a atenção para o distanciamento de parcela considerável da população da vida política e para o descrédito provocado por sucessivos escândalos, denúncias e decepções.

Oito anos se passaram. Mudaram personagens e circunstâncias, mas a elevada abstenção demonstra que permanece o afastamento de milhões de brasileiros do processo político. É compreensível a decepção.

O que não podemos permitir é que a indignação com a política se transforme em indiferença com a democracia. Quando o cidadão deixa de escolher, outros escolhem por ele.

Vivemos também um período de intensa polarização. Divergir faz parte da democracia. Transformar quem pensa diferente em inimigo, não. Famílias, amizades e relações pessoais não podem ser destruídas porque existem opiniões políticas distintas.

Democracia exige liberdade para escolher e maturidade para respeitar a escolha do outro. Nas próximas semanas assistiremos a uma disputa intensa. Mais importante do que acusações e ataques pessoais será apresentar propostas concretas para os problemas que afetam a vida das pessoas.

O Brasil precisa mudar. Não podemos continuar adiando decisões importantes nem tratando problemas históricos como se o tempo fosse capaz de resolvê-los sozinho.

Segurança pública, saúde, educação, equilíbrio das contas públicas, geração de empregos, redução das desigualdades, eficiência do Estado e desenvolvimento econômico exigem coragem para enfrentar pautas sensíveis, planejamento e, sobretudo, responsabilidade com as próximas gerações.

Não existem soluções fáceis para problemas complexos. Por isso, o segundo turno não deve ser apenas uma disputa entre nomes ou paixões políticas, deve ser uma oportunidade para discutir o Brasil que queremos construir.

Aos candidatos cabe apresentar seus caminhos, ao eleitor, pesquisar, comparar propostas, conhecer trajetórias e distinguir informação de propaganda, verdade de mentira e convicção de fanatismo.

Que aqueles que se abstiveram no primeiro turno reflitam sobre a importância de sua participação e que todos exerçam livremente, no dia 25, o direito de escolher, segundo sua consciência. No fim haverá um vencedor e um vencido. É da democracia.

O que não pode haver é um Brasil vencido pela intolerância, pelo radicalismo, pela indiferença ou pela incapacidade de mudar. Governos passam, adversários se alternam no poder e eleições terminam. O Brasil permanece acima de todos. E é a ele que devemos nossa maior lealdade.

EDITORIAL

Mercado reage e dá seu recado

Os movimentos registrados depois do primeiro turno servem como um sinal importante sobre o que investidores e agentes econômicos esperam dos próximos meses

06/10/2026 07h15

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O resultado das eleições começou a produzir efeitos antes mesmo de o próximo governo assumir. Após a apuração, o mercado financeiro reagiu positivamente à vantagem de Flávio Bolsonaro na disputa.

O dólar caiu e a Bolsa disparou, em um movimento que revela a percepção dos investidores diante da possibilidade de mudança no cenário político e econômico do País.

É importante, contudo, separar expectativa de realidade. O mercado financeiro reage a perspectivas, e não a fatos consumados.

Uma eleição não produz, por si só, mudanças imediatas na economia, mas os movimentos registrados depois do primeiro turno servem como um sinal importante sobre o que investidores e agentes econômicos esperam dos próximos meses.

Entre essas expectativas está a possibilidade de redução dos juros, como o leitor poderá conferir com mais detalhes em reportagem publicada nesta edição.

Se essa redução efetivamente ocorrer, os efeitos podem ser positivos para uma parcela significativa da população, independentemente de qualquer política governamental específica adotada posteriormente.

Juros menores significam, antes de tudo, crédito mais barato. Para quem se endividou e hoje enfrenta dificuldades para honrar compromissos, um cenário de taxas menores pode abrir uma oportunidade para renegociar dívidas em condições mais favoráveis.

Não é uma solução automática para o problema do endividamento, mas pode representar uma diferença importante no orçamento de famílias e empresas.

Para quem pretende contratar um financiamento de longo prazo, a queda dos juros também é uma notícia positiva. Comprar uma casa, investir em um negócio ou adquirir equipamentos pode se tornar mais acessível quando o custo do dinheiro diminui.

Quando o crédito volta a circular com maior facilidade, toda a economia tende a se beneficiar: empresas passam a ter mais condições de investir, consumidores podem ampliar o consumo e novos negócios podem ser estimulados.

É um ciclo que, quando acompanhado de responsabilidade e confiança, pode contribuir para a geração de empregos e renda.

É preciso, entretanto, não exagerar o significado desse primeiro movimento. A reação positiva do mercado representa apenas uma mudança no cenário macroeconômico, ainda baseada em expectativas.

As demais mudanças dependerão das escolhas políticas e econômicas que serão feitas daqui para a frente. É preciso esperar.

O mercado, de alguma maneira, já deu seu recado. A reação da Bolsa e do dólar demonstra como os agentes econômicos estão interpretando o resultado eleitoral. A população também deu o seu sinal nas urnas, ao colocar os candidatos diante de uma nova configuração política.

Cabe agora aos dois candidatos que avançaram ao segundo turno observar esses sinais. Mais do que comemorar resultados ou explorar derrotas, é preciso compreender o que eles representam. A economia responde a expectativas, mas também responde a decisões concretas.

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